quinta-feira, 15 de abril de 2010
Petróleo - 88 perguntas (in)convenientes (José Caleia Rodrigues, bnomics: Lisboa: Março 2010)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 10:20
O Petróleo representa quase 40 por cento no consumo mundial de energia primária e é uma matéria-prima estratégica, intimamente ligada ao desenvolvimento económico dos Estados e ao bem-estar das sociedades. Mais de trinta anos depois do impacto produzido pela da crise de 1973 na política internacional, o petróleo mantém-se como produto estratégico crítico, na esfera do equilíbrio do poder e do equilíbrio político internacional global. Para além de constituir uma importante arma diplomática é ainda um valioso um produto financeiro. Além de serem produzidos mais de 80 milhões de barris de petróleo, são diariamente transaccionados mais de 40 milhões.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
CRISE (J. Caleia Rodrigues et al., bnomics: Lisboa. Fevereiro de 2009)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 14:32Outubro de 1929. Em Wall Street, o maior mercado bolsista do Mundo, milhões de acções a preços de saldo não encontravam comprador. A bolsa de Nova Iorque caiu a pique, depois de vários meses de instabilidade que colocaram um ponto final na felicidade dos anos 20. Acções rasgadas nas ruas e empresários que se atiravam desesperados dos arranha-céus de Manhattan. O pânico instalou-se e contagiou o Mundo inteiro numa tremenda crise bancária. De 1929 a 1931 faliram perto de dois mil bancos! A recuperação só foi sentida por volta de 1940, mas o Dow Jones, até 1954, não voltou a alcançar os níveis anteriores à Grande Depressão de 1929.
Entre 1973 e 1975, foi o primeiro choque petrolífero. A OPEP recusou-se a vender petróleo aos países que apoiaram Israel durante a Guerra do Yom Kippur – EUA e aliados da Europa Ocidental – e os preços do crude dispararam. As economias entraram em crise e as empresas sofreram um doloroso racionamento de energia. O Sistema Monetário Internacional (SME) ficou um caos depois de Richard Nixon desligar o Dólar do padrão ouro. O elevado desemprego, o aumento da pobreza e a diminuição do consumo, fizeram regressar a sombra de 1929. Alguns disseram que as causas desta crise estavam na evolução do próprio sistema capitalista devido, entre outras coisas, aos avanços tecnológicos que provocavam grandes subidas no desemprego.
Passados cinco anos, em 1980, o petróleo voltou a afectar os países desenvolvidos. A guerra Irão-Iraque resultou num congelamento imediato das exportações de crude iraniano e na subida descontrolada dos preços. Neste caso, as medidas paliativas não se fizeram esperar e as grandes potências tiveram de recorrer, mais uma vez, a restrições ao consumo. A Arábia Saudita, o aliado dos EUA e das economias ocidentais, aumentou a produção e acalmou os mercados. Pouco depois, o reanimar das exportações do Irão voltou a fazer baixar os preços.
Em 1997 os chamados “Tigres Asiáticos” sofreram a pior crise da sua história. A excessiva ambição de muitos investidores, que pensavam ter encontrado naquela zona do planeta uma verdadeira mina de ouro e a especulação contribuíram para uma enorme desvalorização das moedas. O pio momento chegou quando explodiu a bolha japonesa. O valor dos activos caiu a pique, deixando desorientados os mercados financeiros internacionais. Foi com a intervenção do FMI que os mercados asiáticos acabaram por recuperar o ritmo de crescimento anterior à crise.
No início de 2000, o rápido desenvolvimento da Internet e das suas novas empresas, provocou um aumento disparatado do investimento nesta área, o que resultou numa insustentável valorização das acções “tecnológicas” criando uma gigantesca bolha especulativa. Os anunciados lucros – milagrosos! - nunca chegaram e os investidores começaram a debandar das empresas em que tinham acreditado. A bolha estoirou!
Agora, estamos outra vez em apuros! A actual crise económica e financeira – a Grande Depressão de 2008 – começou também nos EUA e contagiou todo o planeta.
Neste livro, em que colaboram algumas das mais importantes figuras portuguesas da vida universitária, económica, empresarial e social, tentamos fazer uma primeira leitura do Mundo instável e perturbador que nos rodeia.
O cenário económico e financeiro internacional e o impacto em Portugal, dominam as atenções dos 43 participantes.
Vamos tentar explicar como tudo começou, a prtir do vírus financeiro que destroçou os EUA, contagiou o Mundo inteiro e alastrou à economia real. São ainda feitas abordagens a áreas estratégicas como a Energia, o Petróleo, o Imobiliário, os Produtos Alimentares e, ainda, a liderança de pessoas e organizações em tempo de crise. E vamos ainda ao Brasil perceber como uma economia emergente está a acomodar a “besta”.
Horácio Piriquito
Lisboa, Fevereiro de 2009
Índice
Introdução: Horácio Piriquito
António Miguel Gonçalves: De quem é a culpa
Diogo Vaz Guedes: A crise: lições e oportunidades
Francisco Murteira nabo: A crise e a transição para a sociedade do conhecimento
João Ferreira do Amaral: Questões simples sobre uma situação difícil
Vítor Bento: Uma crise económica ou mais que isso?
J. M. Brandão de Brito: Capitalismo. As crises e a crise
António Mendonça: A natureza da crise económica actual
António Neto da Silva: Crise? Não! Movimento Telúrico, sim
Paulo Soares de Pinho: A Regulação e as Crises Financeiras
Manuel Alves Monteiro: Uma economia mais saudável exige uma corporate governance mais consciente
Paulo Mendes Pinto: Capitalismo sem capital
José Penedos: Crises de 1929 a 2008
Luís Guimarães: Do subprime à recessão
Rui Leão Martinho: A crise, as medidas e a retoma
João Ermida: Valores precisam-se
Fernando Faria de Oliveira: Agir com determinação
António Nogueira Leite: As crises em que vivemos
Daniel Bessa: 2007/?: Uma crise diferente do “Programado”
João Duque: A “Minha” Crise
Fernando Santo: As origens da crise da economia virtual
Luís Todo Bom: Uma agenda positiva para Portugal
Luís Mira Amaral: A crise financeira e o caso português
José Carlos Tavares Moreira: “Money for nothing” – será suficiente para estimular as economias?
Vitor Gonçalves: Contrariar a crise
António Câmara: A Saída da Crise
António Gomes Mota: Revalorizar a Economia Real
Nuno Fernandes Thomaz: As duas crises
Luís Valadares Tavares: Portugal, 1997-2007: A década do atraso em relação à EU
Rui Semedo: E depois da crise, o quê?
José Tribolet: O Papel da Engenharia no Desenho, Operação e Controlo Dinâmico do Sistema Financeiro Mundial
Joaquim Borges Gouveia: Inovar para crescer – um imperativo para as empresas e universidades
José Manuel Moreira: Uma crise de respostas ou de verdadeiras perguntas?
Isabel Jonet: Regressar à essência
Fernando de La Vieter Nobre: Impacto social da crise económica e financeira
Manuel Carvalho da Silva: A Crise: analisar as causas, formular e exigir reformas e rupturas
João Proença: Vencer a Crise. Construir o Futuro com Emprego e Solidariedade
Luís Braga da Cruz: Uma leitura pelo lado da energia e dos processos de liberalização dos mercados
José Caleia Rodrigues: Petróleo: Mais longe, Mais fundo e Mais caro
Arlindo Cunha: Mercados Agroalimentares, novos horizontes para a agricultura
Pedro Seabra: Dinheiro, Inquilinos e Prédios
Luís Palha: Simplicidade, estabilidade e previsibilidade
António Pita de Abreu: O Brasil na Crise Financeira Global
Jorge Araújo: Liderança em contexto de crise
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quarta-feira, 14 de maio de 2008
A GEOPOLÍTICA DO PETRÓLEO (J. Caleia Rodrigues, Atelier de Livros: Lisboa, Fevereiro.2000)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 01:29Prefácio
O processo de globalização é, sem dúvida, a característica dominante da economia mundial na presente década.
Assistimos, nos últimos anos, ao aumento exponencial da integração e independência das economias nacionais e ao verdadeiro aparecimento de mercados globais em que a gestão das empresas, desde a localização das suas actividades industriais à comercialização dos seus produtos, tem de ter em conta essas novas realidades.
Mas se este fenómeno se tornou particularmente visível e estruturante nos anos noventa a verdade é que o seu desenvolvimento é não só antigo, desde os primórdios do comércio internacional, mas já se antevia claramente com a emergência, especialmente no pós-guerra, das designadas empresas multinacionais e transnacionais.
Nesta perspectiva, o mercado do petróleo, envolvendo desde a sua extracção à refinação e comercialização dos produtos dele derivados, é particularmente interessante pelo pioneirismo em termos de globalização, em boa parte associado às características intrínsecas da localização dos mercados fornecedores de matérias primas e dos de comercialização dos produtos finais. É neste mercado que desde cedo melhor se detectam as condições que tantas vezes estão na base do funcionamento transnacional das empresas, e, por isso, não é de estranhar que fosse neste âmbito que surgissem as mais importantes empresas multinacionais desde o início daquilo que hoje designamos por processo de globalização.
Mas, para além disto, também este mercado adquiriu uma importância internacional única na medida em que se tornou elemento critico da economia mundial, quer pelo valor intrínseco dos montantes transaccionados quer pela importância crítica, nas economias modernas, do factor energia e dos próprios produtos derivados do petróleo, omnipresentes na nossa vida quotidiana. Esta relevância intrínseca, associada à distribuição geográfica dos países produtores e consumidores, bem como as interdependências daí resultantes, conduziram a que o petróleo adquirisse o papel estratégico, não só económico mas também político, que desde há décadas lhe é reconhecido.
Neste livro, o autor apresenta, de forma original e detalhada, aspectos relevantes desta problemática e, socorrendo-se da sua vasta experiência internacional, apresenta-nos uma reflexão aprofundada sobre ela, concluindo com a apresentação de um caso particularmente interessante – o da África do Sul -, que conhece bem dada a sua experiência profissional. Em síntese, estamos perante uma contribuição relevante para a compreensão de um fenómeno tão marcante da economia mundial actual.
Prof. Doutor António de Sousa (Governador do Banco de Portugal) Dezembro de 1999
Índice
Indice analítico
Lista de Quadros e Gráficos
Introdução
Primeira Parte. Fundamentação estruturalista
1. Imperialismo económico e dependência
2. Ameaças de natureza económica
Segunda Parte. Evidência empírica
3. Porquê o petróleo?
4. Deslocação de poder: as “sete irmãs” e a OPEP
Terceira Parte. Acção e reacção
5. Petróleo: arma diplomática
6. Produção de combustível líquido a partir de carvão (caso estudado)
Conclusões
Posfácio
Bibliografia
Anexos:
Datas de referência
Glossário
INTRODUÇÃO
O futuro dos países menos desenvolvidos tem sido uma das mais preocupantes questões apresentadas na nossa era à economia política internacional, sendo entendido que a forma como esta matéria for resolvida, afectará, indubitàvelmente, o futuro do nosso planeta. O intenso desejo da maioria da raça humana em escapar à debilitante pobreza e a juntar-se ao mundo econòmicamente desenvolvido, é objecto determinante da política internacional.[1] Atinge-se a passagem do século e ainda subsiste grande controvérsia quanto às causas, próximas ou remotas, e ao encontro de possíveis soluções para este confrangedor problema.
O argumento apresentado pelos estruturalistas (como ficou sendo conhecida a teoria de Prebish-Singer) é o de que a economia mundial é composta por um núcleo ou centro de países altamente industrializados e por uma imensa periferia subdesenvolvida.[2] O progresso técnico que permitiu a melhoria da produtividade e o desenvolvimento económico, seria a força propulsora do sistema, mas o avanço técnico teria tido consequências diferentes para o centro industrializado da periferia não-industrializada, devido às características estruturais das economias menos desenvolvidas e à divisão internacional do trabalho,[3] herdada do passado.
Samir Amin,[4] um dos mais proeminentes teorizadores estruturalistas, afirma, decididamente, que “hoje, cerca de 75 por cento das exportações de matérias-primas dos países subdesenvolvidos, não provêm da “tradicional” baixa-produtividade, mas sim de “modernos” sectores e processos de alta-produtividade, como o mineiro ou o agrícola, sem esquecer o actualmente tão importante sector petrolífero. Neste sentido, a produção realizada pelos produtores de matérias-primas, precisa per se de ser diferente da produção das mercadorias dos produtores industriais”.[5] De assinalar, que os países industrializados, como a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos, também produziram e exportaram importantes quantidades de matérias-primas, primeiramente o carvão e, mais recentemente, o algodão e o trigo, no decurso do seu desenvolvimento económico.
Durante a década dos anos 1960, as hipóteses liberais sobre as perspectivas de desenvolvimento para muitos dos Países Menos Desenvolvidos (PMDs) foram objecto de intensa crítica por parte de numerosos académicos, sobretudo latino-americanos. Estes críticos do modelo liberal de desenvolvimento, surgiram primeiro na CELA.[6] The Economic Survey of Latin America -–1949, editado pela CELA, marca a criação da perspectiva de economia política desta instituição. De entre as primeiras críticas, destaca-se a obra do argentino Raul Prebish,[7] economista, político e diplomata (1901-1986), ao induzir um significativo impulso à perspectiva da dependência[8] e à interpretação do dilema do desenvolvimento dos PMDs, como terei oportunidade de desenvolver no Capítulo 1. Por outro lado, Celso Furtado, o eminente brasileiro teorizador da dependência, alinha claramente a especificidade problemática do capitalismo periférico. A citada Survey, coordenada por Raul Prebish, desenvolveu a evidência de que a economia latinoamericana cresceu, ligada directamente ao sector exportador que lhe proporcionou as divisas estrangeiras necessárias à importação de produtos manufacturados. Esta ligação centro-periferia tendeu a perpectuar-se, se bem que a sua dinâmica fosse controlada por decisões tomadas no centro e se tivesse caracterizado pela deterioração dos termos de comércio. Neste contexto, só a industrialização nacional poderia ser capaz de quebrar o ciclo vicioso do sub-desenvolvimento.[9]
Raul Prebish, promotor da CNUCED[10] e seu primeiro Secretário Geral, concluíu, então, que o dilema do desenvolvimento na América Latina estava ìntimamente ligado a factores exógenos à região. Prebish foi especialmente crítico em relação à existência da divisão internacional do trabalho e ao sistema de comércio livre. Ele e outros que, entretanto, se vieram a ocupar deste tema (Andre G. Frank, Theotoneo dos Santos, Fernando Henrique Cardoso), argumentaram que o sistema de comércio internacional reforçou o papel desempenhado pelos Países Menos Desenvolvidos (PMDs) como fornecedores de produtos primários e matérias-primas, enquanto os países desenvolvidos continuavam a prosperar como fornecedores de produtos industriais.[11]
Este pessimismo em relação aos termos de comércio, ficou conhecido como tese de Prebish-Singer, após ter sido desenvolvida por estes dois economistas, que exploraram as suas implicações nos anos 1950.[12] Deduziram que houve e poderá continuar a haver, um decréscimo nos termos de comércio dos exportadores de mercadorias do sector primário, devido à associação das pequenas receitas com a compressibilidade dos preços da procura. Este decréscimo teria tido, como consequência, a transferência a longo prazo de receitas dos países pobres para os países ricos, que só poderia ser invertido com um esforço de protecção às indústrias nacionais, pelo processo que veio a ser conhecido por “substituição das importações”.
Também o alemão Andre Gunder Frank, outro dos clássicos teorizadores da dependência,[13] evidenciou, muito particularmente, os efeitos do imperialismo no Terceiro Mundo, rejeitando, simultâneamente, a noção Marxista de que as sociedades atravessam estádios ou modos de produção diferenciados, na evolução do seu desenvolvimento. Apoiou, contudo, a tese anti-imperialista, de que as ligações entre regiões em desenvolvimento e regiões desenvolvidas, resultaram em exploração das regiões periféricas pelos países metropolitanos centrais.[14] Os estruturalistas, sob a liderança de Raul Prebish, argumentaram que a reforma da economia internacional e a estratégia de desenvolvimento baseadas na substituição de importações, poderia ser uma das soluções para esta situação.[15]
Infelizmente para os países em desenvolvimento, de entre a quantidade de mercadorias que podem fornecer, a que podem controlar efectivamente, é demasiado pequena.[16]
Não será demais referir que um Estado se torna polìticamente dependente, quando as suas estruturas e instituições de poder são controladas do exterior e econòmicamente dependente quando as suas exportações e as suas importações são necessárias para a sua sobrevivência.
Situação flagrante de dependência económica é a manifestada por numerosos países, na sua incessante busca de novas e mais seguras origens para a importação de matérias-primas energéticas, indispensáveis à manutenção do seu tecido social e económico.
De uma forma geral e agravante, as relações de natureza funcional entre tecnologia e poder económico, por um lado, e poder político e militar, por outro, viram-se gravemente perturbadas – até se poderia ir mais longe, dizendo que foram, parcialmente, destruídas – pelo uso recente da utilização do petróleo como arma diplomática, já que a resolução da questão energética está intimamente relacionada com as transformações ocorridas na esfera da economia internacional.[17] As rápidas actuações na cada vez maior procura de recursos naturais energéticos por parte dos consumidores internacionais, provocaram uma alteração profunda em termos de dependência, conduzindo a economia industrial mundial a depender ainda mais das limitadas fontes de energia.
A energia, como veremos no Capítulo 3, assumiu, portanto, demasiado ràpidamente, uma posição dominante na extensa agenda política económica. Não parece difícil admitir que, nas suas várias formas, a energia apresenta-se como sinónimo de desenvolvimento económico e, ainda mais, de riqueza e prosperidade.[18] Consequentemente, o acesso e controlo dos recursos energéticos, constituem uma preocupação central dos governantes e de todos aqueles que se encontram envolvidos em processos de produção industrial.
Deparamo-nos, então, com uma fonte de energia que ultrapassa todas as outras em importância: o petróleo.
Em 1984, o petróleo era responsável, a nível mundial, por 39 por cento da energia primária total consumida. Este facto não colocaria, por si só, o petróleo na agenda internacional, se os consumidores de petróleo pudessem satisfazer as suas necessidades de energia a partir dos seus próprios recursos e, assim, com todas as probabilidades, o petróleo seria um assunto controverso de maior importância nas questões domésticas do que em termos internacionais. Porém, não é este o caso. O petróleo tornou-se um acontecimento na política mundial, em consequência de imperativos geológicos e geográficos, bem como modelo de desenvolvimento económico global, tendo criado uma situação, na qual, os produtores não são os seus maiores consumidores, muito pelo contrário. Podemos citar, a título de exemplo, que a Arábia Saudita produz 7 vezes mais do que consome. Em contrapartida, o Japão consome 5,5 vezes mais do que produz.
Recorde-se que, em 1973, um conjunto de países árabes produtores e exportadores de petróleo, em acção de apoio aos seus aliados envolvidos em conflito armado com Israel, impuseram um embargo ao fornecimento de petróleo aos Estados Unidos e aos seus aliados, nomeadamente à Holanda e a Portugal,[19] com o intuito de influenciar a política norteamericana em relação a Israel,[20] durante a Guerra do Yom Kippur. Este embargo ao petróleo (apesar de não ter sido o primeiro) seguido da fixação de quotas à produção e do consequente agravamento dos preços de comercialização, foi um considerável acontecimento, não só para os Estados da região do Golfo Pérsico, como também para o conjunto da economia mundial. Os países árabes produtores de petróleo deram-se conta de que o seu petróleo poderia ser usado como arma diplomática e política no conflito Israelo-Árabe, como terei oportunidade de desenvolver no Capítulo 5, ao mesmo tempo que os países consumidores de petróleo tomaram imediata consciência da sua excessiva dependência do petróleo do Médio Oriente.[21]
Logo após a crise de 1973 e durante a chamada década da OPEP, os países ocidentais industrializados ansiaram por reduzir a sua dependência dos fornecedores externos de petróleo bruto. Por referência, em Fevereiro de 1974, o Presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, propôs “restabelecer a capacidade [dos Estados Unidos] de auto-suficiência até 1980” e apelou para “um modelo de comércio mundial de petróleo, aceitável”, bem como novas medidas de conservação e o recurso a fontes de energia alternativas, que permitissem a redução da procura de petróleo.[22]
Só uma crise como a dos anos 70, liderada pela OPEP e da sua inteira e exclusiva responsabilidade, poderia obrigar os agentes internacionais a desviar a orientação das suas políticas energéticas do petróleo para outros recursos, eventualmente disponíveis.[23]
A opção do recurso a fontes alternativas de energia, contribuíu, de facto, para reduzir a dependência em relação ao petróleo da OPEP. O carvão, por exemplo, tornou-se, de novo, na maior fonte energética dos Estados Unidos. Do mesmo modo, o Japão aumentou as suas importações de carvão para dar resposta à crescente procura de energia eléctrica e de renovadas exigências do sector industrial. Também a China passou a actuar fortemente no carvão, como fonte primária de combustíveis fósseis. Por outro lado, a energia nuclear tornou-se alternativa; a França aumentou a sua geração de energia eléctrica à custa da energia nuclear, tendo mais do que decuplicado a produção, entre 1973 e 1986, com o objectivo de reduzir a sua dependência do petróleo importado, e, o Japão, com idêntico objectivo, tornou-se ràpidamente, no quarto maior produtor mundial de energia nuclear. O Governo alemão, por seu turno, encorajou a mudança de petróleo para gás natural.
As opções tomadas em relação ao gás natural e à energia de origem nuclear não apresentaram, de princípio, perspectivas muito animadoras. O primeiro devido às ligações de demasiada dependência entre o produtor e o consumidor, e a segunda pela dificuldade resultante dos elevados custos de instalação das infraestruturas técnicas, enriquecimento do urânio e à exigência de enorme investimento inicial associado à reduzida dimensão dos mercados nacionais dos países menos desenvolvidos, sem poder esquecer o drama ambiental. A alternativa apresentada pelo carvão, também não se mostrou capaz de resolver todas as dificuldades enfrentadas pelos países dependentes, atendendo a que não contemplava todas as utilizações até então prestadas pelo petróleo, nomeadamente a de combustível líquido.
Quadro 0.1
Tanto quanto se conhece, a Africa do Sul, foi o único caso mundial de sucesso, na opção da alternativa apresentada pelo carvão, sustentada, simultâneamente, pela disponibilidade nacional da matéria-prima e pela tecnologia adequada à sua conversão em combustível líquido.[24]
Confrontada com a ameaça de embargos ao fornecimento de petróleo por parte dos países produtores, a Africa do Sul reagiu, procurando alternativas que lhe assegurassem um mínimo de independência e a garantia de fornecimento continuado, utilizando matérias alternativas e tecnologias disponíveis no seu próprio país.
Assim, em Dezembro de 1974, apenas um ano após o embargo imposto pelos exportadores árabes, o Ministro Sul-Africano dos Assuntos Económicos, anunciou a decisão tomada pelo Gabinete, de aumentar a produção de combustível líquido a partir do carvão nacional.[25] A nova linha de produção iria converter mais do que dez vezes a quantidade de combustível líquido e derivados do que, até então, a existente linha de produção, e tornar-se-ia num dos maiores projectos industriais jamais realizados em África. Terei oportunidade de desenvolver este tema, no Capítulo 6, com as características de caso estudado.
A África do Sul, com moderada aspiração a grande potência mundial, dispondo de nível médio em áreas como a económica, a tecnológica, a educacional ou a social, porém, contando com um vasto território, pretendeu, desse modo, libertar-se do imperialismo económico, como tentado pelo cartel do petróleo em 1973, quando este quiz atingir objectivos políticos, actuando na descontinuidade de fornecimento de recursos energéticos estratégicos.[26]
Enquanto que o Médio Oriente produziu em 1986, cerca de 22 por cento do petróleo mundial, consumiu apenas 3,8 por cento. Pelo contrário, o Japão, com enorme escassez de recursos energéticos, produziu cerca de 0,05 por cento do petróleo mundial e consumiu nada menos que 7,1 por cento. Como resultado evidente destas contradições, o petróleo tornou-se mercadoria-chave do comércio internacional e, quando os consumidores pretenderam voltar a dispor de abastecimento seguro, não tiveram outro remédio senão criar condições sob as quais a “política petroleira” se pudesse desenvolver.
Na realidade, foi devido a esse processo que as políticas petroleiras foram colocadas no topo da agenda política mundial durante os anos 70 e 80. O que fizeram, reflecte a complexa interligação de tendências e acontecimentos em diferentes centros, envolvendo uma diversidade de agentes, tanto estatais, como não-estatais. Por outro lado, as grandes multinacionais petroleiras, que durante tanto tempo tinham exercido uma dominante influência na indústria petrolífera, foram confrontadas, durante os anos 50 e 60, com a redução de receitas, quando o preço do petróleo desceu. Ao mesmo tempo, o crescendo de nacionalismos no Terceiro Mundo[27] influenciou a atitude dos Estados produtores de petróleo que começaram a exigir maiores receitas e mais eficaz controle dos seus recursos petrolíferos. A principal manifestação deste desenvolvimento, foi o colossal papel desempenhado pela associação dos maiores produtores exportadores, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Criada em 1960, com uma composição original de Estados-membros que incluía a Venezuela, o Kuwait, o Iraque e o Irão, a OPEP foi, no início, completamente ignorada pelas companhias petroleiras e falhou redondamente na sua acção de entidade compulsiva no âmbito da promoção dos interesses dos seus membros, tantas vezes divergentes. Porém, no início dos anos 70, o mapa do poder mundial do petróleo, começou a apresentar uma forma radicalmente diferente, devido, não só ao aumento da procura, mas também, à mudança de atitude política dos produtores, principal e claramente indicada pelas acções do regime de Ghaddafi que, entretanto, tinha tomado o poder na Líbia.[28] Os líbios começaram por ter um pequeno controlo no fornecimento e preço do seu próprio petróleo que, após a nacionalização do Canal do Suez (26.Julho.1956), se tinha tornado de grande importância para o Ocidente.[29] Contra este inconveniente, e na continuação das decisões tomadas no encontro de Caracas, em Dezembro de 1970, a OPEP demonstrou, pela primeira vez, uma invulgar capacidade de acção colectiva no exercício do completo controlo sobre os preços e fornecimentos do petróleo. Inicialmente, este reforçado papel da OPEP, não foi mal recebido, nem pelas companhias petroleiras, que viram que estas acções poderiam trazer efeitos favoráveis à remuneração do petróleo que transacionavam, nem pelo Governo dos Estados Unidos, para quem a perspectiva do aumento dos custos de energia a suportar pelos seus rivais (em termos económcos) da Europa Ocidental e do Japão, não seria, de todo, de desprezar.
Contudo, ràpidamente se tornou bem claro que a OPEP poderia começar a usar o seu reencontrado e renovado poder, actuando nos fornecimentos e nos preços, pondo em risco a segurança económica dos Estados industrialmente desenvolvidos[30]. Os dramáticos 400 por cento de aumento do preço do petróleo durante a Guerra Israelo-Arabe de 1973 [31] e o embargo às exportações, impostos pela OPEP ao conjunto de países considerados pró-Israel, evidenciaram os potenciais efeitos da provocada escassez, na mesma altura em que se começava a manifestar especial preocupação acerca da sobejamente conhecida escassez de recursos energéticos. A longo prazo, a capacidade da OPEP em manter o preço do petróleo (que voltou a subir em finais dos anos 70), seria reduzida pela diminuição da procura Ocidental e pelas tensões crescentes no seio da própria Organização – especialmente os criados pelo conflito entre o Irão e o Iraque. A degradação dos preços do petróleo, de cerca de USD29 por barril, para cerca de USD9 em 1986, só muito mais tarde conseguiu, e só parcialmente, ser invertida. Contudo, o impacte das políticas seguidas pela OPEP sobre as economias ocidentais, foi e continuou a manter-se profundo, constituindo uma ameaça que, como Odell afirmou,[32] contem três dimensões:
(1) O repto aos fornecimentos de petróleo ao Ocidente, ameaçou a sobrevivência das suas economias e, consequentemente, atingiu a legitimidade dos seus governos;
(2) o rápido aumento dos preços do petróleo, induziu níveis de inflação que, devido à ligação do petróleo à taxa de inflação[33] nos países do ocidente, se tornaram cada vez mais acentuados, e
(3) os imensos excedentes financeiros obtidos pela OPEP, em resultado das suas vendas de petróleo, ameaçaram agravar a recessão mundial e destroçar o sistema monetário.
Partindo destas afirmações, torna-se claro que a crise energética apresentou todos os ingredientes necessários e mais do que suficientes, para colocar este acontecimento no topo da agenda mundial. A raiz da sua urgência, situa-se no facto de que, pelas razões apontadas, a efectiva sobrevivência do sistema económico Ocidental, foi posto em causa. Para mais, e devido ao facto de que, em termos geoestratégicos, afectou sobremaneira os Estados industrialmente mais desenvolvidos, a crise energética tocou igualmente, directa ou indirectamente, a maioria dos Estados do sistema internacional, ampliando, consequentemente, a dimensão do problema. Finalmente, o impacte das políticas seguidas pela OPEP, teve idêntica dimensão e surgiu nìtidamente visível como ocorrência a nível nacional, devido à forma como afectou directamente o público motorizado e como esteve na génese de fortíssimas pressões políticas domésticas.
Vinte anos depois da deflagração da crise de 1973 na política internacional, o petróleo manteve-se como produto estratégico crítico no equilíbrio de poder ou equilíbrio político internacional global. [34] Porém, se orientarmos a nossa atenção em direcção ao Sec. XXI, a perspectiva muda radicalmente, desde os dias em que parecia que o poder do petróleo poderia fazer submergir a política mundial.
Na actualidade, as teses globalistas parece terem-se imposto e a economia apresenta-se com precedência sobre a política. Grãnde parte dos países exportadores fazem a corte a companhias petroleiras internacionais que, anteriormente, evitavam. A porta que foi estrondosamente fechada nos anos 70, está sendo reaberta. De facto, com a perspectiva da abertura das reservas de petróleo na Rússia e nalguns outros países que, até então, tinham sido políticamente inacessíveis, o petróleo é, verdadeiramente, um negócio global pela primeira vez, desde que as barricadas da Revolução Bolchevique foram derrubadas. Em retrospectiva, os choques dos anos 70, podem ser vistos como o ponto alto do nacionalismo do petróleo. Foi a era em que a economia mundial estava suspensa dos comentários dos Ministros do petróleo nos bastidores das reuniões da OPEP e quando os erros do colonialismo pareciam ter sido correctos. Foi o princípio da “nova ordem internacional”, um jogo de soma-zero[35] que aspirava a uma redistribuição seriada, riqueza reencaminhada do Norte para o Sul e redução da estatura internacional dos Estados Unidos e das outras grandes potências industriais. No Quadro 0.2, podemos analisar o Produto Nacional Bruto das 54 maiores economias mundiais, entrosado com o volume anual de facturação das 34 maiores empresas mundiais, inferindo, por rápida leitura, que o somatório do Produto Nacional Bruto das 3 maiores economias (Estados Unidos, Japão e Alemanha) é superior a mais de metade do do somatório total mundial (132 países listados pelo Banco Mundial).
Quadro 0.2
Muito destes acontecimentos são, agora, história. Os países exportadores de petróleo aprenderam que precisaram mais dos importadores, do que os importadores precisaram deles. Os produtores, tiveram petróleo para vender, mas os consumidores abasteceram os mercados. Eles também podem abastecer, porém com a necessária segurança. Estes desenvolvimentos conduzem a novos debates acerca do verdadeiro significado da segurança e que tipo de relações duráveis serão agora possíveis entre consumidores e produtores, de modo a que possam, a longo prazo, vir a satisfazer os interesses de ambos. A Guerra do Golfo [36] ilustra, igualmente, tanto o crítico posicionamento do petróleo no equilíbrio de poder global, como a importância da interdependência entre produtores e consumidores industriais.
Procede, porém, a considerável questão, de como conciliar o crescente uso da energia com os imperativos ambientais.
Com o colapso do comunismo, as questões postas pela segurança global que foram, a seu tempo, predominantes, esbateram-se de importância. Porém, as questões postas pela segurança regional, mantêm-se. O mundo está, desde logo, retrocedendo para a dependência do petróleo do Médio Oriente, onde a modernização e o revivalismo islâmico estão em conflicto. Aliás, o tradicional relacionamento do petróleo com as outras questões, também se mantem. Parece interligado com a transição da Rússia para economia de mercado e com o crescimento económico dos países asiáticos. Entretanto, os Estados Unidos voltaram ao trilho das grandes importações de petróleo bruto, o que quer, certamente, dizer que a sua política externa continuará atenta aos desenvolvimentos que ocorram nos países exportadores.
Nos próximos anos, a indústria petroleira global, requerirá muito mais altos níveis de investimento do que durante o passado recente, para conjugar a satisfação das suas necessidades em energia com as exigências ambientais. Os políticos que, nos anos 70, separaram os laços económicos entre produtores e consumidores, estão agora permitindo a sua reunião, se bem que em bases diferentes. Deste modo, a nova dimensão de segurança entre nações exportadoras e empresas petroleiras, surgirá da interligação do investimento, do comércio e da finança. Esta reconstrução mobilizará o investimento necessário ao desenvolvimento de fornecimentos para o próximo futuro. Como resultado, os produtores procurarão obter dos países consumidores: o capital, a tecnologia e a competência técnica, ao mesmo tempo que abastecerão os seus mercados.
No respeitante ao caso estudado, o Governo Sul-Africano decidiu apoiar fortemente o desenvolvimento da produção de combustíveis líquidos por conversão do carvão nacional. O mais notável elemento da nova tecnologia, levado a cabo pela empresa nacional sul-africana de combustíveis sintéticos, foi o lançamento do projecto de substituição dos antigos e, segundo eles, ultrapassados técnicamente, por nova geração de reactores que, continuando a assegurar o fornecimento dos combustíveis líquidos requeridos pelos consumidores sul-africanos, pudessem aumentar a alta temperatura exigida pelo processo, reduzindo custos de capital, custos operacionais e de manutenção, aumentando a productividade e economias de escala, desenvolvendo, ao mesmo tempo, a eficiência térmica. Estes reactores, convertem gás sintético derivado do carvão, em petróleo líquido e numa variedade de sub-produtos petroquímicos.
O Capítulo 1 trata do imperialismo económico e da dependência, considerando a gestão dos recursos naturais a nível mundial e o controlo político externo, o impacte negativo do GATT nos países menos desenvolvidos e as suas estratégias de desenvolvimento baseadas na auto-suficiência e na substituição de importações, como optado pela Africa do Sul, quando se sentiu ameaçada, tal como tantos outros países, pelos embargos de petróleo impostos pelo cartel de países produtores, por razões políticas e fundamento económico. No Capítulo 2, analisam-se as ameaças do foro económico, com raízes na escassêz mundial de recursos naturais e na soberania exercida sobre estes, bem como o que permitiu aos países produtores de petróleo a utilização desta importante e estratégica fonte de energia, como arma diplomática nos dependentes consumidores. A importância do petróleo, quer para a indústria, quer para a defesa, é tratada no Capítulo 3. Os países do hemisfério sul, produtores e exportadores de petróleo, actuaram em conjunto num cartel de produtores - a OPEP -, que se sobrepôs ao anterior, constituído no ocidente - as “sete-irmãs” -, como exposto no Capítulo 4, e formaram um muito bem sucedido novo sistema que controlou o fornecimento mundial de petróleo, tão poderoso, que lhes permitiu usá-lo como arma económica e diplomática, nomeadamente durante os embargos impostos em 1967 e, mais dramàticamente, em 1973-74 contra os Estados ocidentais que directamente ajudaram Israel contra os seus adversários árabes na Guerra Israelo-Árabe, prejudicando fortemente a sua economia e comprometendo a sua segurança, como foi o caso dos Estados Unidos, da Holanda e de Portugal, países directamente visados pelo embargo, como tratado com desenvolvimento no Capítulo 5.
Confrontados com a potencial ameaça de embargos ao fornecimento de petróleo, impostos pelos países productores, por razões políticas, os países consumidores dependentes, reagiram, concebendo diferentes alternativas que pudessem garantir um mínimo de independência e de continuidade de fornecimento. No Capítulo 6, apresento a opção sul-africana que, devido à sua própria escassêz em petróleo bruto, mas aproveitando as suas imensas reservas carboníferas, recursos humanos, capacidade técnica e recursos financeiros disponíveis no país, decidiu investir fortemente na produção de combustíveis líquidos por conversão do seu próprio carvão, com o objectivo de prevenir o país de crises desse teor e garantir, no futuro, a possibilidade de, mais fàcilmente, se poder defender de embargos e pressões políticas externas.
[1] Robert Gilpin. The Political Economy of International Relations. Ch. 7. p. 263.
[2] Sobre esta matéria, ver: Raul Prebish. Towards a Dynamic Development Policy for Latin America. New York, 1963 e H. W. Singer. “The distribution of gains between investing and borrowing countries” American Economic Review, No. 40. p. 473-485.
[3] Cf. Adam Smith (1723-1790). An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations. “Of the Division of Labour”. Vol. 1, Cap. 1.
[4] Antigo Professor na Universidade de Dakar e Director do Institute of African Economic Development and Planning.
[5] L’ accumulation à l’echelle mondialle. Paris, 1970. p. 44.
[6] Comissão Económica para a América Latina, habitual tradução de: ECLA, Economic Commission for Latin America, fundada em 1949.
[7] Towards a Dynamic Development Policy for Latin America. New York, 1963.
[8] A divisão tripartida em, realismo, pluralismo e globalismo, parece ser uma forma eficaz de abarcar os diferentes conceitos em que se basearam as hipóteses teóricas da área das relações internacionais, no que se refere a protagonistas e conceitos.
Para o “realismo”, os Estados seriam o principal e mais importante protagonista no palco da política internacional. As matérias relacionadas com a segurança nacional dominariam a hierarquia de agenda internacional.
Para o “pluralismo”, os protagonistas não-governamentais são, igualmente, importantes entidades. A hierarquia dos acontecimentos internacionais são, também, objecto de mudança e nem sempre são dominados por matérias de segurança militar.
Por último, o “globalismo”, onde se enquadram os dependentistas, argumenta que todos os protagonistas devem ser considerados dentro do contexto de uma estrutura global, em que os factores económicos são os mais importantes.
[9] Bertha K. Becker. Brazil: A New Regional Power in the World-Economy. Cambridge, 1992. p. 10.
[10] UNCTAD, United Nations Conference on Trade and Development, habitualmente traduzido por “Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento” (CNUCED) é um órgão permanente da Assembleia Geral das Nações Unidas, formado em 1964, cujo primeiro objectivo é o de promover o comércio internacional e o comércio em geral, com principal foco no comércio internacional e nos problemas de balança de pagamentos dos paises em desenvolvimento.
[11] Um grupo de 77 países em vias de desenvolvimento, membros da CNUCED, formaram, em 1967, na Conferência de Argel (Carta de Argel), uma coligação de interesses – o Grupo dos 77 – para expressar e mais tarde para proteger os seus interesses colectivos, no sistema económico mundial. Actualmente, este grupo contém mais de uma centena de países-membros.
[12] Michael Todaro. Economic Development. New York, 1997. p. 429.
[13] Variante contemporânea da perspectiva estruturalista.
[14] David N. Balaan. Introduction to International Political Economy. New Jersey, 1996. p. 73.
[15] Robert Gilpin. Op. cit. p. 295.
[16] W. Arthur Lewis. The evolution of the International Economic Order. Cap. 5: “Commodity Police”. Princeton, 1978. p. 27.
[17] Hans J. Morgenthau. Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace. New York, 1985. p. 133.
[18] Quando os teorizadores políticos ocidentais analisam os níveis de escassez de recursos e desenvolvimento económico de países e regiões, tendem a concentrar a sua atenção apenas na zona monoteísta mundial, o que deixa ficar sempre algum vazio nos seus escritos. Parece que, no entanto, devemos abrir um parêntesis e fazer uma ressalva, só para recordar que as populações da China e da Índia, perfazem 37 por cento do total mundial e ocupam, em conjunto, um território que corresponde a 9,5 por cento do total mundial. O índice de desenvolvimento humano (IDH) da China coloca-a no 111 lugar no total de 174 países listados pelo Banco Mundial (1992), enquanto que a Índia ocupa o 134 lugar da mesma lista. No que se refere a PNB per capita, o primeiro ocupa o 104 lugar em 132 países listados pela mesma entidade, e o segundo ocupa o 114 lugar.
[19] Kenneth Maxwell. The Making of Portuguese Democracy. Cambridge, 1995. p. 55:
“O embargo de petróleo afectou Portugal de forma especialmente grave, precisamente devido à utilização da Base das Lajes, nos Açores, para transporte de abastecimentos para Israel. Os países Arabes, mantiveram o boicote a Portugal, mesmo depois de terem levantado o embargo às outras nações ocidentais” Mais adiante, a p. 48: “O relacionamento entre os Estados Unidos e Portugal, tinha tido, sempre , especial raiz na Base dos Açores. O seu mais peculiar aspecto é que, a Base dos Açores, não só contribuiu para a longevidade do império africano português, mas também, a sua utilização pelos Estados Unidos, para reabastecer Israel, em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, tornou-se uma imediata e importante causa para o golpe [25.Abril.1974].”
[20] Alan Randall. Resource Economics. Cap. 16: “The Energy Crisis of the 1970s”. New York, 1987. p. 305.
[21] William L. Cleveland. A History of the Modern Middle East. Oxford, 1994. p. 396.
[22] Bruce Russett e Harvey Starr. World Politics: The Menu for Choice. New York, 1996. p.157.
[23] No Gráfico 3.1, pode notar-se o extraordinário crescimento do consumo de petróleo, verificado a partir dos anos 50, até ao primeiro choque dos preços, ocorrido em 1973 e, como a partir de 1980, se começou a verificar alguma correcção nos consumos, se bem que ainda de forma não definitiva. A evolução dos valores de comercialização, podem ser analizados no Gráfico 3.2.
[24] A África do Sul, com reservas de carvão confirmadas, superiores a 55 biliões de toneladas (correspondente a 11 por cento do total mundial), ocupa o quarto lugar do ranking dos produtores mundiais e o terceiro lugar entre os maiores exportadores. Tem sido, desde longa data, grande consumidor desta matéria-prima, mais exactamente o quinto, a nível mundial, como podemos notar no Quadro 0.1, com aumento continuado, sobretudo a seguir ao choque petrolífero de 1979 e às consequências da nacionalização do petróleo iraniano.
[25] Petra Wessels. Crescendo to Success: Sasol 1975-1987. Cape Town, 1990. p. 12.
[26] Parece oportuno recordar Niccolo Machiavelli (1469-1527), que escreveu: “Ou um governante tem suficiente poder e território para se defender a si próprio, quando for necessário, ou então, será sempre dependente da ajuda dos outros”. in The Prince. Cap. X. Cambridge, 1988. p.37.
[27] O Banco Mundial classificou de “Terceiro Mundo”, os 145 países em vias de desenvolvimento na Asia, Africa, no Médio Oriente e na América Latina, principalmente caracterizados por baixos níveis de vida, altas taxas de crescimento da população, baixo produto per capita e dependência generalizada, económica e tecnológica, das economias do “Primeiro Mundo”. Foi considerado “Primeiro Mundo”, o conjunto dos países de economia capitalista, econòmicamente avançados, da Europa Ocidental, América do Norte, Austrália, Nova Zelandia e Japão. Estes foram os primeiros países a apresentar crescimento económico sustentado a largo prazo.
[28] O Rei líbio Muhammad Idris, pró-ocidental, foi derrubado pelo Coronel Mu’ammar Ghaddafi, em Setembro de 1969. O alinhamento do novo Governo líbio, com os Estados radicais árabes, conduziu à formação da OPAEP.
[29] Ian Browlie. Principles of Public International Law. Oxford, 1990. p. 276.
[30] Poderiam, eventualmente, ser usadas políticas macroeconómicas para amortecer as consequências do choque provocado pelo aumento dos preços. Este, por se ter apresentado com tão grande dimensão, fez aumentar os custos de produção em todos os países importadores dependentes. O efeito na procura agregada foi menos clara, já que as nações importadoras de petróleo poderiam vir a sofrer uma deterioração na sua balança de pagamentos e uma depreciação nas divisas.
[31] 6 a 24 de Outubro de 1973. Quarta Guerra Israelo-Árabe, chamada do Yom Kippur, pelo ataque-surpresa desencadeado pelo Egipto e pela Síria, ter acontecido durante a celebração do dia da expiação (atonement), de grande significado para os judeus.
[32] Peter R. Odell. Oil and World Power: Background to the Oil Crisis. Aylesbury, 1974. p. 174.
[33] João César das Neves, esclarece que:"Na sua origem, o choque do petróleo, apesar dos seus efeitos nos níveis de preços de 1973, não pode ser considerado, em si, como inflação. No entanto, os governos dos países desenvolvidos, perante o choque do petróleo de 1973, actuaram aumentando as suas despesas, para apoiar as empresas e responder ao choque. Nessa altura, verificou-se um aumento da moeda em circulação, uma descida do seu valor, e um aumento do nível geral de preços. Só então apareceu a inflação. Assim, a década de 70 foi inflacionista, não por causa do choque do petróleo, mas por causa da resposta política ao choque do petróleo.. Choques nos preços não devem ser confundidos com a alteração geral e sustentada do nível geral dos preços, que é a inflação." in Princípios de Economia Política. Lisboa, 1997. p. 100.
[34] Kenneth N. Waltz, afirma que: “O equilíbrio de poder só pode existir porque alguns países, conscientemente, fazem dele o objectivo final das suas políticas, ou por reacções quase automáticas aos países que pretendem ter acendência sobre outros”. in Man, the State and War. Columbia, 1959. p. 208.
O equilíbrio de poder é um conceito-chave para os realistas, referente à condição de equilíbrio entre Estados.
[35] O “zero-sum game” ou “game theory” trata duma simulação à tomada de decisão ponderada por um interveniente-actor perante uma situação de competição. Cada interveniente-actor tenta maximizar os ganhos ou minimizar as perdas, sob hipóteses incertas e informações incompletas, o que exige que cada actor ordene as opções, estime as probabilidades e tente imaginar o que o outro actor está fazendo. No caso particular de só dois jogadores, o que um ganha, o outro perde. A teoria do jogo contribuíu para o desenvolvimento de modelos de dissuasão e de espirais de corrida ao armamento, porém, só serviu de base de trabalho em questões como as que se põem quanto ao tipo de colaboração que se poderia implementar entre Estados concorrentes no mundo anárquico de forma a que os objectivos pudessem ser atingidos.
[36] Iniciada em 16 de Janeiro de 1991, entre o Iraque e uma coligação militar liderada pelos Estados Unidos, durou quarenta e três dias. A coligação desencadeou a Guerra em resposta à invasão e anexação do Kuwait pelo Iraque, em 2 de Agosto de 1990.
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terça-feira, 13 de maio de 2008
Marketing Estratégico Internacional (J. Caleia Rodrigues, CCILE: Lisboa, outubro de 2005)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 20:56Índice simplificado
1 Introdução
Primeira Parte
A ENVOLVENTE
2 As diferentes perspectivas de relações internacionais
3 Quadro de actuação nas relações económicas internacionais
4 Campo de actuação e actores
5 Áreas de competência e áreas de decisão
5.1 Análise da envolvente
5.2 Análise das oportunidades
Segunda Parte
A ESTRATÉGIA
6 Estratégias de marketing global
7 Programas de marketing
Terceira Parte
O DESENVOLVIMENTO
8 Canais internacionais de distribuição
9 Gestão do esforço do marketing internacional
Quarta Parte
O COMÉRCIO INTERNACIONAL
10 A importância das trocas comerciais
11 Teoria das Trocas
12 Política das Trocas
13 Procedimentos e mecânica das exportações
CAPÍTULO 1
Introdução
Deve-se começar por ressalvar que o marketing internacional não se enquadra na teoria do “Jogo de soma nula”, posto que o que um ganha pode não corresponder ao que o outro (concorrente) perde. Pode ser verdadeiro em percentagem da quota de mercado, mas não, de todo, em valores absolutos, tendo em consideração que o mercado cresce em consequência da alteração de múltiplos factores, de entre os quais podemos salientar:
o aumento da população,
o desenvolvimento económico,
um menor proteccionismo, ou
uma mais livre circulação da produção mundial pós-GATT.
Partindo do princípio de que “marketing” é o desempenho de actividades de negócio dirigidas ao fluxo de produtos e serviços desde o produtor ao consumidor e a forma de o orientar e de satisfazer as suas tendências, a “gestão de marketing” é a execução das operações de marketing decididas pela empresa.
Portanto, as suas responsabilidades consistem em planear, organizar e controlar os programas estabelecidos pela empresa produtora.
Em consequência, para que a tarefa possa ser cumprida, terá que ser atribuída à gestão do marketing a autoridade correspondente a um decision-maker, sobre matérias tão abrangentes como sejam:
a estratégia de produção,
a estratégia de comunicação,
a estratégia de distribuição, e
a estratégia de preços a praticar.
No que respeita à gestão do marketing internacional, são válidos os objectivos a atingir pelo marketing e responsabilidades descritas. O que a torna diferente é que a execução destas actividades é desenvolvida em vários países.
Consequentemente, podemos definir direcção de marketing internacional como o desempenho das actividades de marketing num ou mais países. Neste caso, passamos de decisões circunscritas a um só país para decisões alargadas a dois ou mais países, em simultaneidade.
O marketing internacional nem sempre requer um movimento físico de produtos através das fronteiras nacionais, mas ocorre para onde as decisões forem estabelecidas, envolvendo dois ou mais países.
Portanto, o marketing estratégico estará radicado em duas asserções fundamentais:
no poder de decisão, e
na autoridade ou domínio, que permita a implementação das decisões tomadas.
No que se refere ao “poder”, os sociólogos definem-no como a oportunidade existente num dado relacionamento social que permite impor a vontade a outrem, mesmo sob manifesta oposição, independentemente de qualquer fundamentação da oportunidade. Neste contexto, “domínio” será, então, a oportunidade de impor uma específica decisão, obedecida por um dado agrupamento de pessoas. Consequentemente, “disciplina” será a oportunidade de conseguir obediência, imediata e automática, da instrução emanada do comando.
Dado que a conquista de mercados perseguida pelas empresas, se enquadra na geopolítica das empresas, com a globalização da economia e a internacionalização das empresas, os três pilares do poder
militar,
económico e
conhecimento,
encontram-se cada vez mais entrosados.
A conquista do poder pelas armas está na maior parte dos casos, fundado sobre qualquer outra forma de poder, tal como o económico ou o conhecimento.
O poder económico, ao contrário do poder militar, não é primário, mas derivado. Dentro de um Estado, depende da lei; em negociações internacionais só em questões menores é que depende da lei, mas quando estão envolvidas grandes questões depende da guerra ou da ameaça de guerra. À parte o poder económico do trabalho, qualquer outra forma de poder económico, na sua análise final, consiste em ser capaz de decidir, através do uso de força se necessário, quem será autorizado a ocupar um dado espaço e a tirar ou a pôr lá, o que quer que seja. Veja-se a cooperação militar com os interesses económicos quando infunde protecção às instalações petrolíferas, quer se trate de jazigos em exploração, quer de refinarias em laboração.
Trípode de poder
Figura 1.1
Academia
NATO
WTO
Igreja ecuménica
O profundo entrosamento entre a trípode do poder (a que muitos académicos acrescentam, por vezes, o poder religioso) é, desde há muito, de reconhecida importância. O poder militar utiliza o conhecimento científico e apoia o poder económico. O poder económico utiliza o conhecimento em toda a sua extensão e conta com o apoio do poder militar.
O conhecimento apoia-se no poder económico para o seu próprio desenvolvimento. Já há mais de 2500 anos, Sun Tsu afirmava, na sua “Arte da Guerra” que “O que conhece o inimigo e se conhece a si próprio não correrá perigo em cem combates. O que não conhece o inimigo, mas que se conhece a si próprio, umas vezes sairá vitorioso, outras vezes encontrará a derrota. O que não conhece, nem o inimigo nem a si próprio, será, invariavelmente, derrotado em todos os combates.”.
São bem conhecidos os casos de Estados que adquiriram poder militar por causa da sua força económica. Na antiguidade as cidades marítimas gregas e Cartago são os exemplos mais notáveis; na Idade Média, as repúblicas italianas; e nos tempos modernos, primeiro a Holanda e depois a Inglaterra. Em todos estes exemplos, com a excepção parcial da Inglaterra depois da Revolução Industrial, o poder económico baseava-se no comércio, e não na posse de matérias-primas. A riqueza obtida através do comércio era utilizada, em grande parte, na contratação de mercenários e tornava-se assim um meio de obtenção de poder militar.
De salientar que nos descobrimentos portugueses foram utilizados todos os poderes (inclusive o religioso), bem como na recente Guerra do Golfo.
Na actualidade, inumeráveis discussões acerca do processo de globalização têm salientado os seus aspectos económicos, dado que a globalização da política mundial implica, entre muitas outras vertentes, a globalização da economia.
A política e a economia são inseparáveis no quadro das relações sociais. A política (que trata da distribuição e do exercício do poder) é indissociável da economia (na sua vertente de produção, de trocas e de consumo de matérias valorizadas). Simultânea e igualmente, a economia é indissociável da política, cooperando na determinação da localização do poder e de como este é exercido.
A economia, por si própria, não esclarece todo o sistema. Porém, não podemos conceber análises do mundo político (nem qualquer análise de globalização como acontecimento-chave da história mundial contemporânea) se não for contemplada a dimensão económica.
Note-se que se tornou possível a uma empresa localizada onde quer que seja, produzir um produto em qualquer parte do globo, utilizando recursos onde quer que se encontrem disponíveis, e distribuí-los em venda em qualquer mercado, por muito distante ou diferente que seja.
Desde logo, deve-se destacar as diferentes vias, largamente discutidas, no âmbito do comércio global, com o objectivo de dar curso à globalização do comércio, nomeadamente quanto a:
cruzamento de fronteiras,
abertura de fronteiras, e
transcendência de fronteiras.
Apesar das três concepções se poderem sobrepor entre si em certa extensão, comportam diferenças importantes quanto ao foco perspectivado. Muitos argumentos referentes à globalização económica radicam no cepticismo dos que adoptam a primeira perspectiva contra os entusiastas que optam pela segunda noção.
O cepticismo posto no significado da globalização económica contemporânea surge quando os analistas estudam o processo em termos de aumento de movimentos de cruzamento de fronteiras entre países, relativamente a pessoas, bens, capitais, investimentos, mensagens ou ideias. Nesta perspectiva, a globalização é vista como equivalente a internacionalização, não existindo diferença significativa entre empresas globais e internacionais, entre comércio global e internacional, entre capital global e internacional ou entre finança global e internacional.
Os cépticos enfatizam normalmente que as chamadas empresas globais continuam a gerir a maioria dos seus negócios no seu país de origem, mantêm um forte carácter e fidelidade nacionais, e continuam fortemente dependentes dos respectivos Estados para o sucesso das suas empresas.
Em contraste com os cépticos, os entusiastas da contemporânea globalização do comércio e da finança definem geralmente estes desenvolvimentos como parte de uma evolução a largo prazo, direccionada ao estabelecimento de uma sociedade global. Neste segundo conceito, a globalização enquadra-se não na extensão da internacionalização, mas sim na progressiva remoção dos controlos fronteiriços e estes no sentido do fim das relações internacionais. Num mundo de fronteiras abertas, as empresas globais substituem as empresas internacionais, o comércio global substitui o comércio internacional, o capital global substitui o capital internacional e a finança global substitui a finança internacional.
Nesta perspectiva, a globalização é função da liberalização, ou seja, do grau em que pessoas, artigos, instrumentos financeiros, capital social, mensagens e ideias, possam circular livremente na economia mundial, livres de restrições impostas pelos Estados.
Logo, a maioria dos debates que envolvem a globalização do comércio têm-se desenrolado entre os globalistas que supõem uma inexorável tendência em direcção à economia mundial aberta e os cépticos que entendem a presente situação como uma expansão limitada e reversível de transacções entre fronteiras cruzadas.
Porém, estas duas mais comuns posições não excluem outras interpretações possíveis. De facto, nenhuma destas perspectivas convencionais exige um conceito distinto de “globalização”. Ambos os conceitos ressuscitam argumentos que foram elaborados utilizando outro vocabulário, muito antes da palavra “globalização” se ter difundido na década de 1980.
Numa terceira perspectiva que advoga a transcendência de fronteiras, a globalização contempla o processo pelo qual as relações sociais adquirem qualidades independentes das distâncias e das fronteiras, em que a vida humana é crescentemente jogada no mundo como se se tratasse de um único local. Neste caso, numa economia em globalização, os modelos de produção, trocas e consumo tornam-se cada vez mais desligadas de uma geografia de distâncias e fronteiras. O aumento da supra-territorialidade reflecte-se inter alia no aumento das transacções comerciais entre países.
No Capítulo 6, ao tratarmos das estratégias de marketing global, temos oportunidade de desenvolver este tema, abordando vantagens e inconvenientes da terceira perspectiva, num quadro de transcendência das fronteiras.
Ao tomar a decisão de expandir a sua actividade, a empresa irá enfrentar novos desafios, pelo que deverá introduzir as indispensáveis adaptações no interior da sua organização a nível da estrutura e aguardar a sua estabilização e consolidação, antes de iniciar o processo de expansão, percorrendo as três fases requeridas pelo processo:
Processo de internacionalização
Figura 1.2
Reestruturação
Consolidação
Expansão
Na particular situação da globalização da economia e da internacionalização das empresas, o gestor é um guerreiro a operar na cena internacional, considerando que a sua “luta” será desenvolvida até que o seu objectivo prevaleça sobre a resistência da oposição. Dado que tal disputa não envolve violência física, o processo intitula-se de “luta pacífica”. Se utilizar meios formalmente pacíficos para obtenção de controlo das oportunidades e de vantagens também ambicionadas por outros, pode denominar-se “concorrência”. Esta tem vindo a ser chamada “concorrência controlada” quando os meios e os objectivos estão submetidos a uma só autoridade. A concorrência económica, ao encontrar-se sujeita às leis do mercado e às regulamentações internacionais, cai dentro desta última denominação.
Logo, em concorrência controlada, o sucesso vai basear-se essencialmente:
na atitude a introduzir no processo, dependente da motivação e dos objectivos a atingir, e
na abordagem do processo, apoiada no conhecimento adquirido em tempo apropriado.
Nesta perspectiva, atribuiu-se uma especial importância à envolvente política e económica internacionais e aos constrangimentos de ordem social e cultural, estruturando o presente estudo em quatro partes sequenciais e complementares de modo a abarcar os diferentes aspectos inerentes à opção de internacionalização a desenvolver num ambiente de economia globalizada.
Assim, a Primeira Parte trata da envolvente, incluindo as diferentes perspectivas de relações internacionais que marcam uma maior ou menor abertura dos mercados disponíveis, bem como o campo de actuação e os seus respectivos actores no mosaico económico e comercial internacional. Enfatiza-se o papel desempenhado pelas organizações multilaterais e o apoio prestado pelas entidades e agências governamentais e pelas organizações internacionais, ao analisar a envolvente e as possíveis oportunidades, no âmbito das respectivas áreas de competência e de decisão.
A Segunda Parte dirige-se fundamentalmente à estratégia e à decisão a tomar quanto aos programas de marketing a desenvolver. Salienta-se que não há uma segunda oportunidade de abordagem ao mercado. Para tanto, exige-se a definição da estratégia e a sua cuidada preparação, tendo em especial atenção as diferenças culturais, a selecção do parceiro comercial adequado, a adaptação dos produtos à realidade do mercado e do consumidor alvo, sem descurar o rigor posto no cumprimento dos contratos, nos prazos de entrega, na qualidade do produto, no preço competitivo, no design apropriado, nas necessidades do consumidor e na imagem da empresa.
A Terceira Parte lida com os aspectos técnicos do desenvolvimento do projecto decidido implementar na via da internacionalização da empresa. Esta fase trata da reestruturação e da consolidação da organização que irá realizar o projecto de expansão da empresa, de acordo com os factores influenciadores detectados e os canais de distribuição do produto a internacionalizar e a cuidadosa selecção dos membros mais adequados ao acesso ao mercado.
A Quarta Parte trata do comércio internacional, no seu indiscutível papel de uma das mais importantes componentes do marketing internacional. As questões relativas a esta disciplina têm representado, desde sempre, uma área especial e controversa da ciência económica que se tem vindo a autonomizar em consequência do aparecimento de novas variáveis que conduziram à delimitação de áreas dentro dessa característica ciência. Logo, sublinha-se a importância das trocas comerciais no seu papel de elo de ligação entre nações e de promoção do crescimento económico. Esta fase do estudo termina com a análise do processo de planeamento das exportações e dos seus respectivos procedimentos e mecânica operacional.
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quinta-feira, 24 de abril de 2008
Petróleo. Qual Crise? (J. Caleia Rodrigues. Booknomics: Lisboa, Abril de 2006)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 00:47Contracapa
Quanto petróleo existe no subsolo? Quanto poderá vir a ser possível extrair no futuro? Nunca ninguém soube ou terá a veleidade de tentar inventariar! Mas a delapidação dos recursos petrolíferos é preocupante.
Surgiram, entretanto, novos actores na cena internacional: a China e Índia, que comportam um terço da população mundial e estão dependentes do petróleo para dar continuidade aos seus programas de desenvolvimento. Estes novos consumidores gigantes sobrepuseram-se às economias industrializadas que foram relegadas para lugar secundário na ordem das prioridades a satisfazer.
Com a alteração do naipe de consumidores acabou por emergir a Rússia a liderar o mercado de abastecimento com os seus imensos recursos de gás e petróleo.
O Presidente russo anunciou em Janeiro de 2006 a imediata construção de um oleoduto com capacidade para transportar os 5 mil milhões de barris que irá entregar à China até 2030. Caminhamos para o esgotamento do petróleo convencional.
A alternativa pode estar nos petróleos pesados ou nos sintéticos a partir do carvão, já em produção comercial. Para quem os puder pagar!
O grande obstáculo à utilização maciça destes petróleos não-convencionais reside nos custos da extracção e do processamento. Ambos exigem um grande esforço financeiro de retorno a longo prazo. Sem esquecer as exigências ambientais.
Aos países extremamente dependentes que não os possam pagar não restará outra saída que não seja a de optar por energias alternativas: hídrica (se tiverem água), eólica (se tiverem vento) ou biomassa (se tiverem solo arável e água).
Seremos obrigados a conjugar as várias fontes energéticas disponíveis e utilizá-las racionalmente. No equilíbrio das várias opções a tomar, residirá o bem-estar da civilização tal como a conhecemos.
E a Europa? Continuará Unida em torno desta questão simultaneamente económica, política e social?
Prefácio
“Petróleo, Qual Crise?” é um livro de leitura e estudo obrigatórios para quem queira entender os desafios do presente que condicionam o nosso futuro. José Caleia Rodrigues, imprime, com mão de mestre, o resultado de anos de investigação aturada no terreno, em países estratégicos para a problemática do petróleo, primeiro em Angola e na Venezuela, em funções privadas, depois no desempenho exemplar das suas elevadas funções de Delegado do ICEP e de Conselheiro Comercial das Embaixadas de Portugal em Israel, Marrocos e na Africa do Sul. Apesar de absorvente, o seu trabalho era insuficiente para preencher o seu espírito de estudioso, atento e preocupado com o devir da Humanidade. Assim foi coligindo notas, vendo o que outros não viam, trabalhando, aturadamente e em silêncio, o politicamente incorrecto até o poder expor. Abre-nos, neste seu magnífico livro, o véu do seu imenso conhecimento sobre esta área fulcral para a Humanidade.
A sua mestria é visível ao longo das páginas, porque só escreve de uma forma tão clara e compreensível sobre temas tão difíceis e complexos quem domina completamente a matéria sobre a qual escreve. Este é um livro que todos poderão ler e entender sem esforço. Dirige-se a todos e não apenas à Comunidade Científica ou aos estudiosos deste tema. E bem, porque a procura de soluções para a ultrapassagem deste problema estrutural da escassez da fonte de energia que viabiliza o funcionamento da nossa Sociedade, como a conhecemos, diz respeito a todos e não apenas a uma comunidade restrita de pensadores. O que está em causa, como o autor permanentemente chama a atenção, não é uma crise que, por definição se resolve. É, pelo contrário, um problema estrutural de esgotamento de uma fonte de energia que é finita e que é a base que permite a vida como a conhecemos. Cada um de nós terá um papel fundamental na ultrapassagem deste grave problema porque, a menos que uma nova e barata forma de energia surja, o problema só se resolve com uma mudança radical do nosso modo de vida…de cada um de nós, qualquer que seja o nosso nível de riqueza. Como José Caleia Rodrigues tão bem deixa perceber no título que escolheu, definir a questão petrolífera como uma crise é uma forma perigosíssima de fazer adiar a procura das soluções que de há muito deveriam estar encontradas. A noção de crise é a de que algo grave provocou um desequilíbrio mas que esse desequilíbrio é passageiro. A palavra crise pode ser associada à de paixão: um sentimento muito forte, muito intenso, que provoca a concentração da atenção em um só ponto mas que, por definição, é de curta duração. Aqui o problema é o do consumo, em progressão exponencial, do recurso energético escasso que suporta o nosso modo de vida. O caminho para o esgotamento acelerou-se com o advento da globalização competitiva cujos valores dominantes da eficiência e competitividade ocuparam o lugar deixado vago pelas ideologias e em que a abertura à economia de mercado de países como a Índia, China, Paquistão e Rússia, com mais de um terço da população mundial e taxas de crescimento médio anual próximas dos dois dígitos criam uma pressão fortíssima quer sobre o consumo quer sobre o preço deste recurso energético. José Caleia Rodrigues, ao enunciar o carácter finito do petróleo fácil mostra o caminho para a tomada de consciência de que não só o petróleo é finito como o próprio Planeta é finito. O desígnio da nossa geração, único sustentável, é o de satisfazermos as nossas necessidades de hoje sem pormos em causa a possibilidade de as gerações futuras satisfazerem as suas necessidades amanhã, com qualidade de vida. Por isso, o autor, ao mesmo tempo que mostra as diferentes alternativas energéticas vai sempre chamando a atenção para as questões ecológicas e ambientais que resultariam de explorações in extremis como seriam, por exemplo, as do petróleo do Árctico.
Sem qualquer extremismo ou dogma, este livro é um livro sério, como o é, irrepreensivelmente, o seu autor. Caracteriza o problema, mostra as soluções possíveis, datando-as, isto é, mostrando sempre a sua precariedade ou consequências económicas, ambientais e geo-estratégicas. Não acredita, o autor, no apocalipse mas também não acredita, a menos que um avanço tecnológico decisivo aconteça, numa resolução do problema sem uma alteração substancial do nosso modo de vida, isto é, sem o contributo consciente de cada um de nós.
Este é um livro de características excepcionais, de leitura fácil, de equilíbrio, de esperança no bom-senso da Humanidade e de visão. Grandes razões para a sua leitura como o foram, disso estou certo, para a decisão de a promissora Booknomics o escolher como o seu primeiro livro editado.
António Neto da Silva
Lisboa, 3 de Abril de 2006
Índice
Introdução
Primeira Parte
Da origem utópica à petrodependência
1. Ameaças de natureza económica
Gestão dos recursos naturais
Conflito provocado pela escassez de recursos naturais
OPEP e a Petro-Jihad
2. Porquê o petróleo?
O imparável aumento do consumo
Desesperada procura internacional
Guerra aberta pelo domínio do petróleo do Médio Oriente
Reservas estratégicas
Segunda Parte
Do uso e abuso à inexorável disputa
3. A tomada de poder pela OPEP
O cartel das “sete irmãs”
A OPEP domina o mercado
Lançamento da “arma-petróleo”
4. Primeira deflagração da “arma-petróleo”
Novo factor de poder
As petro-finanças apoiam objectivos políticos
Primeiro embargo e consequente choque petrolífero
O poder devastador dos choques petrolíferos
5. Onde mora o poder?
O dilema americano
A União Europeia cada vez mais dependente
A importância da Noruega no xadrez mundial
Reconcentração das grandes petrolíferas
Rússia ou Arábia Saudita?
Terceira Parte
Das alternativas aos custos a suportar
6. Alternativas de compromisso
Para quando a exploração do Árctico?
Petróleo pesado
Combustíveis líquidos sintéticos
Gás natural: concorrente ou complementar?
7. Pontos quentes
Partilha dos recursos do Mar Cáspio
A encruzilhada afegã
Case study: Água na fogueira do conflito israelo-árabe
8. Constrangimentos a ultrapassar
Megainvestimentos requeridos
Insuficiente capacidade de refinação
Escoamento do produto: As petroestradas
Case study: Ponte energética Este-Oeste
Glossário
Bibliografia
INTRODUÇÃO
Quando ouvimos falar em crise de petróleo deparamo-nos com um perigoso equívoco.
Não parece que esta escassa e finita matéria-prima, ou mesmo o sector petrolífero, estejam a passar por uma crise que, por definição, é transitória. Nada que se possa comparar com boicotes, choques petrolíferos ou consequências de pontuais situações políticas vividas no passado.
Podemos e devemos encarar a situação como consequência natural da desenfreada intensificação e descontrolada massificação da utilização do petróleo bruto convencional, acompanhada por um demasiado longo período em que o investimento não acompanhou a taxa de crescimento da procura.
A explosão demográfica aliada à exigência de perpetuação dos altos níveis de vida conseguidos nos países ricos e à pretensão de os atingir, reclamada pelos países pobres, introduziram aberrantes pressões no fornecimento estabilizado e continuado dos recursos naturais à escala mundial. Estas pressões provêm tanto da privação como das dimensões ecológicas do drama populacional, igualmente importantes na nossa concepção do mundo como população global.
Os analistas são unânimes em concluir que a utilização dos recursos naturais aumentaram de forma exponencial. Grande parte dos recursos disponíveis e indispensáveis à manutenção do conjunto humano, continua a aumentar, em muitas regiões, em ritmo superior ao aumento populacional. Enquanto a população mundial aumentou três vezes e meia desde 1890, a energia industrial consumida per capita, apesar de desigualmente repartida, aumentou mais de sete vezes durante o mesmo período e a energia total consumida a nível mundial aumentou quase catorze vezes.
Estamos perante a emergência de um ciclo complexo. A taxa de natalidade tende a reduzir-se e a estabilizar em países economicamente desenvolvidos, ao mesmo tempo que se exige mais energia para que o nível de bem-estar se mantenha. Nas regiões economicamente menos desenvolvidas, o acréscimo de população faz aumentar a procura que rapidamente absorve a totalidade do adicional de energia e de riqueza conseguidas, consumidas na pura manutenção do nível corrente, exigindo-se, portanto, enormes quantidades de energia para atingir um acréscimo de desenvolvimento económico e de bem-estar.
Não poderemos mais invocar causas unicamente localizadas no cartel dos produtores, já que a história recente tem demonstrado que só são eficazes em determinadas condições conjunturais, se nos lembrarmos do que aconteceu noutros tempos, bem recentes, com o cobre, com o cimento ou com o cacau.
No entanto, o futuro dos países menos desenvolvidos tem constituído uma das mais preocupantes questões apresentadas na nossa era à economia política internacional, sendo entendido que a forma como esta matéria for resolvida, afectará, indubitavelmente, o futuro do nosso planeta. O intenso desejo da maioria da raça humana em escapar à debilitante pobreza e a juntar-se ao mundo economicamente desenvolvido, é objecto determinante da política internacional. Atingiu-se a passagem do século e ainda subsiste grande controvérsia quanto às causas, próximas ou remotas, e ao encontro de possíveis soluções para este confrangedor problema.
Não será demais sublinhar que um Estado se torna politicamente dependente, quando as suas estruturas e instituições de poder são controladas do exterior e economicamente dependente quando as suas exportações e as suas importações são necessárias para a sua sobrevivência.
Situação flagrante de dependência económica é a manifestada por numerosos países, na sua incessante busca de novas e mais seguras origens para a importação de matérias-primas energéticas, indispensáveis à manutenção do seu tecido social e económico.
De uma forma geral e agravante, as relações de natureza funcional entre tecnologia e poder económico, por um lado, e poder político e militar, por outro, viram-se gravemente perturbadas – até se poderia ir mais longe, dizendo que foram, parcialmente, destruídas – pelo uso recente da utilização do petróleo como arma política, já que a resolução da questão energética está intimamente relacionada com as transformações ocorridas na órbita da economia internacional. As rápidas actuações na cada vez maior procura de recursos naturais energéticos por parte dos consumidores internacionais provocaram uma alteração profunda em termos de dependência, conduzindo a economia industrial mundial a depender ainda mais das limitadas fontes de energia.
A energia assumiu uma posição dominante na extensa agenda política económica, demasiado rapidamente para que permitissem ser encontradas vias de estabilização. Não parece difícil admitir que, nas suas várias formas, apresenta-se como sinónimo de desenvolvimento económico e, ainda mais, de riqueza e prosperidade. Consequentemente, o acesso e controlo dos recursos energéticos constituem uma preocupação central dos governantes e de todos aqueles que se encontram envolvidos em processos de produção industrial.
Enquanto o Médio Oriente produziu em 2004, cerca de 31 por cento do petróleo mundial, consumiu apenas 7 por cento. Pelo contrário, o Japão, com enorme escassez de recursos energéticos, produziu cerca de 0,15 por cento do petróleo mundial e consumiu nada menos que 7 por cento. Ou seja, a quantidade consumida pelo Japão é idêntica à consumida pelo conjunto de todos os países do Médio Oriente. Com uma notável diferença: o petróleo consumido pelo Japão é importado e o do Médio Oriente é de recurso próprio.
Como corolário evidente destas contradições, o petróleo tornou-se mercadoria-chave do comércio internacional e quando os consumidores pretenderam voltar a dispor de abastecimento seguro não tiveram outra saída que não fosse a de criar condições sob as quais a “política petroleira” se pudesse desenvolver.
Na realidade, foi devido a esse processo que as políticas petroleiras foram colocadas no topo da agenda política mundial durante os anos 70 e 80. O que fizeram, reflecte a complexa interligação de tendências e acontecimentos em diferentes centros, envolvendo uma diversidade de agentes, tanto estatais, como não-estatais. Por outro lado, as grandes multinacionais petrolíferas, que durante tanto tempo tinham exercido uma dominante influência na indústria petrolífera, foram confrontadas, durante os anos 50 e 60, com a redução de receitas, quando o preço do petróleo desceu. Ao mesmo tempo, o crescendo de nacionalismos no antigamente chamado Terceiro Mundo influenciou a atitude dos Estados produtores de petróleo que começaram a exigir maiores receitas e mais eficaz controlo dos seus recursos petrolíferos. A principal manifestação deste desenvolvimento foi o colossal papel desempenhado pela associação dos maiores produtores exportadores, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), no embargo imposto em 1973.
Tornou-se, rapidamente, bem claro que a OPEP poderia começar a usar o seu reencontrado e renovado poder, actuando nos fornecimentos e nos preços, pondo em risco a segurança económica dos Estados industrialmente desenvolvidos. Poderiam, eventualmente, ter sido usadas políticas macroeconómicas para amortecer as consequências do choque provocado pelo aumento dos preços. Este, por se ter apresentado com tão grande dimensão, fez aumentar os factores de produção em todos os países importadores dependentes
Trinta anos depois do impacto da deflagração da crise de 1973 na política internacional, o petróleo mantém-se como produto estratégico crítico, na esfera do equilíbrio de poder e do equilíbrio político internacional global.
Surgiram, entretanto, novos actores na cena internacional com a emergência económica da China e da Índia que, apesar de consideradas economias em desenvolvimento, contam com um terço da população mundial e estão dependentes do petróleo para a implementação dos seus programas de desenvolvimento. Dada a dimensão dos mercados em jogo, estes grandes novos consumidores sobrepuseram-se às economias industrializadas que passaram a ficar relegadas para um lugar secundário na ordem de prioridades dos mercados dependentes.
Se surgiram novos grandes mercados consumidores dependentes, também surgiu a Rússia a disputar a liderança do mercado abastecedor, baseada nos seus imensos depósitos petrolíferos localizados no Árctico e na Sibéria Oriental, recentemente activados.
Em retrospectiva, os choques dos anos 70 podem ser vistos como o ponto alto do nacionalismo do petróleo. Foi a era em que a economia mundial estava suspensa dos comentários que os Ministros do petróleo deixavam correr nos bastidores das reuniões da OPEP e quando os erros do colonialismo pareciam ter sido correctos. Foi o princípio da “nova ordem internacional”, um “jogo de soma-zero” (game theory) que aspirava a uma redistribuição seriada, riqueza reencaminhada do Norte para o Sul e redução da estatura internacional dos Estados Unidos e das outras grandes potências industriais.
Muito destes acontecimentos já pertencem à história. Os países exportadores de petróleo aprenderam que precisavam mais dos importadores, do que os importadores poderiam precisar deles.
No ano 2003, a exportação de petróleo valeu 38,3 por cento do PIB da Arábia Saudita, 65,3 do PIB de Angola, 38,4 do PIB do Iraque e 96,6 do PIB da Guiné Equatorial. Mas só valeu 17 por cento do PIB da Rússia e 19,8 do PIB do Irão.
Pelo visto, não é demais sublinhar que grande parte dos principais abastecedores do mercado mundial de hidrocarbonetos estão tanto ou mais reféns das suas vendas de petróleo do que algumas das maiores economias industrializadas estão dependentes do seu abastecimento.
Estes desenvolvimentos conduzem a novos debates acerca do verdadeiro significado da segurança e que tipo de relações duráveis será agora possível entre consumidores e produtores, de modo a que possam, a longo prazo, vir a satisfazer os interesses de ambos. A Guerra do Golfo ilustra, igualmente, tanto o crítico posicionamento do petróleo no equilíbrio de poder global, como a importância da interdependência entre produtores e consumidores industrializados.
O consumo de energia apresentou um ligeiro decréscimo desde o início da década de 1980, em parte devido a medidas efectivas de conservação (especialmente na Europa e no Japão) mas também consequência do abrandamento do desenvolvimento económico verificado desde então. Dado que este último parâmetro, por razões óbvias, não se eterniza, e conscientes da possibilidade de novos choques petrolíferos em termos de acentuado agravamento dos preços de mercado e da imposição de reduções de fornecimento, será imprescindível encontrar novas fontes e novas formas de conservação de energia.
Note-se que o sector dos transportes (rodoviários, aéreos e marítimos) consumiu quase 60 por cento da produção mundial de petróleo, em 2003. Tem-se exercido um grande esforço para conseguir meios de transporte menos “glutões”, ao mesmo tempo que se têm desenvolvido as origens alternativas para geração de energia eléctrica, responsável por grande parte dos restantes 40 por cento.
Contudo, a delapidação dos recursos globais é excessivamente desigual e a distribuição dos recursos naturais vitais não é equitativa nem razoável.
As disponibilidades são abundantes, mas apresentam-se desigualmente distribuídas entre países e povos, mesmo dentro das suas próprias fronteiras políticas, estas raramente coincidentes com fronteiras naturais.
Enquanto o aumento do conjunto populacional do mundo economicamente menos desenvolvido induz consumo de recursos é, contudo, nos países economicamente desenvolvidos que se verifica maior delapidação. Os actuais padrões de produção e de distribuição vigentes nos países ditos industrializados, muito provavelmente não poderão continuar a ser mantidos por muito mais tempo e a tendência para a imitação por parte dos restantes irá causar irreparáveis danos ecológicos.
As estratégias a implementar a curto e a médio prazo obrigarão, inevitavelmente, à vivência de um longo e penoso período de transição. Transformações básicas poderão ter que ser implementadas na utilização dos recursos e na substituição dos recursos exauridos, simultaneamente com mudanças a introduzir a nível dos usos e costumes, quer sejam em base individual, de grupo, empresarial, social, regional ou até mesmo à escala do sistema internacional global.
Um grupo de pessimistas, composto maioritariamente por muito respeitados geólogos, físicos e financeiros, prevê uma espécie de apocalipse, seguindo uma teoria da conspiração ou afirmando peremptoriamente que a civilização, tal como a conhecemos, está atingindo um rápido fim. È esta a razão de ser dos pessimistas individualmente conservadores que se apresentam absolutamente terrificados com uma teoria bem defendida designada globalmente como “peak oil”. Ou seja, a produção mundial partiu de um baixo montante verificado na década de 1950, atingiu o seu máximo à volta do ano 2000 e atingiria de novo, um mínimo idêntico, à volta do ano 2050. Cerca do ano 2020 voltaria aos níveis de 1980, numa simetria de declínio matematicamente correcta, do seu ponto de vista.
Sem pessimismos exagerados, temos, porém, que aceitar um facto incontestável: o primeiro trilião de barris disponíveis desde as primeiras descobertas em Baku e na Pensilvânia, em finais do século XIX, foi consumido nos primeiros 125 anos e bastarão apenas 30 anos para consumir o segundo trilião.
É evidente que se trata de um produto finito que constitui uma origem de energia não renovável, mas um tal tipo de previsão a 50 anos nesta matéria mais parece profecia de apocalipse bíblico do que reflexão que considere todos os outros parâmetros de ordem económica, tecnológica e de investigação.
Efectivamente a situação criada pela delapidação dos recursos petrolíferos é preocupante. Basta reparar, apoiando-nos apenas nos grandes números, que a produção mundial anual de petróleo bruto convencional foi de quase 17 biliões de barris no ano de 1970, para atingir mais de 26 no ano 2004, correspondendo a um aumento anual de 50 por cento no curto espaço de 34 anos.
As previsões da Energy Information Administration (EIA) apontam para um consumo da ordem dos 43 biliões de barris em 2025. Mais 20 anos, mais 65 por cento.
Tendo em atenção que as reservas comprovadas do petróleo bruto convencional rondam os 1.200 biliões de barris, atingir-se-ia a sua extinção dentro de um curto espaço de 26 anos. Isto se o consumo mundial estagnasse e não se comprovassem mais reservas ainda em fase de análise. Mas não parece verosímil que se chegasse a atingir um consumo de tais quantidades a poucos anos da extinção do produto, dentro do quadro de reservas actualmente comprovadas.
Neste contexto, exige-se a prospecção e inventariação de novas bolsas tecnicamente possíveis de exploração e economicamente viáveis, nomeadamente ao nível do petróleo não-convencional constituído pelos betumes, xistos betuminosos, petróleos pesado e extra-pesado, disponíveis em grandes quantidade no Canadá e na Venezuela, ou mesmo a obtenção de combustíveis líquidos a partir da sintetização do carvão. O que exige um esforço financeiro verdadeiramente notável.
As opções tomadas em relação ao gás natural e à energia de origem nuclear não apresentaram, de início, perspectivas muito animadoras. A primeira devido às ligações de demasiada dependência entre o produtor e o consumidor, e a segunda pela dificuldade resultante dos elevados custos de instalação das infra-estruturas técnicas, enriquecimento do urânio e à exigência de enorme investimento inicial associado à reduzida dimensão dos mercados nacionais dos países menos desenvolvidos, sem poder esquecer o drama ambiental. A alternativa apresentada pelo carvão, também não se mostrou capaz de resolver todas as dificuldades enfrentadas pelos países dependentes, atendendo a que não contemplava todas as utilizações até então prestadas pelo petróleo, nomeadamente a de combustível líquido.
Porém, o tempo que foi de decorrendo e a exaustão dos recursos disponíveis forçaram à orientação para fontes energéticas até então relegadas para segundo plano de prioridades a accionar no sector petrolífero.
Comecemos pelo lote de constrangimentos com que este sector se debate e vejamos de seguida as opções que se apresentam disponíveis.
Uma das maiores dificuldades que a indústria petrolífera enfrenta na actualidade, está relacionada com o terrorismo internacional e com as acções dos activistas locais que ameaçam a actividade petrolífera em qualquer dos domínios da fileira: poços e plataformas de extracção, pipelines e vias marítimas de transporte, refinarias ou depósitos de produtos refinados.
O aumento de riscos sofridos por perturbadora ocorrência conjuntural levou muitas empresas a implementar o seu próprio sistema de defesa quando actuam em ambientes hostis e em que as forças de segurança locais são consideradas ineficazes. As petrolíferas deparam com riscos acrescidos quando se deslocam para regiões mais instáveis em busca de novos recursos. Tem sido largamente publicitado que os gestores das empresas têm que negociar com raptores e movimentos guerrilheiros em África e na América Latina, ou enfrentar a ameaça de ataques terroristas no Médio Oriente e na Ásia Central.
Podem adicionar-se a este tipo de ameaças os actos de pirataria no Estreito de Malaca, uma das mais importantes rotas marítimas de transporte de hidrocarbonetos.
No conjunto de constrangimentos a ultrapassar, procede, porém, a considerável questão de como conciliar o continuado aumento da utilização da energia de origem nos hidrocarbonetos com os imperativos ecológicos e ambientais. Caso paradigmático é o conflito de interessas inerentes à manifesta vontade de extracção dos imensos recursos disponíveis no Árctico ou a construção premente e urgente de novas e mais adequadas refinarias. Continua-se esperando pelo fim das situações ainda não resolvidas na partilha do Mar Cáspio e na encruzilhada vivida no Afeganistão, apenas possíveis de tratar na arena política internacional.
A questão dos oleodutos é fundamental. Numerosos países que dispõem de vastas reservas comprovadas estão impedidos de exportar as suas potenciais produções por não disporem das exigíveis fontes de escoamento, resolúvel pela simples implementação de oleodutos, a que se agrega, nalguns casos, instalações portuárias adequadas.
Em grande parte dos casos, os oleodutos ligam um ponto de produção a um mercado consumidor. Ponto a ponto. Qualquer acção terrorista num qualquer tramo do oleoduto, bloqueia completamente o fluxo de abastecimento. Esta situação poderá vir a ser resolvida com a implementação de uma rede primária interligada em malha (anéis), semelhante ao que foi concebido para a energia eléctrica, para que quando surja uma situação de bloqueio num oleoduto (ramal) seja possível a continuidade de fornecimento através da rede interligada. Os elevadíssimos custos a suportar têm impedido tal qualidade de garantia de abastecimento seguro e continuado.
No que se refere aos produtos disponíveis, ainda não globalmente desenvolvidos, destacam-se os petróleos não-convencionais e os combustíveis líquidos a partir da sintetização do carvão natural, uns e outros muito abundantes em reservas já comprovadas.
O grande óbice à utilização maciça dos petróleos não-convencionais reside nos custos de extracção e de processamento. No que se refere à sintetização do carvão os custos de processamento são elevadíssimos. Ambos exigem um grande esforço financeiro de retorno a longo prazo.
Recorde-se que o petróleo convencional (leve) a caminho de um rápido esgotamento dispõe de uma característica fundamental inultrapassável: existente num jazigo petrolífero sob pressão, jorra de um furo que atinge a bolsa que o contém, sem necessidade de grandes operações complementares para extracção e processamento ou de tecnologia específica. Daí o seu baixo custo operacional que, na maioria dos casos, se situa entre os 2 e os 10 dólares por barril. Enquanto o petróleo bruto convencional atinge taxas de “energia obtida/energia investida” de cerca de 30 para 1, o retorno nos betumes e petróleos pesados só atinge a taxa de 1,5 para 1. Conclui-se que é preciso gastar 20 vezes mais energia para gerar a mesma quantidade de petróleo não-convencional do que a gasta na obtenção do petróleo convencional.
A indústria petrolífera global, requererá muito mais elevados níveis de investimento do que durante o passado recente, para compatibilizar a satisfação da procura com as exigências ambientais.
A nova dimensão de segurança entre nações exportadoras e as empresas petrolíferas, surgirá da interligação do investimento, do comércio e da finança. Os produtores procurarão obter dos países consumidores: o capital, a tecnologia e a competência técnica, ao mesmo tempo que abastecerão os seus mercados. Esta reorientação mobilizará o investimento requerido pelo desenvolvimento de fornecimentos para o próximo futuro.
Seremos obrigados a conjugar as várias fontes energéticas alternativas disponíveis, utilizá-las racionalmente e optar por ambiente mais limpo ou manutenção do desenvolvimento económico. No equilíbrio das várias opções a tomar, residirá o bem-estar da civilização, tal como a conhecemos.
E os custos associados ao cumprimento das exigências ambientais e aos investimentos a realizar nas novas eventuais descobertas de petróleo convencional, nas redes de oleodutos seguros e no desenvolvimento da tecnologia e processamento dos petróleos não-convencionais serão, inevitavelmente repercutidos nos consumidores.
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