terça-feira, 13 de abril de 2010
As consequências da concentração das importações de petróleo e de gás em origens de elevado risco (SaeR. Relatório Trimestral. Março 2010)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 18:01"Parece evidente que Portugal poderia tirar partido da vantagem ímpar que constitui a sua localização de pólo de entrada do gás natural na Europa ocidental. Esta poderia ser a grande alternativa ao abastecimento da rede europeia, ou mesmo de desejável complementaridade à entrada do gás natural oriundo do leste, quer seja de origem russa, quer seja de origem iraniana, como tem estado a ser amplamente discutido sem que se vislumbre saída a curto prazo." In SaeR. Relatório Trimestral. Março2010
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quinta-feira, 9 de julho de 2009
O consumo mundial de petróleo tem aumentado a uma taxa próxima dos 2 por cento ao ano, até que as grandes bolsas petrolíferas, há longo tempo em exploração, começaram a atingir taxas de esgotamento tão importantes que poderão mesmo vir a pôr em risco o corrente abastecimento do mercado. Os efeitos causados pelo galopante esgotamento das bacias em exploração, poderão assumir dimensões potencialmente devastadoras.
Numa situação desta natureza, as consequências da diferença entre oferta possível e procura exigida serão, sem sombra de dúvida, muito maiores que o considerado admissível, à luz da segurança e da soberania nacionais.
Apesar de alguma retoma, o recente aumento de novas descobertas não tem correspondido ao aumento da procura, o que leva a considerar a hipótese da eventual existência de períodos de carência de abastecimento a curto prazo.
A acentuada e rápida descida dos preços verificada a partir do mês de Julho de 2008 não se ficou a dever às boas razões esperadas. Não foi motivada pelo aumento da produção ou da tão desejada eficiência energética. Deveu-se, outrossim, à redução da procura que acompanhou a redução da actividade económica nas principais regiões industrializadas. Logo, tudo leva a crer que, mal passada as causas que a motivaram, regresse, em força, a pressão sobre a oferta.
Há que ter em conta que a exploração de novas bolsas petrolíferas exige tecnologia e onerosos recursos específicos. Terão que ser exploradas mais longe, mais fundo e mais caro. De salientar que a futura geração de energia requererá níveis de investimento muito mais elevados do que os aplicados no passado, para compatibilização da satisfação da procura com as exigências ambientais, a descarbonização dos produtos energéticos e o acréscimo dos custos resultantes da implementação de reforçados sistemas da segurança das instalações de extracção e de transporte.
À quase estagnação de investimento registada na década de 1990 seguiu-se uma outra, aparentemente de ainda maior dimensão, a partir de 2006. O conjunto de anúncio de cancelamento de projectos e de “adiamentos por período indeterminado” tem aumentado de forma crescentemente preocupante. Porém, grande parte dos projectos que não arranquem no imediato, não estarão prontos para entrar em serviço em 2012-2013, prazo que tem sido considerado como limite para manutenção dos actuais níveis de produção mundial. Mas as dificuldades de captação do indispensável financiamento, a que se associa uma generalizada crise de confiança e de incerteza em relação à retoma económica global, não nos permitem atingir um grau de optimismo que nos tranquilize quanto à exigível garantia da continuidade de abastecimento.
J. Caleia Rodrigues
Analista e consultor dos mercados energéticos
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domingo, 25 de maio de 2008
Que preço terá que atingir o barril para que comecem os mega-investimentos requeridos? (J. Caleia Rodrigues, in Executive Digest, Junho 2006)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 15:59Perante a escassez de reservas comprovadas de petróleo bruto convencional e da capacidade de refinação disponível, é feito apelo a novo e substancial investimento no sector.
A não se realizarem investimentos de grande envergadura, envolvendo sectores a montante e a jusante, a produção mundial no ano 2020 será sensivelmente a mesma que se obtinha em 1980.
Porém, a população mundial atingirá quantidade aproximadamente dupla e muito mais industrializada, logo mais dependente do petróleo, do que em 1980. Portanto, a procura mundial por petróleo, ultrapassará largamente o seu ritmo de aumento de produção. Numa situação destas, os preços continuarão a subir incessantemente e as economias dependentes do petróleo para o seu desenvolvimento sustentado implodirão com os consequentes potenciais riscos de confrontações violentas.
Os efeitos consequentes de uma pequena quebra na produção produz efeitos devastadores. Lembremo-nos que, durante os choques petrolíferos da década de 70, a redução da produção atingiu apenas os 5 por cento, causando a quadruplicação dos preços do petróleo convencional. Afortunadamente, a catapultagem desses preços foi temporária e passageira. Por isso foram chamados “choques”.
Segundo as estimativas de muitos analistas, o inevitável decréscimo de produção poderá atingir uma taxa de 8 por cento anuais, Outros até predizem reduções da ordem dos 10 a 13 por cento. Grande parte dos petrofísicos expressam a opinião de que o ano 2007 será o último ano da bonança do petróleo barato, o que conduzirá a uma maior escassez de combustíveis e a um severo aumento de bloqueamentos a começar entre 2008 e 2012.
As chamadas “alternativas” ao petróleo podem ser consideradas, de facto, actualmente como “derivativas”. Sem abundante e seguro abastecimento de petróleo, não parece ser possível alcançar estas alternativas em grau suficiente que energize rapidamente o mundo moderno.
Recordemos que, após uma primeira informação de possibilidade de existência de nova bolsa petrolífera, só as análises sísmicas que permitem determinar a estrutura dos jazigos (rochas-reservatório), quer em quantidade extraível quer em qualidade (densidade, taxas de enxofre, etc.), atingem encargos de não poucos milhões de dólares. Note-se que, actualmente, já se estão a realizar extracções a mais de 3 mil metros de profundidade.
A globalização da economia e a internacionalização das empresas, também poderá ter contribuído para o agravamento do consumo global de combustíveis, dado que os produtos percorrem grandes distâncias desde os locais de produção até chegarem aos mercados consumidores. Daí o recurso à deslocalização dos centros de produção para inserção em locais mais próximos dos consumidores finais.
À guisa do realce da urgência da implementação de novos desenvolvimentos, devemos salientar que são precisos, pelo menos, 12 anos desde a tomada de decisão até à obtenção de taxas correntes de produção a partir do petróleo pesado ou dos xistos betuminosos. Não considerando tempos de revisão do projecto para adaptação às constantes alterações das exigências ambientais a cumprir. Na mesma ordem de ideias, são precisos 15 anos para a aprovação e construção de uma refinaria de processamento de petróleo pesado, mesmo tendo em conta um conhecimento tecnológico disponível e um perfeito respeito pelas normas ambientais. Apesar das esperanças postas no petróleo pesado e extra-pesado, deve ter-se em consideração que só apresentam soluções de satisfação a médio-prazo.
J. Caleia Rodrigues
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quarta-feira, 21 de maio de 2008
Quanto mais tarde, pior (Diário Económico, Destaque/Escalada de preços do petróleo, 21.Maio.2008)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 10:04Já todos tomámos consciência de que a imparável escalada de preços do petróleo bruto nada tem a ver com crises.
Não é passageira nem localizada. É generalizada e motivada por tantos e tais parâmetros que não se consegue descortinar onde irá parar, que consequências arrastará e como nos iremos encontrar quando o mercado voltar a estabilizar. Com a procura sem abrandamento, o eventual esforço europeu ocidental de redução do consumo não conseguirá compensar os aumentos localizados na China e noutras economias em plena expansão. Já não falamos das implicações geopolíticas que só têm consequências pelo facto de não se dispor, actualmente, de suficiente reserva de capacidade extractiva, disponível nos produtores a actuar no terreno. A fraqueza do dólar é mais um elemento de ponderar. E quando o dólar elevar a paridade face ao Euro? Esta situação a juntar às anteriores causa preocupação. Tanto mais que os Orçamentos de muitos Estados de países dependentes da importação de petróleo bruto ainda se vão compondo com receitas de impostos aplicados ao produto. Porém, é bem sabido que, se a redução de tais impostos pode provocar carência de recursos ao Estado, com a panóplia de consequências sociais que podem, no limite, interferir com a sua segurança e soberania, a continuidade da sua manutenção pode estrangular o desenvolvimento económico. De uma coisa podemos estar certos: quanto mais tarde vier o remédio, mais difícil será curar a moléstia.
José Caleia Rodrigues, Consultor na área do petróleo
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domingo, 11 de maio de 2008
A influência da qualidade no nível actual de preços (Diário Económico, 31.Março.2008)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 19:11A quantidade e variedade de petróleos que são comercializados no mercado internacional aumentaram enormemente nos últimos anos.
O petróleo bruto ou crude oil é apresentado numa complexa mistura de uma numerosa quantidade de componentes orgânicos que variam em aspecto e em composição, de uma bolsa petrolífera para outra. Da sua composição dependem as propriedades físicas e químicas, como sejam a viscosidade, a densidade (Grau API), o teor de enxofre ou a acidez (TAN).
Estas variáveis são altamente responsáveis pela dimensão das diferenças que os seus efeitos introduzem no nível geral de preços.
Um dos mais importantes recentes desenvolvimentos no mercado foi a entrada de quantidades substanciais de petróleos muito ácidos e de alto teor de enxofre, tendente a colmatar a escassez que está a sufocar o mercado. O seu processamento provoca corrosão nos equipamentos das refinarias e requer soluções técnicas especiais e onerosas. Muito poucas refinarias estão presentemente aptas a refinar petróleos “high TAN”, pelo que a maioria necessita de os misturar com outros antes da refinação. Dado que o petróleo é adquirido em grandes proporções, a mistura de tais quantidades com múltiplas quantidades de petróleo “low TAN” é muito oneroso, apenas realizada se os preços forem compensadores.
Os petróleos que contêm quantidades apreciáveis de ácido sulfúrico (H2S) ou outros componentes sulfurosos reactivos, são denominados “sour”. Os que contêm menos enxofre são denominados “sweet”.
Os recentes aumentos de nível geral de preços do petróleo bruto convencional, registados após 2003, têm muito a ver com as diferenças entre petróleos leves (alto grau API) e pesados (baixo grau API) e entre “sweet” (baixo teor de enxofre) e “sour” (alto teor de enxofre) manifestados pelos petróleos disponíveis no mercado.
Os petróleos leves e “sweet” (como o saudita Super Light, o nigeriano Bonny Light ou o americano WTI) são considerados petróleos de elevada qualidade e exigem um prémio de preço mais alto que os petróleos mais pesados e “sour” (como o iraquiano Kirkuk).
A limitada disponibilidade de capacidade residual de refinação também tem sido recentemente muito realçada como factor determinante do aumento global do nível de preços.
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Tem sido apontada como causa primeira do colossal aumento de preços a disponibilidade de oferta muito próxima do valor do consumo do petróleo bruto convencional, o petróleo leve a que nos referimos quase diariamente.
O atraso do arranque de novos projectos, motivado pela retracção do investimento, parece ter sido o grande responsável pela situação dramática a que se chegou.
As descobertas e a declaração de novas reservas após terem registado uma forte subida, quase estagnaram a partir do ano 2002. Foi a partir desta data que se verificou um inusitado aumento dos preços de mercado. De facto, o valor do barril de transacção em Bolsa, passou dos 26 dólares nessa data, para os actuais mais de 110. Mais do que quadruplicaram.
É preocupante a taxa de declínio que se está a registar nos maiores campos petrolíferos, em actividade há mais de 50 anos, sem que se tenham vislumbrado novas grandes explorações, pelo menos de dimensões idênticas às que existiram no passado.
Dos três maiores campos petrolíferos actualmente em exploração, o saudita Ghawar Field apresenta uma taxa de declínio de 8 por cento ao ano, o Burgan Field do Kuwait apresenta 14 por cento e o mexicano Cantarell nada menos do que 15 por cento.
O anúncio da eventual descoberta de uma grande bolsa petrolífera no Brasil, avaliada em 33 mil milhões de barris, ficaria colocada em 4º lugar no ranking das maiores do mundo e poderia, por si só, ajudar a colmatar a previsível escassez do mercado, a exigir um acréscimo de abastecimento médio anual da ordem dos 1,8 milhões de barris diários.
Apesar das características da bolsa ainda estarem insuficientemente detalhados, dado que se desconhece a profundidade de localização da bolsa, viscosidade, densidade, teor de enxofre ou acidez do petróleo em questão, a confirmação da descoberta será uma muito boa notícia para o sector e para os mercados dependentes da sua importação.
E para o povo brasileiro que irá beneficiar directamente dos resultados daí advindos.
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sexta-feira, 7 de março de 2008
Partilha dos recursos petrolíferos da Palestina (Diário económico, Novembro.2001)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 01:18Israel não dispõe, na actualidade, de suficientes recursos próprios energéticos, sendo forçado a depender quase exclusivamente de importações que satisfaçam as suas necessidades energéticas dessa estratégica matéria.
Ao pretender aumentar a sua própria participação (especialmente nos combustíveis destinados a produção eléctrica, actualmente dominada por centrais termoeléctricas a carvão), foram considerados diferentes aspectos, donde se destaca a garantia de abastecimento, a manutenção de reservas estratégicas de salvaguarda contra bloqueios de recente memória, capacidade de negociação de preços mais vantajosos, razões de ordem económica de custos e de divisas, e protecção ambiental.
Só no sector constituído pelo gás natural, têm sido apresentadas previsões de evolução de consumo que apontam para a passagem dos 4 bm³ por ano a atingir em 2005, para os 7,6 bm³ em 2015, até chegar aos 11,6 bm³ em 2025.
Uma das possibilidades disponíveis encaradas pelo Governo israelita, consiste na importação de gás do egípcio delta do Nilo e regiões offshore, quer atravessando a península do Sinai, quer via pipeline subaquático percorrendo a costa israelita.
Outra forte possibilidade considerada, surgida nos últimos anos, é a da exploração dos seus próprios recursos, baseada nos depósitos de gás offshore recentemente descobertos.
No que se refere ao gás egípcio, foi criada a East Mediterranean Gas (EMG) com o intuito de explorar esta opção, tendo em consideração a proximidade do pipeline que a ENI (maior produtora de gás no Egipto) tem em construção, partindo dos campos offshore situados ao norte de Port Said, passando pelo Sinai e terminando em El-Arish, próximo da fronteira com a Faixa de Gaza, apenas a 20 km de Israel. Este pipeline pode permitir à Autoridade Palestina obter energia a cerca de metade do preço do que está pagando à Israel Electric Corporation (IEC), de quem é, actualmente, completamente dependente no que respeita aos aprovisionamentos de energia eléctrica.
Entretanto, o Egipto e Israel anunciaram um acordo, no início do corrente ano, pelo qual o Egipto se compromete a fornecer a Israel até ao ano 2012, gás no valor de USD 3 biliões, após a redução verificada durante os últimos meses, devida a razões políticas, especialmente devidas ao ressurgimento do conflito israelo-palestino.
Apesar do acordo firmado, mantêm-se profundas preocupações em Israel, na área da segurança nacional, radicadas na demasiada dependência da energia importada desta única origem, tanto mais, que o Egipto iniciou conversações tendentes à exportação directa de gás para a Jordânia, via Aqaba, sem intervenção israelita. Note-se que, apesar da Jordânia se apresentar como o maior potencial mercado regional para as exportações de gás egípcio, as razões económicas do projecto parecem de evidência questionável.
No que se refere à segunda possibilidade, a de tentar obter recursos próprios, Israel, que tinha iniciado, em 1953, a prospecção de recursos petrolíferos no seu território, conseguiu, em meados de 1999, a descoberta de 18 mb (milhões de barris) de crude e 70 bp³ (biliões de pés cúbicos) de gás, após um esforço constituído por 438 perfurações maioritariamente offshore.
As estimativas iniciais apontam para um total de reservas da ordem dos 3 a 5 tp³ (triliões de pés cúbicos). Apesar de relativamente modestas, se as considerarmos a nível mundial, mostram-se suficientes para satisfazer a procura israelita durante vários anos, libertado-a da obrigatoriedade de se socorrer de importações.
Às quatro reservas descobertas, localizadas a sudeste do sector offshore israelita, deve-se acrescentar a bolsa Or South, de grande dimensão, atravessada pela fronteira das águas territoriais israelitas com as palestinianas da Faixa de Gaza.
Além desta bolsa parcialmente localizada em águas atribuíveis à Autoridade Palestina, foi também aqui encontrada uma outra importante bolsa, a Gaza Marine, com reservas idênticas às encontradas nas águas israelitas. Nesta concessão, em que não participam empresas israelitas, a empresa concessionária associou-se exclusivamente a empresas palestinianas por contrato com duração prevista de 25 anos, considerando que o gás obtido poderá ser transportado por pipeline e entregue no porto israelita de Ashkelon. Esta concessão de extracção, considera a construção da rede de distribuição de gás em território atribuível à Autoridade Palestina. O contrato determina que grande parte do gás extraído, até um máximo de 1,7 bm³ anuais, seja entregue em Ashkelon à IEC, destinado às centrais eléctricas israelitas, tendo em consideração que se trata de centrais do tipo de combustão dual, podendo utilizar, quer carvão como até agora, ou gás natural, como se prevê no futuro.
Apesar de Israel não se poder apresentar como um grande produtor de hidrocarbonetos, a componente criada pelo conflito israelo-árabe pode afectar profundamente o fluxo de petróleo do Médio Oriente. Dada a sua específica localização geográfica, colocado entre a Península Arábica e o Mar Mediterrâneo, Israel apresenta uma alternativa potencial à rota ocidental do petróleo do Golfo Pérsico.
Até agora, estas exportações são realizadas por navios tanqueiros (através do Canal do Suez ou contornando o Cabo africano), por pipeline do Iraque para a Turquia ou pelo pipeline do Sumed (Suez mediterrânico).
A utilização do pipeline transarábico (Tapline), construído em 1940, é considerado o melhor meio de transporte do petróleo saudita para o Ocidente (via Jordânia para o Porto de Haifa, hoje israelita) e disponibiliza outra potencial alternativa económica. Aquando da sua construção, o Tapline fazia parte da Palestina, porém, após estabelecimento do Estado de Israel, o terminal foi mudado de Haifa para o Porto libanês de Sidon, com a consequente alteração do trajecto do pipeline, que passou a atravessar a Síria e o Líbano.
Pelo conflitos operados no Líbano e por razões económicas, as exportações via pipeline Tapline foram suspensas em 1975, passando a servir exclusivamente a Jordânia. Apesar das dificuldades, o Tapline mantêm-se uma rota atractiva para as exportações do Golfo Pérsico para a Europa e para os Estados Unidos, já que os estudos realizados concluem que as exportações de petróleo via Tapline para a Europa, utilizando o porto israelita de Haifa, poderiam custar menos 40 por cento do que sendo realizadas por navios tanqueiros via Canal do Suez.
Destaque:
A fundação do Estado Palestino obriga à definição de fronteira entre Israel e a Faixa de Gaza, com a consequente repartição das reservas offshore de gás natural.
J. Caleia Rodrigues
Diário Económico
Novembro.2001
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Palestina: Consequência da restauração das fronteiras (Diário Económico, Outubro.2001)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 01:15Os aquíferos das terras altas do West Bank (Cisjordânia) têm evoluído para uma complexa situação sem precedentes no direito e nas relações internacionais.
Não cabe dúvida de que qualquer Acordo entre os compartilhantes dos aquíferos terá que proporcionar respostas adequadas à questão do controle, supervisão da qualidade e repartição da água. A este respeito, Israel só reconheceu o “direito às quantidades de água” e não ao seu controle por parte dos palestinianos.
O compromisso territorial acerca dos aquíferos assume especial importância na determinação das fronteiras a estabelecer entre Israel e o povo palestiniano. Não é certamente por acaso que a maioria dos assentamentos judeus no West Bank se encontram localizados em terrenos do aquífero ocidental. Parece claro que, desde o princípio, os judeus têm tido perfeita consciência do crescente problema dos aquíferos e a sua luta demográfica vem reforçar as reclamações que os israelitas têm vindo a apresentar por água e pelo alargamento da “estreita cintura” israelita na área de Kalkiliya-Tulkarm.
No que respeita às exigências palestinianas sobre o Rio Jordão, Mar da Galiléia e Al Alma, parece pouco credível que Israel as possa vir a considerar. A partir do momento em que as águas do Rio Jordão passaram a ser completamente utilizadas, não há espaço de manobra para negociação de novas entregas. A solução para os problemas dos palestinianos no estimado curto-prazo será por emergência dos territórios do West Bank e a médio-prazo a dessalinização. Recorde-se que no “Acordo Interino Israelo-Palestino para o West Bank e para a Faixa de Gaza”, assinado em 28 de Setembro de 1995, entre o Governo do Estado de Israel e a Autoridade Palestina, afirma-se que “Os dois lados consideram o West Bank e a Faixa de Gaza como uma única unidade territorial, pelo que a sua integridade e estatuto serão preservados durante o período interino”, para, mais adiante, afirmar que “A jurisdição territorial inclui terra, subsolo e águas territoriais, de acordo com o previsto neste Acordo.”,
Este Acordo e a “Declaração de Princípios” são omissos acerca dos direitos palestinianos, totais ou parciais, de acesso à Bacia do sistema do Rio Jordão.
Não podemos deixar de salientar que Israel e a Síria, no que respeita à questão da partilha dos recursos aquíferos, também tomaram posições de difícil conciliação. O mais evidente é que a Síria tem controle directo e indirecto sobre as nascentes Norte do Rio Jordão, incluindo as nascentes Dan que desaguam no Monte Hermon, a secção do Rio Banias (território sírio anterior a 1967) e as nascentes do Rio Hasbani, localizado em território sírio e libanês. Antes de 1967 os Montes Golã pertenciam à Síria (anexados por Israel na Guerra dos Seis Dias) que controlava, efectivamente, a qualidade das águas do Mar da Galiléia, entre outras razões porque o oleoduto saudita atravessa os Montes Golã em direcção a Sidon. Após a anexação dos Montes Golã, os israelitas construíram aí grandes reservatórios que, na eventualidade de evacuação dessa área, passariam para a soberania dos sírios que, pelo facto de terem mantido o controle da secção a montante e a maior parte da bacia do Rio Yarmuk (o maior afluente do Rio Jordão), parte integrante do seu território, estariam aptos a determinar o destino a dar às águas do Rio Jordão, colocado a jusante e, por extensão, a influenciar os fluxos israelitas. No caso de Israel se retirar para as fronteiras pré-Guerra de 1967, desocupando os Montes Golã, a Síria passaria a controlar uma parte muito significativa do Mar da Galiléia. Para além desta situação de dependência, acresce que o Líbano controla os Rios Hasbani e Ayun que drenam para o Rio Jordão, se bem que a descarga do Ayun seja pouco significativa.
Vejamos, então, os pólos de divergência mais difíceis de ultrapassar, como são os relativos às nascentes Norte do Rio Jordão, aos aquíferos dos Montes Golã, às margens do Mar da Galiléia e à bacia do Rio Yarmuk.
No que se refere às nascentes Norte do Rio Jordão, a nascente Dan, mestra das nascentes do Jordão, está situada em território israelita, apenas a pouco mais de 10 metros da fronteira internacional israelo-síria. A origem das suas águas está no Monte Hermon, o que significa que a Síria dispõe de capacidade para bombear as águas junto à nascente ou danificar a sua qualidade. Outra nascente, o Banias, encontra-se em território sírio, a cerca de um quilómetro da mesma fronteira internacional, pelo que a Síria tem reclamado a sua completa utilização. O Rio Hasbani marca fronteira entre a Síria e o Líbano e, em certos pontos do seu percurso, entre a Síria, o Líbano e Israel, tendo originado um enclave sírio que penetra, do lado oeste dos Montes Golã, no Hasbani. Deste modo, a Síria apresenta-se como parceiro único neste rio e nalgumas outras das suas nascentes (p. ex. na nascente Al Wazzani).
Na eventualidade de Israel regressar às fronteiras existentes antes da Guerra dos Seis Dias, a Síria assumiria completo controle dos Rios Banias e Hasbani e, indirectamente, do Dan. Neste caso, a Síria recuperaria o controle sobre todos os afluentes do Rio Jordão, com o risco agravado da ocorrência de danos na mais importante origem de água de Israel, em caso de poluição. Um Acordo de Paz israelo-sírio que ponha em ordem o conjunto das situações expostas, também obrigaria à revisão do traçado do oleoduto saudita que atravessa a região, já que qualquer acidente no oleoduto poderia ser catastrófico para as águas do Mar da Galiléia. De acordo com a fronteira indicada nos mapas de 1921-22, o curso do Rio Jordão, entre os Montes Golã e Israel, está localizado em Israel. Porém, de acordo com as linhas de fronteira de 1967, os sírios tornar-se-iam parceiros por inteiro, nessa área do Rio Jordão.
Quanto ao Mar da Galiléia, em caso de acordo, a Síria regressaria às suas margens, qualquer que seja a versão escolhida para traçado de fronteira internacional. Na de 1921-22, fica a cerca de 10 metros da linha da margem e, de acordo com as outras duas versões, a Síria tornar-se-ia parceiro por inteiro do Mar da Galiléia e reclamaria direitos territoriais sobre ele como, aliás, ocorreu durante a década de 1960. Em qualquer caso não seria possível inspeccionar as actividades sírias no Mar da Galiléia e, consequentemente, o Mar da Galiléia tornar-se-ia internacional com todas as implicações inerentes a essa nova situação.
O caso do Rio Yarmuk parece mais claro: a Síria detêm a chave do regime da água na Jordânia. Facto que, do ponto de vista de Israel, comporta sérias implicações geopolíticas, já que a Jordânia se tem mostrado, em várias ocasiões, muito sensível a pressões sírias.
Deve-se salientar que o lado israelita tem manifestado vontade de sair dos Montes Golã, parcial ou totalmente, em troca de garantia de paz entre Israel e a Síria. Porém, recorde-se que, em caso de decisão de saída total dos Montes Golã, aumentará o debate acerca da linha para a qual Israel deve recuar. No Tratado de Paz com a Jordânia e com o Egipto, a fronteira internacional foi a acordada entre as Partes, para cada um dos casos. No que respeita ao traçado da fronteira israelo-síria existem várias demarcações da fronteira internacional, em resultado da conflituosa história das relações entre as duas regiões. Recorde-se que foi fixada uma fronteira internacional, em 1923, entre a zona controlada pelos franceses na Síria e a controlada pelos ingleses na Palestina. Posteriormente, em 1949, foram estabelecidas linhas de cessar-fogo entre Israel e a Síria, incluindo zonas desmilitarizadas, bem definidas, em território israelita. Por fim, a fronteira que existia nas vésperas da Guerra dos Seis Dias (5 a 10 de Junho de 1967) quando Israel anexou os Montes Golã, estava desmarcada pelos inumeráveis incidentes fronteiriços, durante os quais a Síria tomou vantagem da sua superioridade topográfica e denteou a linha de fronteira.
O traçado de fronteira tem, como vimos, enormes repercussões nas questões relacionadas com a soberania sobre as águas disponíveis. Ou melhor, a soberania sobre as águas disponíveis tem condicionado o traçado das fronteiras, duradouras e estáveis, entre os países envolventes da Bacia do Rio Jordão.
Destaque:
A soberania sobre as águas disponíveis tem condicionado o traçado das fronteiras, duradouras e estáveis, entre os países envolventes da Bacia do Rio Jordão.
J. Caleia Rodrigues
Diário Económico
Outubro.2001
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Água e petróleo - Conflito no Médio Oriente (Diário económico, Setembro.2001)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 01:05A explosão demográfica aliada à exigência de perpetuação dos altos níveis de vida conseguidos nos países ricos e à pretensão de os atingir, reclamada pelos países pobres, introduziram aberrantes pressões no fornecimento estabilizado e continuado dos recursos naturais à escala mundial. Estas pressões provêm tanto da privação como das dimensões ecológicas do drama populacional, igualmente importantes na nossa concepção do mundo como população global. Todas as análises concluem que a utilização dos recursos naturais aumentaram de forma exponencial, salientando que, em muitas regiões e referido a grande parte dos recursos disponíveis e indispensáveis à manutenção do conjunto humano, está aumentando em ritmo superior ao aumento populacional. Recorde-se que, enquanto a população mundial aumentou três vezes e meia desde 1890, a energia industrial consumida per capita, apesar de desigualmente repartida, aumentou mais de sete vezes durante o mesmo período e a energia total consumida a nível mundial aumentou quase catorze vezes.
De entre os mais importantes recursos, frequentemente negligenciado dado que não se encontra enquadrado entre os classificados como estritamente não-renováveis, encontra-se a água. Apenas 2,53 por cento dos recursos aquíferos totais mundiais é potável e, para mais, a sua maioria encontra-se em gelo permanente (0,86 por cento) ou em glaciares e em neve permanente (68,7 por cento). Desde logo concluímos que, a nível do planeta, apenas podemos dispor de 0,76 por cento da água potável total disponível na ecosfera, seja em rios, lagos, águas no solo e na vegetação e em vapor de água na atmosfera. Tão reduzido recurso é crescentemente solicitado para consumo humano, indústria e produção alimentar, exigindo-se não só a sua disponibilidade mas também em adequada qualidade que permita a sua utilização em alimentação e em serviços de higiene doméstica. Enquanto a desalinização se tem desenvolvido em países que a pode instalar, a qualidade da água potável está sendo ameaçada por um vasto conjunto de poluentes provocados pelos humanos, desde esgotos domésticos a dejectos industriais, passando pelos químicos da indústria mineira e da agricultura.
Muitos dos países em desenvolvimento submetidos ao rápido processo da industrialização, confrontam-se com a panóplia de novos constrangimentos, neste caso devidos à poluição tóxica - eutrofização, metais pesados, acidificação, poluentes orgânicos persistentes - ao mesmo tempo que continuam lutando contra as tradicionais dificuldades resultantes da escassez de água nos seus territórios e da falta de eficazes serviços de saneamento básico. A ameaça representada pela poluição é particularmente séria quando afecta as águas subterrâneas, onde a contaminação é lentamente regenerada e os sistemas de purificação muito onerosos. Porém, exigem-se grandes quantidades de água para o início de novas explorações agrícolas, irrigação de antigos territórios, manutenção dos terrenos em actividade e suporte da “revolução verde” em áreas superpovoadas. Note-se que os peritos na matéria afirmam que são necessários entre 270 e 1.000 litros de água para produzir 5 quilos de cereal e 11.000 a 27.000 litros para produzir 5 quilos de carne. A fabricação de 1 tonelada de aço requer 300.000 litros e 1 automóvel 450.000 litros.
Começa-se, normalmente, por analisar o aumento populacional, mas grande parte dos analistas dão maior significado ao consumo de energia, que denominam de “recurso-mestre”, dado que, dispondo de suficiente energia, todos os outros recursos podem ser extraídos ou obtidos por outros meios, quer por processamento, substituição por outros equivalentes ou mesmo por reciclagem. Aumentar a produção de alimentos ou despoluir o ar e a água, exige o consumo de grande quantidade de energia. O desenvolvimento económico e o aumento do bem-estar nacional estão intimamente ligados à utilização da energia; consequentemente, os países pobres requererão mais energia para atingir os estádios de desenvolvimento desejáveis do que os países considerados desenvolvidos ou industrializados.
Conclui-se que estamos perante a emergência de um ciclo vicioso: a taxa de natalidade tende a reduzir-se e a estabilizar em países economicamente desenvolvidos, ao mesmo tempo que, para que o nível de bem-estar se mantenha, é requerido mais energia e mais água. Por outro lado, em regiões economicamente menos desenvolvidas, o acréscimo de população aumenta a procura que rapidamente absorve a totalidade do adicional de energia e de riqueza conseguidas, consumidas na pura manutenção do nível corrente, exigindo-se, portanto, enormes quantidade de energia para a atingir um acréscimo de desenvolvimento económico e de bem-estar.
O consumo de energia tem vindo a decrescer ligeiramente desde o início da década de 1980, em parte devido a medidas efectivas de conservação (especialmente na Europa e no Japão) mas também consequência do abrandamento do desenvolvimento económico verificado desde então. Dado que este último parâmetro, por razões óbvias, não se eternizará, e conscientes da possibilidade de novos choques petrolíferos em termos de acentuado agravamento dos preços de mercado e da imposição de reduções de fornecimento, será imprescindível encontrar novas fontes e novas vias de conservação de energia.
A delapidação dos recursos globais é, porém, excessivamente desigual. A distribuição dos recursos naturais vitais não é equitativa e razoável. Globalmente, as disponibilidades são abundantes, porém, apresentam-se desigualmente distribuídas desigualmente entre países e povos, mesmo dentro das suas próprias fronteiras políticas, estas raramente coincidentes com as suas fronteiras naturais. Enquanto o aumento do conjunto populacional do mundo economicamente menos desenvolvido induz consumo de recursos é, porém, nos países economicamente desenvolvidos que se verifica maior delapidação. Os actuais padrões de produção e de distribuição vigentes nos países ditos industrializados, muito provavelmente não poderão continuar a ser mantidos por muito mais tempo e a tendência para a imitação por parte dos restantes, irá causar irreparáveis desastres ecológicos.
As estratégias a implementar a curto e a médio prazo obrigarão, inevitavelmente, à vivência de um longo e difícil período de transição. Transformações básicas poderão ter que ser implementadas na utilização dos recursos, aumento da população e substituição dos recursos exauridos, simultaneamente com mudanças a introduzir a nível dos usos e costumes, quer sejam em base individual, de grupo, empresarial, social, regional ou até mesmo a nível global do sistema internacional.
Nesta matéria de evidente importância estratégica, ambas as correntes – realista e globalista – são praticamente concordantes, apesar dos antagonismos que evidenciam relativamente às vias a utilizar e aos objectivos a atingir.
Basta, para tanto, recordar que o realismo considera o Estado como principal e unitário protagonista que, de forma racional, procura maximizar os seus próprios interesses ou objectivos nacionais em política externa, defendendo que as matérias referentes à segurança nacional são as mais importantes, enquanto que para o globalismo, as classes, os Estados, as sociedades e os protagonistas não estatais actuam como parte do sistema económico internacional. Nestes, os factores económicos são os mais importantes, sendo as relações internacionais vistas através da perspectiva histórica, muito especialmente o desenvolvimento contínuo da economia internacional, com objectivos colocados em modelos de domínio, dentro e entre sociedades. Desde logo, a discussão do realismo foca os conceitos de poder e o equilíbrio do poder, enquanto que o globalismo acentua o conceito de dependência no contexto da economia mundial.
O conflito em análise interessa aos defensores da corrente realista na medida em que focam a sua atenção nos actuais ou potenciais conflitos entre Estados-protagonistas, examinando como se mantém, como se quebra ou como se atinge a estabilidade internacional, a utilização da força como meio de resolver as disputas e a prevenção da violação da integridade territorial. Porém, interessa sobremaneira os defensores da corrente globalista, dado que enfatizam a crítica importância dos factores económicos quando se trata de explicar a dinâmica do sistema internacional.
Desta forma, a luta pela água e pelos recursos energéticos no Médio Oriente é seguida com especial atenção, tanto por uns como por outros. Para os realistas porque se trata da segurança e da independência e soberania nacionais, e para os globalistas porque se trata de evidente condicionamento ao desenvolvimento económico.
Caso exemplar surge-nos na actuação de defesa de interesses no Médio Oriente onde não têm sido regateados esforços despendidos por alguns Estados, para garantia de fornecimento de produtos estratégicos e de protecção das suas empresas. Basta atentar que o envolvimento dos Estados Unidos na região do Golfo Pérsico, na tentativa de assegurar “preços razoáveis”, custava, ao Pentágono, entre USD30 e USD60 mil milhões cada ano (dependendo da situação), a título de defesa do Golfo, para protecção e garantia de importações do equivalente a apenas USD30 mil milhões de petróleo bruto. Por simples operação aritmética, deduz-se que, quando os Estados Unidos pagavam USD25 por barril de petróleo, como, aliás, todos os outros países importadores do produto, despendiam, cumulativamente, outro tanto, em defesa (ou mais USD50 se a situação assim o exigisse). Mais recentemente, só o custo estimado da mobilização militar dos Estados Unidos para o Golfo, durante a confrontação com o Iraque, em Novembro de 1998, atingiu os USD1,25 mil milhões.
Já anteriormente, em 23 de Dezembro de 1971, os Estados Unidos tinham assinado com o Bahrein, um Acordo relativo à utilização da Base de Jufair (onde tinham estacionado, desde 1949, uma esquadra com valor militar simbólico), cujas instalações partilhavam, até então, com a Grã-Bretanha, no qual se contemplava que (1) o pessoal americano autorizado a permanecer em terra não podia exceder as 250 pessoas e (2) a esquadra americana disporia do seu próprio centro de telecomunicações e do Aeroporto Internacional de Manama para as suas necessidades logísticas. Este Acordo foi denunciado pelo Bahrein após a Guerra de Outubro de 1973 (Guerra do Yom Kippur) e a presença da esquadra americana terminou em 30 de Junho de 1977. De seguida, em 25 de Agosto de 1977, o Presidente Carter (alterando a estratégia nixoniana da acção indirecta), ordenou a criação de várias unidades ligeiras para eventuais intervenções de comandos no Terceiro Mundo, para, em Abril de 1979, o General Rogers anunciar a existência de um Plano visando a formação de uma “força unilateral” de 100.000 homens, nesta mesma perspectiva.
O Presidente Carter, já tinha declarado perante uma Sessão conjunta do Congresso americano que, qualquer tentativa de força externa, pelo controle da região do Golfo Pérsico, seria vista como ataque aos interesses vitais dos Estados Unidos. A Doutrina Carter explicitava que o Médio Oriente continuava a ser vital para as democracias industriais.
Torna-se claro que as grandes potências têm defendido por todos os meios colocados ao seu alcance, os interesses das suas empresas actuantes neste sector estratégico, reunidas em tão ou mais homogéneo cartel do que o constituído pelos países produtores e exportadores. Pelo seu lado, estes têm tentado rentabilizar o seu produto finito e tirar dele dividendos não só financeiros como políticos.
J. Caleia Rodrigues
Diário Económico
Setembro.2001
Etiquetas: Artigo de Opinião
A retirada israelita da Faixa de Gaza - A quem pertencerá o gás natural? (Diário Económico, Outubro.2004)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 01:02Combustíveis estratégicos
A retirada israelita da Faixa de Gaza – A quem pertencerá o gás natural?
A Faixa de Gaza é constituída por apenas 352 km², dos quais 120 km² são irrigados a partir dos aquíferos próprios, o que permite o rápido desenvolvimento do seu sector agrícola, sobretudo no que se refere à produção de citrinos. Também dispõe de 40 km de costa mediterrânica, predisposta à pesca, desde e quando possa aceder à completa e total soberania das suas águas territoriais. Porém, não é na disponibilidade de recursos desta natureza que reside a interrogação: Quem e por que forma, acederá aos depósitos de gás natural offshore, existentes nessas águas territoriais? A Autoridade palestina ou o Estado de Israel?
Isto porque, o Estado de Israel não dispõe de suficientes recursos energéticos próprios, sendo forçado a depender quase exclusivamente de importações que satisfaçam as suas necessidades energéticas dessa estratégica matéria, indispensável à sua defesa, ao seu desenvolvimento económico sustentado e ao bem-estar da sua peculiar população.
Ao pretender aumentar a sua autonomia, especialmente no que se refere aos combustíveis destinados a produção eléctrica, actualmente dominada por centrais termoeléctricas a carvão, foram considerados diferentes aspectos, donde se destaca a garantia de abastecimento, a manutenção de reservas estratégicas de salvaguarda contra bloqueios de recente memória, capacidade de negociação de preços mais vantajosos, razões de ordem económica de custos e de divisas, e protecção ambiental.
Só no sector constituído pelo gás natural, têm sido apresentadas previsões de evolução de consumo que apontam para a passagem dos 4 bm³ por ano a atingir em 2005, para os 7,6 bm³ em 2015, até chegar aos 11,6 bm³ em 2025.
Uma das possibilidades disponíveis encaradas pelo Governo israelita, consiste na importação de gás do egípcio delta do Nilo e regiões offshore, quer atravessando a península do Sinai, quer via pipeline subaquático percorrendo a costa israelita.
Outra forte possibilidade considerada, surgida nos últimos anos, reside na hipótese de exploração dos seus próprios recursos, a partir dos depósitos de gás offshore recentemente descobertos.
No que se refere a esta segunda e mais desejada possibilidade, a de tentar utilizar recursos próprios, Israel, que tinha iniciado em 1953, a prospecção de recursos petrolíferos no seu território, conseguiu em meados de 1999 e após um esforço constituído por 438 perfurações maioritariamente offshore, a descoberta de 70 bp³ (biliões de pés cúbicos) de gás, além de uma pequena bolsa de 18 mb (milhões de barris) de crude.
As estimativas iniciais apontaram para um total de reservas da ordem dos 3 a 5 tp³ (triliões de pés cúbicos) degás natural.
Apesar de relativamente modestas, mostram-se suficientes para satisfazer a procura israelita durante vários anos, libertado-a da dependênciada da obrigação de recurso às importações e da inerente instabilidade do mercado.
Às quatro reservas descobertas, localizadas a sudeste do sector offshore israelita, deve-se acrescentar a bolsa Or South, de grande dimensão, atravessada pela fronteira das águas territoriais israelitas com as palestinianas da Faixa de Gaza.
Além desta bolsa parcialmente localizada em águas atribuíveis à Autoridade Palestina, foi também aqui encontrada uma outra importante bolsa, a Gaza Marine, com reservas idênticas às encontradas nas águas israelitas. Nesta concessão, em que não participam empresas israelitas, a empresa concessionária associou-se exclusivamente a empresas palestinianas por contrato com duração prevista de 25 anos, considerando que o gás obtido poderá ser transportado por pipeline e entregue no porto israelita de Ashkelon (13 km a Norte da Faixa de Gaza). Esta concessão de extracção, considera a construção da rede de distribuição de gás em território atribuível à Autoridade Palestina. O contrato determina que grande parte do gás extraído, até um máximo de 1,7 bm³ anuais, seja entregue em Ashkelon à IEC, destinado às centrais eléctricas israelitas, tendo em consideração que se trata de centrais do tipo de combustão dual, podendo utilizar, quer carvão como até agora, quer gás natural, como se prevê no futuro.
Por um lado, os grandes depósitos de gás natural estão localizados em águas territoriais da Faixa de Gaza. Por outro, os israelitas procuram, desesperadamente, libertar-se da excessiva dependência do reduzido leque de fornecedores de produtos petrolíferos que lhes limitam os movimentos políticos. Difícil atingir uma plataforma de entendimento que satisfaça ambas as partes em confronto.
Destaque:
Quem acederá aos depósitos de gás natural da Faixa de Gaza?.
J: Caleia Rodrigues
Diário Económico
Outubro.2004
Etiquetas: Artigo de Opinião
quinta-feira, 6 de março de 2008
O contributo do petróleo para a globalização da instabilidade. (Revista "Actualidade", CCILE, Janeiro.2005)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 15:25
Após termos assistido ao lançamento da globalização da economia e até da cultura, parece ter chegado a vez da globalização da instabilidade.
Para tanto, muito tem contribuído o mercado do petróleo bruto.
Saliente-se que o volume médio transaccionado diariamente no mundo atingiu, em 2003, os 45,8 milhões de barris de petróleo bruto, o que corresponde, em valores actuais, a cerca de 1,8 biliões de dólares.
Vernon Smith, Professor Universitário de Economia e Direito na George Mason University, Prémio Nobel 2002, foi particularmente enfático na sua intervenção no Seminário “Iraqi oil revenues” realizado em 22.Jan.2004 no United States Institute of Peace, ao chamar “devil´s lifeblood” às receitas dos países produtores oriundas das suas explorações petrolíferas.
Porém, os consumidores dependentes desta estratégica matéria-prima, essencial ao desenvolvimento da economia e ao bem estar das populações, têm sido incapazes de lidar com a ameaça de descontinuidade prolongada do seu abastecimento, causada por uma qualquer guerra, revolução ou embargo, quando diferentes crises regionais ocorrem em simultâneo.
A desesperada procura de outros pólos abastecedores que prometessem maior garantia de continuidade de abastecimento, deparou-se com enormes constrangimentos em países política e economicamente instáveis, como Nigéria ou Venezuela.
Conseguiu-se reagir, mais ou menos satisfatoriamente, ao embargo que se seguiu à Guerra do Yom Kippur (1973) e consequente primeiro choque petrolífero, e ao segundo choque provocado pela ruptura da indústria iraniana de 1979. Porém, foi a partir de 1991, com a disrupção originada pela Guerra do Golfo, que o mercado mundial se alterou dramaticamente.
Recorde-se que, entre este período e a actual intervenção das forças multinacionais no Iraque, os Estados Unidos despendiam entre 30 e 60 mil milhões de dólares por ano (dependendo da situação), a título de defesa do Golfo, para protecção e garantia de importações do equivalente a apenas 30 mil milhões de dólares de petróleo bruto. Só o custo estimado da mobilização militar dos Estados Unidos para o Golfo, durante a confrontação com o Iraque, em Novembro de 1998, atingiu os USD1,25 mil milhões. Esta situação tornou-se no mais recente caso paradigmático de cooperação entre o poder político-militar e o económico.
Contudo, nem as Reservas Estratégicas, cuidadosamente instaladas após o primeiro choque, nem os esforços diplomáticos desenvolvidos desde então, foram capazes de proporcionar condições mínimas que permitissem lidar com situações colocadas simultaneamente em diferentes arenas e envolvendo diferentes actores, incluindo manobras especulativas, escassez de capacidade de refinação do petróleo bruto, aumento explosivo da procura chinesa ou a persistente insegurança no Médio Oriente.
Destaques:
Após termos assistido ao lançamento da globalização da economia e até da cultura, parece ter chegado a vez da globalização da instabilidade.
J. Caleia Rodrigues
Revista Actualidade (CCILE)
Janeiro.2005
Etiquetas: Artigo de Opinião
China: O maior actor energético na cena internacional, (Revista "Actualidade", CCILE, Setembro/Outubro.2004)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 15:20
Com os seus 1.300 milhões de habitantes e um explosivo crescimento económico, a China tornou-se no segundo maior importador e consumidor mundial de petróleo, logo a seguir aos Estados Unidos.
Ao atingir este patamar de consumo, teve que envidar os maiores esforços no sentido de encontrar novos fornecedores no mercado externo que lhe consigam assegurar a manutenção do ritmo evolutivo da sua economia que se expandiu à exorbitante taxa anual de 9,7 por cento no primeiro semestre do corrente ano.
O consumo de petróleo na China entrou, de facto, numa espiral de crescimento e a escassez deste produto converteu-se na maior barreira à continuidade do seu desenvolvimento económico. Os responsáveis chineses têm anunciado que temem que o seu saldo negativo em petróleo bruto possa vir a atingir os 250 milhões de toneladas anuais em 2020, dado que produção interna não poderá garantir mais que os 44 por cento da procura interna perspectivada.
Relembre-se que o seu consumo de petróleo atingiu as 252,3 mm tons em 2003, correspondente ao valor médio diário de cerca de 5,1 milhões de barris. Porém, o que se torna preocupante para o mercado petrolífero global é que se espera que chegue a atingir um consumo de 6,19 milhões de barris/dia ainda este ano, dos quais cerca de um terço será importado, de acordo com as projecções da US International Energy Agency.
Este inusitado aumento de consumo obrigou a um consequente aumento das importações, que se espera, de acordo com os dados fornecidos pelo Ministro do Comércio da China, irão atingir as 110 mm tons ainda este ano, correspondendo a um aumento superior aos 21 po cento, em relação ao ano passado. O valor das importações de petróleo, realizadas em 2003, cifrou-se em 91,12 mm tons, avaliadas em USD 5,86 biliões.
Neste particular, a Rússia surge como o quarto maior fornecedor de petróleo à China, apenas antecedida pelo Irão, Arábia Saudita e Omã, seus grandes parceiros nesta estratégica matéria.
A posição russa neste leque de fornecedores deve vir a tornar-se ainda mais importante, dado que existe a intenção de instalar um novo oleoduto sino-russo, a partir da Sibéria Oriental, direccionado a Nakhodka, contemplando uma derivação capaz de transportar 30 mm tons anualmente para a chinesa Daging e 50 mm tons para o porto marítimo de Perevoznaya.
Além dos importantes acordos estabelecidos com a Arábia Saudita e com o Irão, a petrolífera chinesa Sinopec (China Petroleum & Chemical Corporation) assegurou nova joint-venture, no passado mês de Março, com a saudita Aramco, para exploração de um bloco de 23.612 milhas quadradas, garantindo a obtenção de mais 2.800 barris diários a partir dos cinco furos contratados.
Na sua procura de novos fornecedores, a China assinou, recentemente, acordos com o Kazaquistão (novo oleoduto com 914 km de extensão), com a Síria (novo campo petrolífero), com o Turquemenistão (reconstrução de poços petrolíferos) e com o Kyrgistão (desenvolvimento de campos petrolíferos a grandes profundidades).
De salientar o acordo de partenariato estabelecido, no passado mês de Junho, entre a chinesa Sinopec e a brasileira Petrobras, para e exploração de campos petrolíferos em território chinês, dando início a um significativo estreitamento das relações políticas e económicas entre os dois países. Deste modo, a Sinopec torna-se na primeira empresa asiática a assinar um acordo com a Petrobras, garantindo, pelo seu lado, o investimento de USD 5 biliões em infraestruturas e logística do sector energético brasileiro.
Porém, será a implementação do oleoduto sino-russo que tem vindo a ser negociado desde há anos, que se irá tornar em mais do que um símbolo entre os dois países, dado que pode jogar um duplo e importante papel: proporcionar à China o lançamento da sua base industrial no nordeste e permitir à Rússia o desenvolvimento da sua região mais oriental. Esta via tem-se debatido com a reacção de vários quadrantes políticos russos que não vêm com bons olhos o futuro do poder e do crescimento económico deste seu vizinho e com a concorrência do dependente Japão que tem envidado os maiores esforços na obtenção de um oleoduto alternativo a partir da mesma região russa, apresentando completa disponibilidade para investimento e financiamento dos campos petrolíferos da Sibéria oriental, qualquer coisa como 7,54 biliões de dólares.
Destaques:
Com os seus 1.300 milhões de habitantes e um explosivo crescimento económico, a China tornou-se no segundo maior importador e consumidor mundial de petróleo.
O consumo de petróleo na China entrou numa espiral de crescimento e a escassês deste produto converteu-se na maior barreira à continuidade do seu desenvolvimento económico.
Porém, o que se torna preocupante para o mercado petrolífero global, é que se espera que a China chegue a atingir um consumo de 6,19 milhões de barris/dia ainda este ano, dos quais cerca de um terço será importado.
J. Caleia Rodrigues
Revista Actualidade (CCILE)
Setembro/Outubro.2004
Etiquetas: Artigo de Opinião
Combustíveis: A dependência da União Europeia. (Revista "Actualidade", CCILE, Julho/Agosto.2004)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 15:16
Comecemos por sublinhar que a União Europeia, dispondo apenas de 6,5 por cento da população mundial, produz mais de 25 por cento do PIB total mundial e assegura 35,5 por cento das exportações e 34 por cento das importações registadas à escala mundial.
Contudo, é por demais conhecida a sua dependência no que se refere a combustíveis. O consumo do conjunto dos países-membros da União Europeia ultrapassa largamente a produção, dado que consomem 5 vezes mais petróleo do que produzem, o dobro do gás natural e 1,8 vezes mais carvão.
Ver Quadro 1
Podem considerar-se excepções, a confortável situação do Reino Unido e da Dinamarca, excedentários, quer em petróleo bruto quer em gás natural, e a recém-chegada Polónia com o seu carvão.
Ressalve-se que o problema não está na produção ou em dificuldades tecnológicas ou financeiras, como em tantos outros casos. As reservas comprovadas da União Europeia são escassas, correspondendo apenas a 0,5 por cento das totais mundiais em petróleo bruto, a 1,7 de gás natural e a 9,5 de carvão.
O “European Energy and Transport Trends to 2030” (Jan. 2003) é categórico ao afirmar que a produção atingirá o seu máximo cerca do ano 2005, a partir do qual a produção irá decrescer, sobretudo à escala dos combustíveis fósseis (especialmente carvão e petróleo e o gás do Mar do Norte) e do progressivo abandono da utilização da energia nuclear. Este declínio não será compensado pela rápida expansão da produção de energias renováveis, apesar destas se irem tornar na segunda maior fonte própria, logo a seguir ao nuclear, cerca do ano 2030.
Assim, e de acordo com o estudo em referência, as importações de combustíveis fósseis irão aumentar cerca de 2/3 entre 2000 e 2030, assumindo as importações de gás natural a grande responsabilidade do aumento. No que se refere ao petróleo, prevê-se o aumento de ¼ no decurso do mesmo período.
Em consequência, a conjugação do aumento da procura com o decréscimo da produção própria aumentará a dependência da importação de energia que poderá passar dos 50 por cento atingidos no ano 2000, para os 68 por cento em 2030. Nesta situação, a dependência do petróleo importado irá aumentar dos 75 por cento registados no ano 2000, para os 90 por cento em 2030. No que se refere ao gás natural e aos combustíveis sólidos, a dependência aumentará ainda mais rapidamente, a partir dos 45 por cento em gás natural e dos 50 por cento em combustíveis sólidos, até atingir os 80 por cento em 2030.
Ver Qadro 2
A recente adesão da Polónia à União melhorou ligeiramente a situação de dependência em que esta se encontra, dado que é detentora de consideráveis reservas comprovadas de carvão, na ordem dos 22 biliões de toneladas equivalentes de petróleo (2,25 por cento do total mundial) e, actualmente, produtora de 70 milhões de toneladas anuais.
A Comissão da União Europeia, ao fazer o ponto da situação em matéria de política energética e dos instrumentos disponíveis para aplicação desta política, já tinha salientado, em comunicado datado de 23 de Abril de 1997, os desafios estratégicos a que a União deveria fazer face, nomeadamente "garantir a segurança de abastecimento energético gerindo a crescente dependência externa da União neste sector".
Nesta linha de orientação, o relatório final sobre o “Livro Verde”, publicado pela Comissão das Comunidades Europeias em 26 de Junho de 2002, e intitulado “Para uma estratégia europeia de segurança do aprovisionamento energético”, enfatizou a necessidade de encontrar uma fonte externa diversificada de fornecimento de energia que garantisse um fluxo ininterrupto de gás.
No “Livro Verde” propõe-se uma estratégia clara, centrada no controlo da procura. O Livro tem o mérito de sublinhar que a margem de manobra da União, no que respeita à oferta de energia, é muito limitada, sobretudo devido à escassez de recursos próprios. “Convém, pois, agir no campo da procura (inflecti-la e orientá-la), contrariamente aos Estados Unidos, que, no seu plano energético, anunciado em Maio de 2001, pretendem responder à procura através de uma maior oferta”, pode ler-se no Relatório.
Nesta linha de preocupações, a Comissão decidiu considerar as interligações da rede de gás natural existentes, Turquia-Grécia e Grécia-Itália, como projecto prioritário da rede “Países do Mar Cáspio - Médio Oriente - União Europeia”.
Deste modo, a União Europeia pretendeu garantir a segurança de abastecimento de produtos energéticos através de projectos de cooperação a estabelecer com as três maiores artérias e da criação de uma nova rota que passa pela Turquia, por interligação com as redes de gás natural turca e grega. Nesta perspectiva, o projecto do Corredor energético Este-Oeste, concebido para permitir transportar os recursos do Cáucaso e da Ásia Central para os mercados ocidentais, pode vir a constituir uma rota alternativa que aumente a segurança e garanta continuidade do abastecimento. O projecto foi desenvolvido tendo em atenção a descoberta das formações localizadas na região euro-asiática, baseando-se, fundamentalmente, na instalação dos pipelines de petróleo e de gás nas rotas transcáspicas e transcaucasianas, constituídas pelo oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC), pelo gasoduto sul-caucasiano Baku-Tbilisi-Erzurum (BTE) e pelo projectado gasoduto Turquemenistão-Turquia-Europa. (ver “Actualidad” Nº 82, Maio-Junho2004)
Mais recentemente, a Vice-Presidente da Comissão Europeia e Comissária de Transportes e Energia, Loyola de Palacio, denunciou que, a exagerada dependência externa da União Europeia em hidrocarbonetos, constitui um considerável risco para as economias europeias.
A nova abordagem proposta no “Livro Verde” em relação às reservas de petróleo, suscitou igualmente um amplo debate. A proposta do “Livro Verde”, a favor de reservas estratégicas de petróleo, teve por objectivo garantir uma maior solidariedade entre os Estados-membros em tempo de crise. As incertezas geopolíticas e a volatilidade dos preços do petróleo obrigam a uma melhor organização das reservas e à coordenação da sua utilização. Do mesmo modo, foi discutida a necessidade de constituir reservas estratégicas de gás.
Tendo em consideração a garantia de abastecimento exigível para esta estratégica matéria, a Comissão Europeia adoptou, em 12.Setembro.2002, duas propostas de directiva para que os Quinze realizem uma gestão comum das reservas estratégicas de petróleo e de gás e para equipararem os stocks do crude em todos os Estados Membros, alargando a capacidade de auto-suficiência para o consumo de 90 a 120 dias (a média europeia actual é de 114 dias), equivalente à exigência de uma reserva global de cerca de 1.600 milhões de barris (quase o triplo da existente nos Estados Unidos). A elaboração das propostas começou após a crise de Setembro 2000, quando a cotação do barril atingiu os 34 dólares. A nova escalada de preços e a previsível campanha militar dos Estados Unidos no Iraque, aceleraram a apresentação das duas propostas.
Portugal contribuiu, de forma muito significativa, para o reforço das reservas estratégicas, ao decidir implementar o projecto que disponibilizou em Sines a mais moderna e inovadora tecnologia existente na Península Ibérica para armazenagem de gás natural (LPG): cavernas subterrâneas, cavadas na rocha a grande profundidade.
A caverna para armazenamento de propano foi construída no local logisticamente ideal: exactamente junto do trajecto do pipeway entre o Porto de Sines e a refinaria. Fisicamente as cavidades configuram-se como três galerias paralelas interligadas entre si em dois pontos distintos, cada uma delas com comprimentos da ordem dos 160 metros, e secções médias de 163 m². A sua capacidade total útil de armazenagem é de cerca de 84.000 m³, correspondente a cerca de 40 esferas da maior dimensão autorizada para armazenamento deste produto pela via tradicional. Todo o equipamento está instalado num poço vertical de 164 metros (130 metros abaixo do nível do mar), contando com um túnel de cerca de 1 km de extensão em espiral a partir da superfície com uma inclinação máxima de 15%, que permite atingir a cota da caverna.
Destaques:
“O consumo do conjunto dos países-membros da União Europeia ultrapassa largamente a produção, dado que consomem 5 vezes mais petróleo do que produzem, o dobro do gás natural e 1,8 vezes mais carvão.”
“A exagerada dependência externa da União Europeia em hidrocarbonetos constitui um considerável risco para as economias europeias.”
“As incertezas geopolíticas e a volatilidade dos preços do petróleo obrigam a uma melhor organização das reservas estratégicas e à coordenação da sua utilização.”
“Portugal contribuiu, de forma muito significativa, para o reforço das reservas estratégicas da União.”
J. Caleia Rodrigues
Revista Actualidade (CCILE)
Julho/Agosto.2004
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Petróleo: Donde vem, para onde vai. (Revista "Actualidade", CCILE, Maio/Junho.2004)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 15:11
É indiscutível que o petróleo assumiu a posição de matéria-prima essencial ao desenvolvimento económico das nações e ao bem-estar das populações, nomeadamente em países que basearam o desenvolvimento da sua economia numa produção industrial exigente de grandes recursos energéticos, dado que a descontinuidade da sua obtenção tem demonstrado provocar crises políticas e sociais de muito difícil contorno, ameaçadoras da segurança social, chegando a poder atingir a própria soberania das nações,
Os analistas do sector têm salientado que, após o 11 de Setembro, assistiu-se a uma crescente preocupação acerca da dependência dos fornecimentos oriundos do Médio Oriente, nomeadamente da Arábia Saudita, grande pilar do mercado mundial, responsável por cerca de 20 por cento do volume total transaccionado.
A estabilidade saudita tem sido conseguida à custa da forte liderança do Rei Fahd bin Abdul Aziz que, ao herdar de seu pai Saud ibn Abdul Aziz (que proclamou o Reino da Arábia Saudita em 1932) a liderança religiosa (anteriormente em mãos da família hashemita de Meca que entregou o poder aos otomanos que por sua vez o entregou ao Rei saudita Faisal), também herdou o poder económico radicado na gestão dos contratos petrolíferos dos seus quase 300 biliões de barris de petróleo de reservas comprovadas e da exportação de mais de 9 milhões de barris diários que, por seu turno, lhe asseguram a liderança incontestada da OPEP.
Este encadeado poder, obriga a reflectir nas hipóteses de sucessão dessa musculada liderança, a exigir fundamentalmente estabilidade política na região que garanta e assegure a continuidade de fornecimento aos consumidores dependentes.
Nesta vertente, verifica-se o enorme e ainda não suficientemente discutido risco para a segurança energética global, económico e geopolítico, da profunda dependência asiática do petróleo do Médio Oriente e da sua vulnerabilidade a qualquer descontinuidade de abastecimento.
Actuando num mercado global petrolífero, o surgimento de uma escassez numa dada região, pode conduzir a um pico de preços generalizado e evidenciar a existência de uma bolha na estratégia da segurança energética, polarizado na Ásia.
A região Ásia-Pacífico, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos ou na Europa, importa quase todo o seu contingente petrolífero do Médio Oriente. Dado que os países da região Ásia-Pacífico não dispõem de sistema de resposta colectiva nem de reservas estratégicas suficientes, em caso da ocorrência de interrupção de fornecimento, quer motivada por guerra, por embargo ou mesmo consequente de alteração política a ocorrer no Médio Oriente, os Estados Unidos e a International Energy Agency (IEA) terão que gerir a crise dentro das suas capacidades e disponibilidades.
Na ocorrência de uma situação de crise, grande parte de países consumidores que não disponham de reservas estratégicas, como a China ou a Índia, terão que competir no mercado mundial, pagando um prémio demasiado elevado, por escassos fornecimentos ou assumir a incapacidade de obter suficientes produtos petrolíferos indispensáveis aos seus consumidores. Perante o quadro de uma séria interrupção de fornecimento, as economias da região Ásia-Pacífico poderão sofrer um impacto de enormes proporções. Para colmatar tal situação, os recursos disponíveis teriam que ser partilhados com os países dessa região (excluindo o Japão e a Coreia que já são membros da IEA), assumindo todas as consequências que adviessem da medida adoptada.
Os Estados Unidos começaram a considerar a necessidade de uma reserva nacional de petróleo há mais de cinco décadas, mais precisamente logo após o fim da Segunda Grande Guerra Mundial.
Se bem que os Estados Unidos tenham dado um importante passo no sentido de aumentar a sua segurança na área dos recursos energéticos, com a implementação da Stategic Petroleum Reserve (SPR), garantida inteiramente à custa dos seus próprios recursos, a medida não se afigura suficiente para garantir uma interrupção de longa duração, um importante choque de preços ou uma alta falha no mercado.
A decisão foi tomada pelo Presidente Gerald Ford, no período que se seguiu ao embargo de 1973-74, com a assinatura do “Energy Policy and Conservation Act” em Dezembro de 1975, que estabeleceu a “Strategic Petroleum Reserve”. A legislação declara ser política dos Estados Unidos, estabelecer uma reserva até ao limite máximo de 1 bilião de barris de petróleo bruto.
O Golfo do México foi o local escolhido para o armazenamento da reserva, dado que é nessa área, ao longo da Costa, que se encontram situados mais de 500 bancos profundos de sal de mina e localizadas grande parte das refinarias, pipelines e pontos de carga de tanqueiros. O Governo dos Estados Unidos adquiriu cerca de 50 cavernas de sal existentes na zona, a maioria das quais nas Costas do Texas e da Louisiana, destinadas a esse armazenamento estratégico.
Actualmente, a “Strategic Petroleum Reserve” dos Estados Unidos, com uma capacidade declarada de armazenamento de 700 milhões de barris de petróleo bruto, contêm 571 milhões de barris, dizendo-se constituir a maior reserva do mundo, avaliada em mais de USD20 biliões.
Na região em que nos encontramos e tendo em consideração a garantia exigível para esta estratégica matéria, a Comissão Europeia adoptou, em 12 de Setembro de 2002, duas propostas de directiva para que os Quinze realizassem uma gestão comum das reservas estratégicas de petróleo e de gás e para que equiparassem os stocks de crude em todos os Estados Membros, alargando a capacidade de auto-suficiência para o consumo de 90 a 120 dias (a média europeia é de 114 dias), equivalente à exigência de uma reserva global de cerca de 1.600 milhões de barris (quase o triplo da existente nos Estados Unidos).
Tão importante ou mais do que as reservas estratégicas, foi a capilaridade que se foi desenvolvendo no mercado, que actualmente disponibiliza novos abastecimentos oriundos de diversas regiões, assegurando um leque de opções que tornou o mercado mais seguro e credível. E sobretudo aliviador do pesadelo que se viveu em várias ocasiões de boicote.
Veja-se a instalação do Corredor energético Este-Oeste, concebido para permitir transportar os imensos recursos disponíveis no Cáucaso e na Ásia Central para os mercados ocidentais. Neste caso, a garantia de abastecimento vai assentar nos pipelines de petróleo e de gás das rotas trans-cáspicas e trans-caucasianas, oriundas de Bakú e do Turquemenistao, atravessando a Turquia e a descarregar no mediterrâneo.
A Rússia que já está competindo com a Arábia Saudita pela liderança de abastecimento do mercado à escala mundial, anunciou a pretensão de instalar alternativas a esta rota. A recente descoberta de importante campo petrolífero na margem ocidental dos Urais, contendo reservas estimadas em cerca de 40 biliões de barris de petróleo bruto, permite-lhe abastecer, tanto o Ocidente como o Extremo Oriente. Os responsáveis pelo projecto, pretendem produzir a partir deste campo, cerca de 450.000 barris diários, passando a desempenhar o papel de grande exportador, dado que dispõe de boas vias de escoamento e de exportação, a partir de portos que podem atingir fácil, rápida e seguramente os mercados ocidentais.
Também o Kasaquistão pretende aumentar a sua capacidade produtiva até aos 3 milhões de barris diários num período não superior a 15 anos, de forma a posicionar-se entre os três maiores exportadores mundiais. Para tanto, tem em curso o projecto de ampliação do oleoduto de 1.510 km que acaba de inaugurar para obter um acesso economicamente rentável aos mercados consumidores das regiões da Ásia e do Pacífico, via Golfo Pérsico.
Outro importante polo alternativo é o constituído pela Venezuela que tem desempenhado um indiscutível papel no mercado energético mundial, logo na geopolítica do petróleo, graças às reservas de hidrocarbonetos detectadas, que atingem os 77,8 biliões de barris de petróleo e os 147,6 triliões de pés cúbicos de gás natural. Estes números verdadeiramente impressionantes, colocam a Venezuela em 6º e 7º lugares à escala mundial, relativamente a reservas comprovadas de petróleo e de gás natural.
Note-se que, de acordo com dados divulgados pela empresa venezuelana do sector petrolífero, as regiões Oriental e de Maracaibo concentram 60 por cento do total de hidrocarbonetos do planeta, atingindo o valor estimado de 221 biliões de barris de petróleo bruto, entre as quantidades estimadas de leve, pesado e extra-pesado.
Porém, o levantamento dos depósitos mundiais comprovados e disponíveis para colocação no mercado internacional, têm sido omissos no que se refere aos depósitos de betuminosos, posto que são considerados hidrocarbonetos não-petróleo. Este facto tem beneficiado a Venezuela dado que não os incluiu na quota de petróleo admitida pela OPEP.
Logo, os 1,2 triliões de barris de petróleo bruto extra-pesado e de betumes estimados disponíveis na Faixa do Orinoco (correspondentes a 42 biliões de toneladas métricas), podem ser explorados comercialmente e exportados emulsionados. O produto acabado, que representa uma alternativa ambiental e económica, consiste numa mistura de, aproximadamente, 70% de betume natural e 30% de água, a que são agregados aditivos não enxofrantes, para estabilizar a emulsão. Este combustível é particularmente adequado a empresas eléctricas e industriais, nomeadamente cimentarias.
Ver Quadro 1
Noutro continente e de acordo com o relatório do US National Security Committee, verifica-se que os países africanos ao sul do Sahara já são responsáveis por 16 por cento das importações americanas de petróleo, esperando-se que possam vir a atingir os 25 por cento em 2015, graças às descobertas off-shore na África Ocidental e à construção do oleoduto que ligará o sul do Tchad aos portos atlânticos.
Dos 8 biliões de barris de reservas provadas, descobertas durante o ano 2001, cerca de 7 biliões estão localizados no Golfo da Guiné, dos quais 4 biliões em águas territoriais partilhadas entre São Tomé e a Nigéria.. Neste mesmo ano, a região atingiu a produção de 4,5 milhões de barris/dia. Lembre-se que a Rússia está a produzir actualmente 7,6 milhões de barris/dia e a Arábia Saudita um pouco mais de 9 milhões.
O petróleo africano apresenta a vantagem acrescida da maior facilidade de transporte, (apenas a um dia de viagem dos Estados Unidos) em relação ao do Golfo Pérsico ou ao do Mar Cáspio. Ademais, o petróleo do Golfo da Guiné contem baixo teor de enxofre e parece muito fácil de converter em combustível para motores de explosão.
De acordo com a Petroleum Finance Company, espera-se que a Nigéria venha a aumentar a sua produção até atingir, em 2007, os 3 milhões de barris/dia, enquanto Angola projecta duplicar até atingir os 2 milhões e o Tchad poderá atingir os 225.000 b/d, quando o oleoduto que atravessa os Camarões estiver concluído em 2004 (custo estimado em USD 3,5 biliões). A produção da Guiné Equatorial também poderá duplicar nos próximos três anos, até atingir os 350.000 b/d.
Ver Quadro 2
Não há sombra de dúvida que a crescente necessidade de recursos energéticos para satisfação do desenvolvimento económico sustentado, continuará a exigir os maiores esforços para a sua regular obtenção.
As regiões industrializadas, nomeadamente os Estados Unidos, a Europa Ocidental e o Japão, encontram-se na posição de dependência da importação desta estratégica matéria, só suficientemente disponível em regiões não industrializadas ou em vias de desenvolvimento industrial, como seja o Médio Oriente, a Rússia Oriental, a África Ocidental ou Setentrional, ou mesmo o norte da América Latina.
Não esquecendo que a China, com os seus 25 por cento da população mundial e uma das maiores taxas de desenvolvimento económico conseguido nos últimos anos, apesar dos seus importantes recursos próprios em gás natural, também depende das importações de petróleo bruto para a continuidade do desenvolvimento.
J. Caleia Rodrigues
Revista Actualidade (CCILE)
Maio/Junho.2004
Etiquetas: Artigo de Opinião
Petróleo: Liderança russa em vários tabuleiros (Revista "Actualidade", CCILE, Março/Abril.2004)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 15:08Petróleo
Liderança russa em vários tabuleiros
A Rússia que já detém a liderança do mercado do gás natural, com os seus 578 biliões de metros cúbicos produzidos no passado ano de 2003 (dos quais exporta mais de 128 biliões de metros cúbicos), o que corresponde a cerca de 22 por cento do total mundial transaccionado, está em vias de conseguir idêntica posição no mercado do petróleo bruto.
Com uma produção média de 8,5 milhões de barris diários alcançada durante o ano de 2003, admite-se que possa vir a atingir, a muito curto prazo, valores cerca dos 10 milhões de barris diários, passando a dominar o mercado mundial. Este previsível desvio do eixo de poder, alterará substancialmente todo o espectro geopolítico que se tem vivido desde o primeiro choque petrolífero que se seguiu à Guera do Yom Kippur.
Após ter estabilizado a sua quota no mercado ocidental, ao igualar o volume das exportações sauditas, concentrou os seus objectivos nos ávidos mercados do Sudeste Asiático.
Estes mercados, nomeadamente o Japão e a China, segundo e terceiro maiores consumidores à escala mundial e fortemente dependentes dos fornecimentos do politicamente instável Médio Oriente, estão na mira dos maiores exportadores mundiais.
Ambos os países debatem-se com forte carência energética, mercê de recursos próprios incapazes de satisfazer as taxas de desenvolvimento económico pretendido, com um passado recente de busca de recursos energéticos que, inclusivamente, já os arrastaram para conflitos de grandes proporções.
Na tentativa de diversificação de fornecedores que lhes possam garantir estabilidade de abastecimento, encontram-se em aberta concorrência à instalação de oleodutos que lhes permitam acesso aos vastos campos petrolíferos da Sibéria Oriental, cujos depósitos estão avaliados em mais de 10 biliões de barris, dos quais se pode vir a extrair um mínimo de 1 milhão de barris diários. Saliente-se que, de acordo com as estimativas anunciadas pelas empresas petroleiras russas, as reservas ainda não provadas da Bacia Siberiana Ocidental ascendem a mais de 170 biliões de barris.
O Governo russo, pelo seu lado, tem manifestado a opinião de que o oleoduto de exportação do petróleo da Sibéria Oriental deve ser dirigido, inicialmente ao Daqing chinês, mantendo em consideração que a sua extensão até ao Porto do Extremo Oriente russo de Nakhodka dependerá, essencialmente, da prospecção e exploração das regiões siberianas e do Extremo Oriente.
Aparentemente, foi tomada a decisão da construção da “Linha Angarsk-Daqing”. A menos que surja mais algum acidente de percurso que possa vir a alterar a decisão, espera-se que os 2.400 km de oleoduto transnacional entre Angarsk (região russa de Irkutsk) a oeste do Lago Baykal e a Daking chinesa, possam vir a ter rápido e imediato início.
Se por um lado, a concretização dos contratos e Acordos estabelecidos e a estabelecer entre a Rússia e a China e o Japão e, eventualmente entre a Rússia e a Índia e o Paquistão, vai colocar a Rússia numa posição de forte e incontestável liderança do mercado abastecedor de petróleo, por outro, vai proporcionar a estes mercados consumidores/importadores todos os ingredientes necessários e suficientes para a continuidade sustentada do seu desenvolvimento económico. Muito especialmente à China, que continua a apresentar taxas de crescimento notáveis e ímpares à escala mundial. Situação a cair na esfera política, muito provavelmente capaz da introdução de grandes alterações ao nível da balança de poder.
Destaques:
A Rússia encontra-se em vias de assumir a liderança do mercado mundial do petróleo.
Este previsível desvio do eixo de poder, alterará substancialmente todo o espectro geopolítico que se tem vivido desde o primeiro choque petrolífero que se seguiu à Guera do Yom Kippur.
Situação a cair na esfera política, muito provavelmente capaz da introdução de grandes alterações ao nível da balança de poder.
J. Caleia Rodrigues
Revista Actualidade (CCILE)
Março/Abril.2004
Etiquetas: Artigo de Opinião
segunda-feira, 3 de março de 2008
Petróleo. Que futuro? (Revista Actualidade - CCILE - Fevereiro de 2008)
Publicada por José Caleia Rodrigues à(s) 18:22Petróleo. Futuro negro?
O equilíbrio entre a oferta e a procura de petróleo há muito que foi comprometido. Os dias do petróleo barato pertencem ao passado. As jazidas disponíveis são, na maioria, de difícil acesso, ou seja, de cara extracção. Más notícias, tendo em conta que o petróleo é o principal combustível consumido e a procura ameaça não abrandar.
Ao contrário dos choques petrolíferos de 73 e de 79/80, o actual veio para ficar… Como vão as petrolíferas ibéricas reagir perante esta conjuntura?
O consumo mundial de energia irá aumentar em média, anualmente, cerca de 1,8% até 2020, de acordo com a Energy Information Administration (EIA). Actualmente o petróleo corresponde a uma fatia de 37% da energia primária consumida, acima do carvão e do gás natural. A subida do preço e a incerteza quanto à disponibilidade do petróleo colocam-no topo das preocupações políticas e económicas. Suspeitamos que nada será como dantes no que se refere ao ouro negro…
“A propósito do preço futuro do petróleo a única certeza que temos é a incerteza”, declara Agostinho Pereira de Miranda, da sociedade de advogados Miranda Correia Amendoeira & Associados, especialistas no sector petrolífero. Essa incerteza existe desde que o petróleo foi descoberto, há mais de 150 anos. “Nas últimas décadas o preço do crude tem sido o mais volátil dos preços das várias commodities”, salienta o advogado, acrescentando que actualmente “há factores estruturais que apontam claramente para uma curva de subida contínua no médio e longo prazo”.
Ainda que o preço do petróleo possa baixar ligeiramente, um recuo acentuado é pouco provável, aponta António Costa Silva, administrador da Partex, a petrolífera do grupo Gulbenkian: “É provável que com os indícios que se acumulam de uma possível recessão nos EUA e uma desaceleração no crescimento económico global, a procura de petróleo venha a sofrer uma redução e os preços caiam para o patamar dos 80, 85 dólares por barril, no primeiro semestre de 2008. A queda dos preços não será drástica, nem assistiremos a um recuo considerável porque os fundamentos económicos continuam a favorecer a existência de preços altos.” Como explica Costa Silva, “no curto prazo temos a situação dos ‘stocks’ de reservas estratégicas dos países ocidentais que estão a um nível muito baixo, o mais baixo dos últimos quatro anos” e “no médio e longo prazo há que considerar que a economia mundial é hoje muito diferente da dos anos 70”, ou seja, “uma recessão hoje tenderá a ser mais curta e a procura de petróleo voltará inevitavelmente a subir, induzida pelo desenvolvimento económico dos países emergentes”
Agostinho Miranda também não exclui o cenário de redução do preço do petróleo, face a uma recessão, mas frisa que “a capacidade excedentária dos países produtores é tão pequena que bastará um incidente político ou militar grave para o preço disparar para valores superiores a 100 dólares”
A frágil capacidade de resposta da oferta
José Caleia Rodrigues, autor do livro “Geopolítica do Petróleo”, considera que “a verdadeira ameaça não reside na subida dos preços, mas na segurança dos abastecimentos”. O especialista recorda que “a oferta praticamente estabilizou nos dois últimos anos”, já que “os grandes exportadores entregaram menos petróleo, mas foram compensados pelos pequenos”. As reservas declaradas de petróleo garantem a satisfação do consumo nos próximos 35 anos. Caleia Rodrigues ressalva que “ainda há muito petróleo por descobrir, mas aceder a ele será muito mais caro do que tem sido até agora”. Porquê? “Porque os dias do petróleo leve (em estado líquido na natureza, o correspondente a um terço do petróleo existente) estão prestes a chegar ao fim”. Alcançar as bolsas de petróleo pesado é mais difícil, exige uma tecnologia mais avançada, logo o processo é mais lento e mais dispendioso. Caleia Rodrigues assinala que “o investimento na extracção não acompanhou a intensificação do consumo massificado de petróleo”, o que explica a escalada dos preços. Por outro lado, as refinarias também não têm capacidade para acomodar mais petróleo, alerta: “O sector da refinação dispõe actualmente de uma margem mínima de capacidade para acomodar mais aumentos de produto a entregar no mercado. Estamos a atingir uma saturação.” Como “não há grande capacidade de aumentar a extracção e as novas extracções serão menos rentáveis, no curto prazo haverá dificuldades de abastecimento”, conclui Caleia Rodrigues.
A barreira do petro-nacionalismo
A somar a tudo isto estão as condicionantes políticas, já que o sector petrolífero está cada vez mais politizado. Agostinho Miranda observa que “no seu conjunto as petrolíferas internacionais estão a perder capacidade líquida de produção todos os dias”. Em contrapartida, “as grandes petrolíferas estatais estão gradualmente a tornar-se as verdadeiras senhoras do mercado”. O advogado sublinha que “esta transferência de poder comporta riscos muito significativos porque as estatais obedecem em geral a lógicas de cariz político”. Este “petro-nacionalismo” dos países produtores está em plena ascensão e poderá ser mesmo o maior entrave do sector, já que “dentro de 15 anos os países desenvolvidos poderão dispor de apenas 20% das reservas mundiais de petróleo convencional”, realça Agostinho Miranda.
Hoje o petróleo é das nacionais e não das internacionais, o que poderá dificultar a vida a petrolíferas que têm actividade de extracção em países como a Venezuela, nota Caleia Rodrigues, lembrando o caso da Repsol e de todas as petrolíferas que estão a investir na faixa do Orinoco (Venezuela), tida como uma das principais zonas de petróleo pesado.
Perante esta conjuntura, saber se as petrolíferas terão capacidade para satisfazer a crescente procura é a questão. O último relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) avançava que os países produtores ver-se-ão impossibilitados de satisfazer a procura dentro de três a cinco anos. António Costa Silva corrobora o parecer da AIE: “O período de ouro das ‘sete irmãs’ que comandavam o mercado petrolífero passou. As grandes companhias internacionais ocidentais (as chamadas IOC’s) têm hoje um acesso muito limitado (cerca de 7%) às reservas de petróleo e todos os anos a sua produção diminui. A maioria das reservas mundiais de petróleo (cerca de 80%) estão hoje nas mãos das companhias nacionais dos países produtores (as chamadas NOC’s) e com o crescimento do nacionalismo dos recursos em diferentes países, desde a Venezuela e Equador à Argélia, Rússia e Irão, somado ao facto de alguns dos grandes produtores mundiais como a Arábia Saudita e o México nem sequer permitirem investimento estrangeiro na sua indústria petrolífera, o que temos é uma situação de grande incerteza porque alguns destes países podem usar o petróleo como arma geopolítica a exemplo do que já fizeram no passado. Por todas estas razões a resposta para satisfazer a procura mundial será cada vez mais difícil se essa procura subir exponencialmente.” Como a oferta ameaça ser inferior à procura, importa “discutirmos não só o problema da oferta, mas também do consumo e tomar medidas sérias e profundas para mudar o modelo energético existente que repousa na utilização massiva de combustíveis fósseis, diversificar e apostar na utilização de outras fontes como as energias renováveis, aumentar a eficiência energética, reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, lutar contra o desperdício e mudar os hábitos e comportamentos”, advoga o administrador da Partex. Costa Silva frisa que esta mudança está nas mãos dos políticos: “A única possibilidade de assistirmos a uma redução e estabilização da procura dos combustíveis fósseis é através da implementação de medidas profundas de conservação da energia e redução das emissões de dióxido de carbono que ameaçam o clima do planeta. Mas isso exige coragem e clarividência aos políticos porque só através de um imposto sobre o carbono o mercado pode realmente funcionar de forma eficaz e absorver a mudança. Tudo o resto são paliativos que não resolvem o problema mas infelizmente vivemos numa época em que as lideranças políticas preferem muitas vezes a via mais fácil.”
Actuar ao nível da procura pode passar também pelo fim do apoio estatal ao consumo de combustíveis concedido por países como a China e a Índia, a Tailândia ou a Malásia grandes responsáveis pela aceleração da procura mundial nos últimos cinco anos.
Á semelhança do que se passa, por exemplo com os medicamentos, a lei da oferta e da procura já não se pode aplicar ao petróleo. António Costa Silva, recorda que “quando ocorreram os choques petrolíferos de 1973 e de 1979/80, a procura entrou em declínio logo que os preços subiram”, ao passo que “a procura continuou a subir nos últimos anos apesar dos preços elevados”. Conclui-se que “a economia mundial, que é hoje diferente da dos anos 70, consegue absorver variações de preço dentro de certos patamares”.
Parceria com África, Magrebe e América Latina
O cenário não é optimista, pelo que a nível ibérico impõe-se o reforço das parcerias, defende Agostinho Miranda: “A energia tornou-se uma variável geo-estratégica de tal importância e Portugal e Espanha são neste campo protagonistas tão pequenos que, ao menos nos sectores do petróleo e do gás, já não há soluções meramente empresariais. As soluções têm de ser políticas. E aí ambos os países têm vantagens enormes, por força das suas relações privilegiadas com África, o Magrebe e a América Latina. A actuação política coordenada de Portugal e Espanha visando a segurança energética é algo que só tem acontecido esporadicamente. Mas, a recente iniciativa, encorajada por Bruxelas, de criação na Península Ibérica de uma base europeia de terminais de gás é um excelente sinal de que as coisas poderão estar finalmente a mudar.”
Não só para a Península Ibérica, mas para a maioria dos países europeus, que não são auto-suficientes em termos de petróleo, uma parceria com África, Magrebe e América Latina pode ser parte da solução. Caleia Rodrigues considera que é na Europa que a insuficiência de petróleo mais se fará sentir: “Os EUA, apesar de em 25 anos passarem de líderes mundiais da produção de petróleo para fortes importadores (dois terços do que consomem), estarão sempre salvaguardados pelo Canadá, que a médio prazo, dominará o mercado juntamente com a Venezuela. A China também terá sempre na Rússia um fornecedor.”
À Europa cabe apostar numa parceria com os países africanos, concorda Agostinho Miranda: “O continente africano tem a mais baixa taxa de consumo energético do planeta e, nessa medida, precisa de infra-estruturas que a Europa está em posição de construir. Mas os governos africanos precisam também de segurança no que toca à procura dos países importadores de petróleo e gás. A parceria energética com África pode criar condições para atacar também o gravíssimo problema do aquecimento global. Todavia, essa parceria só se construirá a partir de uma plataforma fundada no diálogo e na reciprocidade.”
Na mesma linha António Costa Silva vê a parceria energética com África como indispensável: “Infelizmente, depois da queda do muro de Berlim, a Europa passou só a olhar para Leste e isso em matéria de energia pode ser fatal. A Europa tem hoje uma dependência energética grande da Rússia que vai aumentar nas próximas décadas e, se nada for feito para alterar esta situação, o futuro pode ser penoso porque a Rússia pode usar a energia como uma arma geopolítica como fez recentemente no caso da Ucrânia e da Bielorrússia. A Rússia é e deve continuar a ser um parceiro estratégico da Europa, mas para haver um certo equilíbrio, a Europa deve apostar numa parceria energética com África, não só no Mediterrâneo (e é significativo que o processo de Barcelona está hoje completamente parado o que atesta a miopia europeia nesta matéria), mas também dinamizando as ligações com outros países africanos como a Nigéria, a Guiné Equatorial, o Chade, o Gabão ou Angola, para converter a Bacia Atlântica num eixo energético e geopolítico de primeiro plano.”
Perante esta conjuntura, em que pé estão as petrolíferas sedeadas na Península Ibérica Cepsa, Galp, Partex e Repsol e como vão responder aos desafios do sector? As espanholas Cepsa e Repsol, bem como a empresa do grupo Gulbenkian já investem na produção há muito anos, mas a Galp Energia é uma recém-chegada ao mundo da extracção.
Galp com reservas provadas em Angola e no Brasil
Portugal, Brasil e Angola são por enquanto, os principais focos de interesse da Galp, no que diz respeito à exploração e produção. Uma aposta com ecos positivos em Angola, onde a Galp participa em consórcios com outras petrolíferas, nomeadamente a congénere local Sonangol. A mais recente boa nova diz respeito ao Bloco 32, nas águas ultra-profundas do offshore de Angola, no poço Alho-1, onde se provou a existência de uma jazida de petróleo de boa qualidade, com um potencial de produção na ordem dos 5400 barris por dia. A esta descoberta, anunciada no final de 2007, somam-se mais 12 anunciadas entre 2003 e 2007. Além do Bloco 32, a Galp está também presente na exploração dos blocos 14, 14K/A-IMI e 33. Todos localizados no off-shore de Angola.
No Brasil, a parceria no consórcio que explora o bloco BM-S-11, em águas profundas da Bacia de Santos, já rendeu a descoberta recente de reservas de petróleo e gás natural, avaliadas entre cinco e oito mil milhões, no Poço de Tupi Sul. Neste consórcio, o grupo português detém uma participação de 10%. Recorde-se que na mesma bacia, a Galp participa na exploração de mais três blocos: BM-S-8 (14%), BM-S-21 (20%) e BM-S-24 (20%).
No que toca a Portugal, a Galp, em parceria com a Partex e com a Petrobras, assinou um acordo com o Governo português para a exploração e produção dos blocos Camarão, Amêijoa, Mexilhão e Ostra, que cobrem uma área de 12 mil quilómetros quadrados, localizados em águas profundas (2000 metros) ao largo de Peniche, na chamada bacia lusitana. Neste investimento, a Galp tem uma participação de 30%, a Partex de 20% e a Petrobrás de 50%. A Partex e a Galp, em parceria com a australiana Hardman Resources estão também envolvidas na exploração dos blocos portugueses Lavagante, Santola e Gamba, situados ao largo da costa alentejana, numa área de nove mil quilómetros quadrados, em águas cuja profundidade vai dos 200 aos três mil metros.
Partex planeia investir 100 milhões de dólares em E&P
Além de parceira da Galp nestes negócios em Portugal, a Partex Oil and Group Companies opera também no Casaquistão, no Brasil, na Argélia, em Angola e no Médio Oriente. A empresa deve a sua origem a Calouste Gulbenkian, o empresário de origem arménia que viveu os últimos anos da sua vida em Portugal e que dividia o seu tempo entre a arte e o petróleo. Em testamento, Gulbenkian decretou que se criasse uma fundação com o seu nome, sedeada em Lisboa. A filantropia e a gestão do património artístico é por ventura o lado mais conhecido da fundação, mas nas suas actividades está também a gestão da Partex, que detém a 100%.
A história da Partex confunde-se com a história da exploração de petróleo mundial, estando Gulbenkian ligado à génese da indústria petrolífera no Médio Oriente. A diversificação geográfica do investimento tornou-se imperiosa tendo em conta que já não se descobrem novas jazidas no Médio Oriente há anos. A Partex hoje procura alternativas a essa zona do globo. “A descoberta de novas jazidas faz parte da nossa actividade desde sempre não só para repor as reservas nos campos que estão em produção no Médio Oriente como noutras bacias e noutros países onde a companhia detém participações”, declara António Costa Silva. O administrador da Partex acrescenta ainda que “no plano de negócios, que tem um horizonte temporal de cinco anos, estão previstos investimentos de cerca de 100 milhões de dólares para actividades de exploração cujo objectivo é exactamente identificar e avaliar novas jazidas”.
Cepsa com um pé na América Latina
Diversificar os investimentos em termos geográficos é também um dos principais objectivos da Cepsa, segunda petrolífera espanhola, controlada maioritariamente pela francesa Total. A exploração e produção de petróleo da Cepsa decorre actualmente na Argélia, na Colômbia, no Egipto e em Espanha e é de aproximadamente 250.000 barris/dia. A companhia pretende manter estes investimentos, mas está igualmente empenhada em alargar geograficamente a sua área de acção, nomeadamente na América Latina, onde a o Peru lhe abriu a porta. No final do ano passado, o grupo assinou um acordo com a empresa canadiana Loon Peru para iniciar actividades de exploração e produção de hidrocarbonetos no Bloco 127, na bacia do Maranhão, no Peru, país onde pretendem expandir a actividade petrolífera.
Em 2006, a CEPSA comercializou 8,7 milhões de barris de crude líquidos e realizou investimentos no valor de 91 milhões de euros, aplicados fundamentalmente no desenvolvimento dos poços produtivos da Argélia. Até Setembro de 2007, a empresa investiu mais 74 milhões de euros também em actividades de exploração e produção. A estratégia do grupo para o período 2007-2011 contempla investimentos superiores a cinco mil milhões de euros em todas as áreas de negócio. Luís Sobral, administrador da Cepsa em Portugal, especifica quais os planos da empresa: “Estes investimentos destinam-se a manter no médio-longo prazo, o nível de reservas de crude, através do reforço da exploração dos poços em actividade, da exploração de novos poços e/ou aquisição de reservas com diversificação geográfica.
A actividade de exploração e produção pesa 33% do total dos negócios do grupo, sendo a segunda de maior peso para a Cepsa, depois da área de refinaria, que representa 54%.
Reconhecendo que “o contexto sociopolítico internacional e os novos marcos jurídicos de alguns países passaram a ter uma maior influência no desenvolvimento da actividade de exploração e produção”, Luís Sobral assinala que “os planos da Cepsa nos países onde opera são a longo prazo e a companhia trabalha muitos anos nesses países, mantendo boas relações com os sócios e interlocutores locais”.
Repsol investe no petróleo pesado
As condicionantes políticas poderão também ensombrar a actividade da maior petrolífera espanhola, a Repsol YPF. O grupo está a apostar fortemente na que se acredita ser a principal reserva de petróleo pesado e extra pesado do mundo, a faixa de Orinoco, localizada ao largo da Venezuela. Em retaliação ao célebre “por qué no te callas” do rei de España, Hugo Chávez, presidente da Venezuela, ameaçou que as intenções da Repsol podem sair goradas, assim como os demais investimentos de empresas espanholas em território venezuelano. Já as relações com o Governo argentino deverão sair beneficiadas assim que se concretizar a venda de 25% da sua filial argentina YPF ao grupo local Petersen, acordada no final de 2007 por 2 536 milhões de euros. Além de adquirir um sócio local, com este negócio a Repsol diminui a sua dependência da Argentina (que representava 30% dos resultados e o equivalente a 42% das suas reservas de petróleo provadas) e ainda angaria capital para ajudar a concretizar o plano estratégico 2008/2012 que deverá rondar os 32 mil milhões de euros de investimento.
A Repsol concentra uma boa parte das suas actividades de extracção em diversos países da América Latina. O Brasil valeu à Repsol, em Setembro, a descoberta de um novo poço. A jazida, na qual a Repsol tem uma participação de 25%, registou no ensaio de produção uma extracção de 2900 barris de crude e 57000 metros cúbicos de gás por dia. Na brasileira bacia de Santos, a Repsol lidera a actividade exploradora juntamente com a Petrobrás, participando em 19 blocos, nove dos quais como companhia operadora. O grupo espanhol está entre as 10 maiores petrolíferas privadas do mundo e opera em mais de 30 países. Até Setembro de 2007, a Repsol estava a produzir mais de um milhão de barris por dia de hidrocarbonetos. O investimento nos três primeiros trimestres de 2007 na área da exploração e da produção atingiu os 2.184 milhões de euros.
O sucesso futuro destas empresas dependerá sobretudo da capacidade para negociar com os novos senhores do petróleo. Da mesma forma que a capacidade política e económica para alterar o actual modelo energético à escala mundial, quer do lado da oferta, quer do lado da procura, é um pressuposto indispensável para evitar um futuro negro.
CAIXAS:
As alternativas…
Substituir o petróleo será sempre complicado na maioria dos seus usos. Mesmo assim a ciência dá-nos razões para algum optimismo, acredita o advogado especialista em petróleo Agostinho Miranda: “O petróleo será sempre a mais importante fonte primária de energia para os transportes. Mesmo os carros movidos a electricidade ou hidrogénio necessitarão de energia fóssil para a produção de uma e outro. Todavia, é altamente provável que nas próximas décadas surjam vários tipos de combustíveis sintéticos. A minha maior esperança reside nas imensas possibilidades da biologia molecular, tanto no domínio da captura de CO2 como no da produção de combustível. Já não pertence ao domínio da ficção científica a possibilidade de colónias de bactérias geneticamente modificadas alimentarem-se de dióxido de carbono ou produzirem energia a partir da luz solar.”
Exploração de petróleo no Árctico?
Pensamos em branco quando pensamos no Árctico, mas o gelo guarda generosas jazidas de petróleo e de gás. Atingi-las levanta dificuldades de ordem ambiental, técnica e política, no entanto as empresas do sector energético parecem estar empenhadas em vencer esses obstáculos. O advogado Agostinho Miranda considera que apesar da “grande incerteza quanto à titularidade jurídica da respectiva plataforma continental, com, pelo menos seis países a disputarem os direitos de prospecção”, a exploração do Árctico “é seguramente viável”. Opinião partilhada pelo administrador da Partex António Costa Silva: “A exploração de petróleo no Árctico é perfeitamente viável o que atesta a capacidade tecnológica desta indústria. Hoje no Árctico há grandes projectos de exploração e produção que estão a ser concretizados como o da Statoil, no campo de Snovhit, e o da Gazprom com a TOTAL, no campo de Shotkman.” Ainda assim, Agostinho Miranda ressalva que ”a exploração de hidrocarbonetos em boa parte do Árctico exigirá soluções tecnológicas que ainda não foram testadas e que, na melhor das hipóteses, terão de esperar 10 anos para serem comercialmente utilizáveis”. Além do petróleo, o Árctico é igualmente apetecível pelo gás, já que se julga que esta zona possa conter 25% das reservas de gás do planeta.
A verdadeira dimensão das jazidas…
Será sempre uma interrogação a verdadeira dimensão das jazidas de petróleo e de gás. Como argumenta o especialista em assuntos de petróleo José Caleia Rodrigues “a declaração das jazidas, quer provenha de países produtores quer de companhias petrolíferas, não é credível, dado que os números oficiais das reservas estão longe de ser dados puramente científicos”. Em causa poderá estar a mensagem que a empresa passa aos investidores e demais parceiros, sugere o analista: “A declaração das jazidas será o reflexo de um património financeiro que pode ser valorizado ou depreciado conforme o seu interesse temporal. Grande parte dos analistas tem a convicção de que se os números reais fossem conhecidos, provocariam o pânico nos mercados financeiros. Em pura discussão académica, a situação poderia atingir foros de extrema gravidade, no caso de um anúncio tornado público de queda significativa das reservas mundiais de petróleo que conduziria a uma imediata alteração dos preços e à destruição dos mercados financeiros e da economia mundial. É importante sublinhar que o aumento da produção do petróleo bruto convencional foi conseguido à custa do aumento da taxa de extracção em poços de alta rentabilização comercial, dado que a quantidade de poços em actividade tem vindo a ser drasticamente reduzida.”
in “Revista Actualidade” da CCILE
Fevereiro 2008
por Susana Marques
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