Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Livros de Caleia Rodrigues (aicep notícias N12, 1.Julho.2009)

Encontra-se nas livrarias o último trabalho do nosso ex-colega Caleia Rodrigues, “Petróleo, Qual crise?”, o que constitui para nós motivo de satisfação e orgulho, porque nos vemos ao espelho ao alto nível técnico de quantos trabalham ou trabalharam nesta casa, autêntica forja de valores, que dia a dia dão o seu melhor ao serviço da nossa economia.
Com prefácio de um outro amigo da nossa Agência, Neto da Silva, o presente trabalho explica-nos com clareza e mestria tudo aquilo que todos deveríamos saber sobre este combustível fóssil que continua a condicionar toda a actividade económica mundial, e é elemento fulcral das tramas da geopolítica, a propósito da qual Caleia Rodrigues editou, em 2000, o volume “Geopolítica do Petróleo”. Deu também à estampa, em 2005, outro manual indispensável para bem fazermos o nosso trabalho, intitulado “Marketing Estratégico Internacional”.
Parabéns e obrigado, caro José Júlio.

Domingo, 12 de Julho de 2009

Um ano de choque do petróleo. Mas sem direito a parabéns (Jornal i, 10.Julho.2009)

Observadores acreditam que a energia é um perigo enorme para a retoma

Faz amanhã um ano que o petróleo atingiu 147 dólares por barril, o valor mais alto de sempre. Hoje, o valor da matéria -prima, da qual Portugal (e tantas outras economias) depende de forma esmagadora, está 58% mais barato. Haverá razões para sorrir de alívio? A evolução dos mercados mostra que não: desde o mínimo (35 dólares) de finais de Dezembro de 2008, o barril de petróleo Brent já subiu mais de 70%. Para os especialistas a resposta também é "não": defendem que nada de fundamental mudou na capacidade de oferta (produção); e que, quando vier a retoma, voltarão os mesmo problemas de excesso de procura e desperdício elevado que, no passado, ajudaram o ouro negro a vencer recordes.
É consensual entre os economistas que a actual crise está a ser tão violenta que irá mudar a face das economias: estas voltarão a crescer, sim, mas sem a pujança do passado. Mas será assim com o petróleo? Estarão definitivamente afastadas convulsões como o bloqueio dos camionistas portugueses que em Junho de 2008 deixaram secar bombas de gasolina por todo o país? O preço da comida, que precisa de percorrer terra e mar até chegar à mesa, ficará estável? E o plástico dos brinquedos e dos computadores, continuará a ser barato?
Parece que não. Luís Mira Amaral, professor do Instituto Superior Técnico e ex-ministro da Indústria, acredita que só haverá alguma paz nas cotações do petróleo no "curto a médio prazo" (ver entrevista na página seguinte).
O Fundo Monetário Internacional (FMI) mostrou recentemente que o custo do petróleo não vai esperar por grandes expansões económicas: o preço médio da matéria prima deverá disparar 23% em 2010, essencialmente à boleia da China e Índia, apesar da zona euro continuar em recessão (-0,3%) e dos Estados Unidos crescerem apenas 0,8%.
A tese que hoje corre é simples: o mundo industrializado, dos Estados Unidos à China, não muda de hábitos de um dia para o outro. Nem de uma década para a outra. Mesmo com mais esforço nas energias renováveis e com mais consumo eficientes e inteligente, a dependência é "estruturalmente enorme", defende Matthew Simmons, presidente da Simmons & Co. Internacional, um banco de investimento especializado no sector energético.
Aliás, Portugal é disso exemplo: segundo dados da BP para 2008, estruturalmente o perfil de consumo pouco mudou: 80% da energia consumida - petróleo e gás natural - é importada.
O consultor e escritor de livros sobre energia, que trabalha a partir de Houston, Texas, acredita que os preços hoje praticados no mercado do petróleo "estão a abrir caminho para algo muito perigoso daqui a alguns meses". O quê? "Um novo choque petrolífero", acredita. A tese é que os preços baixos (a média diária deste ano está em 52,5 dólares) não chegam para financiar novos investimentos, nem modernizar as estruturas de produção existentes, nem contratar pessoas. E depois há ainda o travão do acesso ao crédito: com a crise financeira, o dinheiro tornou-se definitivamente um bem mais raro e caro.
José Caleia Rodrigues, consultor de empresas petrolíferas, subscreve esta tese. "Há vários factores que explicam a necessidade de preços mais altos: o petróleo que existe está cada vez mais longe e difícil trazer para cima, a crise representa uma dificuldade acrescida ao financiamento de tecnologias mais sofisticadas e caras, há falta de pessoas qualificadas nestas áreas. Hoje é tudo mais difícil para chegar à mesma quantidade de petróleo. E o difícil é caro. Os preços actuais do petróleo desincentivam mais investimentos".
Na cimeira do G8, que hoje acaba, França e Reino Unido pugnaram por uma acção mais firme dos governos contra a especulação no petróleo. Querem limitar a volatilidade nas cotações, um propósito também partilhado pela administração Obama. A Rússia, um importante produtor de crude e gás, avisou que isso vai ser "impossível".

Jornal i
por Luís Reis Ribeiro, Publicado em 10 de Julho de 2009

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Artigo de opinião (autohoje, 3.Julho.2009)

O consumo mundial de petróleo tem aumentado a uma taxa próxima dos 2 por cento ao ano, até que as grandes bolsas petrolíferas, há longo tempo em exploração, começaram a atingir taxas de esgotamento tão importantes que poderão mesmo vir a pôr em risco o corrente abastecimento do mercado. Os efeitos causados pelo galopante esgotamento das bacias em exploração, poderão assumir dimensões potencialmente devastadoras.
Numa situação desta natureza, as consequências da diferença entre oferta possível e procura exigida serão, sem sombra de dúvida, muito maiores que o considerado admissível, à luz da segurança e da soberania nacionais.
Apesar de alguma retoma, o recente aumento de novas descobertas não tem correspondido ao aumento da procura, o que leva a considerar a hipótese da eventual existência de períodos de carência de abastecimento a curto prazo.
A acentuada e rápida descida dos preços verificada a partir do mês de Julho de 2008 não se ficou a dever às boas razões esperadas. Não foi motivada pelo aumento da produção ou da tão desejada eficiência energética. Deveu-se, outrossim, à redução da procura que acompanhou a redução da actividade económica nas principais regiões industrializadas. Logo, tudo leva a crer que, mal passada as causas que a motivaram, regresse, em força, a pressão sobre a oferta.
Há que ter em conta que a exploração de novas bolsas petrolíferas exige tecnologia e onerosos recursos específicos. Terão que ser exploradas mais longe, mais fundo e mais caro. De salientar que a futura geração de energia requererá níveis de investimento muito mais elevados do que os aplicados no passado, para compatibilização da satisfação da procura com as exigências ambientais, a descarbonização dos produtos energéticos e o acréscimo dos custos resultantes da implementação de reforçados sistemas da segurança das instalações de extracção e de transporte.
À quase estagnação de investimento registada na década de 1990 seguiu-se uma outra, aparentemente de ainda maior dimensão, a partir de 2006. O conjunto de anúncio de cancelamento de projectos e de “adiamentos por período indeterminado” tem aumentado de forma crescentemente preocupante. Porém, grande parte dos projectos que não arranquem no imediato, não estarão prontos para entrar em serviço em 2012-2013, prazo que tem sido considerado como limite para manutenção dos actuais níveis de produção mundial. Mas as dificuldades de captação do indispensável financiamento, a que se associa uma generalizada crise de confiança e de incerteza em relação à retoma económica global, não nos permitem atingir um grau de optimismo que nos tranquilize quanto à exigível garantia da continuidade de abastecimento.
J. Caleia Rodrigues
Analista e consultor dos mercados energéticos

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Portugal regista terceira maior quebra mundial no consumo de energia (Jornal i, 12.Junho.2009)

Crise leva portugueses a levantar o pé do acelerador e a consumir menos petróleo. Mesmo assim, a factura em euros disparou em 2008.

Devido à crise, à seca e ao choque petrolífero, Portugal registou a terceira maior queda mundial no consumo de energia durante o ano passado, mostra um estudo da British Petroleum (BP). Os maiores apertos aconteceram no Turquemenistão e em Hong Kong. O consumo nacional de energia (maior parte dele petróleo importado) pode ter caído mais de 5%, mas a factura em euros continuou a crescer (mais 15%, segundo contas do i), roubando assim poder de compra às famílias e competitividade às empresas.
De acordo com a Revista Estatística de Energia Mundial da petrolífera britânica BP, a factura de Portugal com petróleo valia mais de 6,9 mil milhões de euros no final do ano passado. Este valor representa um aumento de 15% face a 2007 e um peso de 4,2% no Produto Interno Bruto (PIB), o nível mais alto desde 1985. Mas nesse ano a economia cresceu quase 3%, ao passo que em 2008 estagnou, acusando já uma recessão no final do ano. Desde a entrada na União Europeia (CEE em 1986) até às vésperas da actual crise, o peso médio da factura com petróleo foi de 2,4% do PIB, quase metade da de 2008.
Para António Costa e Silva, presidente da Partex Oil and Gas, a holding da Fundação Calouste Gulbenkian para a área da energia, significa que “não é tanto o preço do petróleo que comanda o consumo dos portugueses, mas antes o rendimento disponível”. “Enquanto as pessoas tiverem dinheiro não vão estar verdadeiramente interessadas em reduzir a despesa que fazem com combustíveis, procurando alternativas mais eficientes. Um país como Portugal, que tem as fragilidades estruturais na criação de riqueza que são conhecidas, tinha de reduzir obrigatoriamente muito mais o consumo para evitar o impacto dos choques petrolíferos e da volatilidade deste mercado”, refere. “Se não o fez em 2008, quando o petróleo chegou quase aos 150 dólares o barril, imagino que o país terá muita dificuldade em fazê-lo quando vier a retoma e uma nova subida dos preços das matérias primas”, lamenta. Os políticos são igualmente responsáveis por esta inércia, argumenta o responsável da Gulbenkian: “poucas medidas de eficiência energética anunciadas pelo governo passaram à prática e as que foram para o terreno estão a ter pouco ou nenhum impacto”.
Os especialistas argumentam que os portugueses – famílias e empresas – têm de fazer mais para poupar energia. Partilhar carro, usar veículos mais eficientes, organizar as cidades por dentro e por fora, apostar no comboio e nos transportes públicos, organizar a sua logística, construir edifícios mais inteligentes.
Luís Mira Amaral, ex-ministro da Indústria e da Energia, também considera que é o dinheiro na carteira de cada português que mais determina o que se gasta em petróleo: “É óbvio que é crise que está a reduzir a procura por energia. Mas antes desta crise Portugal já estava em crise e isso reflecte-se na falta de investimentos em eficiência e na falta de visão e de educação das pessoas relativamente a estes assuntos. Se sobra dinheiro, gasta-se, não se mudam comportamentos enraizados, o que explica o agravamento da factura”.

Bomba-relógio

E por quanto mais tempo podem os portugueses contar com o petróleo nos preços actuais?

“Quando a retoma chegar a sério, dentro de poucos meses, haverá procura suficiente que justificará preços cada vez mais altos do produto”, estima José Caleia Rodrigues, consultor em energia e autor de vários livros sobre petróleo. “Há vários factores que explicam a necessidade de preços mais altos: o petróleo que existe está cada vez mais longe e difícil trazer para cima, a crise representa uma dificuldade acrescida ao financiamento de tecnologias mais sofisticadas e caras, há falta de pessoas qualificadas nestas áreas. Hoje é tudo mais difícil para chegar à mesma quantidade de petróleo. E o difícil é caro.”
Esta tese é defendida pela própria BP. O presidente da companhia, Tony Howard, estima que o preço do crude terá de oscilar entre 60 a 90 dólares para sustentar o investimento que depois gerará oferta adicional para satisfazer a procura.
Em 2008, diz a BP, o comércio mundial de petróleo caiu quase 2%, a maior descida desde 1987 devido à forte retracção no consumo dos países mais ricos, onde Portugal está incluído.

Petróleo
• Representa quase dois terços da energia consumida em Portugal. Consumo caiu 5% em 2008
Gás
• Segunda maior fonte de energia (18% do total), teve uma subida de 9% para compensar a menor produção eléctrica das barragens
Hidroeléctrica
• Vale 7% do total. Como 2008 foi um ano seco, as barragens produziram menos 32% de electricidade
Carvão
• Terceira fonte mais importante (14%). Consumo caiu quase 5% devido a melhoramentos na central de Abrantes

Jornal i
12.Junho.2009
José Reis Ribeiro

No mercado instável do petróleo, uma certeza: os preços vão subir (Jornal i, 13.Junho.2009)

A OPEP indicou ontem que o pior para os produtores de petróleo já terá passado.

Há menos de um ano, em Julho de 2008, o barril de petróleo tocava no máximo histórico de 147 dólares. Numa queda de cinco meses, até Dezembro, afundou para um mínimo de 32 dólares. Desde então o preço já duplicou e está agora em 72 dólares. O que podem os portugueses esperar nas bombas de gasolina este Verão? Uma certeza: podem contar desde já com uma subida dos preços dos combustíveis.
Desde o mínimo atingido em Janeiro deste ano, o preço da gasolina já subiu 22,5% (mais 23,7 cêntimos por litro, para 1,291 euros) e o gasóleo 8,5% (mais 0,079 cêntimos, para superar a barreira de um euro). Ontem, a Galp aumentou em meio cêntimo o preço da gasolina, apontando para a subida recente do preço da matéria-prima, o petróleo. Esta subida não deverá ser a última, uma vez que nos mercados internacionais o preço médio do gasóleo fechou a semana a subir 4%, com a gasolina a ganhar 2,2%.
A subida do preço do petróleo tem vindo a antecipar a esperada recuperação da economia mundial, afectada pela maior crise desde a segunda guerra mundial. Os observadores do mercado apontam que pode haver um excesso de optimismo nos mercados - a recuperação é ainda uma possibilidade frágil - o que deverá levar a uma correcção do preço na próxima semana.Contudo, a tendência geral do preço é de subida. Ontem, o cartel dos países produtores de petróleo, a OPEP, indicou que o pior (para quem vende) já terá passado, apesar de ter cortado ligeiramente a procura esperada em 2009 (uma contracção diária de 1,62 milhões de barris). O especialista José Caleia Rodrigues indicou ao i que assim que a retoma começar a dar sinais mais firmes, haverá condições para o preço subir. O presidente da BP, Tony Howard, fala de um intervalo entre 60 e 90 dólares.

Jornal I
Bruno Faria Lopes
Publicado em 13 de Junho de 2009

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Até quando vai a crise anular a alta dos preços do petróleo? (Jornal de Negócios, 10.Dez.2008)

A recessão eclipsou quatro anos de subida do petróleo. Ao mesmo tempo, o mundo vira-se para energias alternativas. Mas a dependência da matéria-prima está longe do fim. E o preço baixo pode ser efémero e ter efeitos perversos.

O plano de investimento em infra-estruturas avançado esta semana por Barack Obama para reanimar a economia americana fez disparar o preço do petróleo e o valor em bolsa das petrolíferas. Mas a agenda de mudança do Presidente eleito dos EUA é outra. A aposta vai para a diminuição da dependência daquela matéria-prima, substituindo-a pelas energias renováveis. Mas é improvável que este esforço pelo maior consumidor de crude do mundo seja capaz de impedir o regresso do preço a níveis recorde.
Aos primeiros sinais de contaminação da crise financeira à economia mundial, a cotação do petróleo inverteu a tendência. Quando a palavra recessão passou a lugar comum no discurso de economistas e responsáveis políticos, a matéria-prima já perdera metade do seu valor. Hoje, mais de 100 dólares separam o preço actual do recorde registado em Julho, com os especuladores a desertarem e o mercado a ajustar à diminuição da procura.
"Os preços do petróleo estão a descer pelas más razões: uma diminuição da procura, em consequência da redução da actividade económica. As boas razões seriam que a procura diminuísse por vontade dos consumidores ou pelo aumento da eficiência energética", considera Caleia Rodrigues, especialista e autor de vários livros sobre o petróleo.
É esse o rumo que o mundo agora procura. Obama fez das energias renováveis uma das bandeiras da campanha à Casa Branca. Prometeu libertar a nação da dependência dos combustíveis fósseis através da promoção de fontes alternativas, gastar 15 mil milhões de dólares em tecnologias limpas e criar cinco milhões de "empregos verdes" na próxima década. O futuro Presidente quer também assegurar que no final do seu primeiro mandato, 10% da electricidade consumida nos EUA venha de fontes renováveis como a eólica, solar e geotérmica, e colocar em circulação até 2015 um milhão de carros eléctricos, de preferência fabricados nos Estados Unidos.
Para Caleia Rodrigues, é duvidoso que as energias renováveis sejam a solução. "As energias alternativas não resolvem o problema, não põem o mundo a funcionar". "A energia eléctrica, por exemplo, é viável para os transportes de vaivém diário entre as cidades e as periferias. Mas não para os transportes de longo curso e estes são indispensáveis para manter a globalização. Vão ser precisos mais combustíveis fósseis, a menos que se acabem os transportes internacionais e as trocas comerciais", advertiu.
A manter-se a dependência dos combustíveis fósseis, o preço actual do petróleo representa um risco elevado. "Esta situação é grave porque paralisa todo o investimento", afirma o especialista. Só com preços entre 60 e 70 dólares, os gestores podem considerar proporem aos accionistas a aposta em projectos de exploração petrolífera.
Se as coisas se mantiverem neste pé, "irá haver uma forte escassez de petróleo no mercado e os preços atingirão níveis exorbitantes", considera Caleia Rodrigues. O que levará a dois cenários: "quem puder pagar, pagará a qualquer preço; quem não puder pagar, terá graves situações sociais e de segurança interna", salienta.
Jornal de Negócios
10.Dez.2008
Carla Pedro
cpedro@negocios.pt
António Larguesa
alarguesa@negocios.pt

Domingo, 24 de Maio de 2009

Novos recordes são um choque? (DN, Especial, Crise Petróleo, 19.Out..2007)

O barril está a caminho dos 100 dólares e pouco falta para bater o nível mais alto de sempre registado em 1980 - valor ajustado à inflação - antes do conflito Irão-Iraque. Mesmo com a ajuda do euro, que atenua o efeito em Portugal, o aumento dos preços não se vai limitar aos combustíveis - transportes, electricidade, indústria e até alimentação

Pode ser um choque para as famílias os preços a que chegaram os combustíveis, o transporte aéreo ou os cereais. Pode ainda ser um choque para as empresas os elevados custos da produção cimenteira, siderúrgica e até automóvel. E pode ser um choque para todos o preço da electricidade e do gás natural. Será certamente um choque quando a factura energética de Portugal subir ainda mais. Mas, para a generalidade dos peritos, os actuais recordes do barril não constituem um novo "choque petrolífero". Pelo menos nos moldes daquele que ficou celebrizado pelas extensas filas à porta dos postos de combustíveis, no início da década de 80, e que tinha na sua origem os efeitos da revolução iraniana.
"Esta subida dos preços não é necessariamente uma escalada. É uma inevitabilidade. O petróleo é um bem finito e está a acabar. Portanto, isto não é um choque. É uma situação normal, dado o actual contexto estrutural de exploração", explicou ao DN José Caleia Rodrigues, especialista em questões petrolíferas e autor do livro Petróleo? Qual Crise? (ed. Booknomics). E esse contexto é marcado, independentemente das questões conjunturais (ver caixa na pág. ao lado), por uma diminuição das reservas de petróleo para explorar, por uma procura global quase incontrolável (com a emergência das fortes economias asiáticas) e por problemas na exploração e refinação. "Consoante o investimento que se for fazendo na exploração, o petróleo pode durar mais 30 ou mais 40 anos. Mas vai acabar", adiantou o mesmo perito.
A projecção deste futuro no presente dá-se através do actual equilíbrio entre consumo e fornecimento, cujos níveis - ligeiramente acima dos 80 milhões de barris por dia - estão praticamente sobrepostos. O resultado é que qualquer perturbação no consumo (aumentos pontuais conforme as épocas do ano) ou no fornecimento (fenómenos climatéricos, tensões políticas ou sociais, problemas tecnológicos) leva os preços a acelerar a sua inevitável trajectória ascendente.
É por isso que o preço do barril negociado em Nova Iorque atingiu esta semana um novo recorde nos 89 dólares. O brent de Londres está um pouco abaixo nos 84 dólares. E esta é uma diferença substancial em relação ao "choque petrolífero" da década de 80: a transformação do petróleo num produto financeiro, susceptível de reagir a especulações e a razões pouco materiais.
Recorde-se que em Abril de 1980 o petróleo chegou aos 101,70 dólares, o "verdadeiro" recorde, se tivermos em conta os valores ajustados à inflação. A média desse ano foi de 90,46 dólares, superior aos cerca de 67 dólares de 2007. Portanto, ainda não chegámos aos níveis que definiram o "choque petrolífero". Mas as circunstâncias também são diferentes. "Na altura, havia capacidade excedentária de produção para compensar a saída forçada do Irão devido a questões políticas. Agora não há", adiantou Caleia Rodrigues. Por outro lado, o "choque" definiu-se por um disparo súbito dos preços. A actual subida tem sido gradual. E, na década de 80, o consumo ressentiu-se de imediato. Actualmente, o consumo tem vindo a adaptar-se lentamente (com a ajuda da "explosão" das energias alternativas).
No entanto, apesar das diferenças, a dependência mundial é grande e a subida dos preços já se sente no bolso dos consumidores (ver textos na página ao lado). Para James Williams, da consultora WRTG Economics, "os efeitos já se sentem, em termos económicos, nos EUA e podem conduzir a uma recessão. Na Europa, o efeito é menor por causa da valorização do euro (ver gráfico)".
Para Caleia Rodrigues, o efeito na economia é importante, mas as consequências geopolíticas podem ser mais graves. "A Rússia e a China estão cada vez mais poderosas por causa do petróleo. E os EUA estão mais fracos e dependentes. Isso vai, a prazo, alterar o mundo como o conhecemos."

Diário de Notícias
Pedro Ferreira Esteves; Ana Suspiro
19 Outubro 2007