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domingo, 25 de maio de 2008

Perceber o petróleo (Expresso, "Economia", 22.Abril.2006)

"Quando ouvimos falar em crise de petróleo deparamo-nos com um perigoso equívoco", isto porque, segundo Caleia Rodrigues, não estamos perante uma crise. Mas sim perante uma nova realidade - a escassez de uma matéria-prima - à qual nos temos que habituar. Uma crise, defende este autor, é por definição passageira. Ora não é disso que se trata.
Caleia Rodrigues fala-nos de uma situação irreversível que é uma "consequência natural da desenfreada intensificação e descontrolada massificação da utilização do petróleo". Como resultado: a procura é superior à oferta. "Enquanto a população mundial aumentou três vezes e meia desde 1890, a energia industrial consumida 'per capita', apesar de desigualmente repartida, aumentou mais de sete vezes durante mesmo período e a energia total consumida a nível mundial aumentou quase catorze vezes". Esta obra (Petróleo, Qual Crise?), que apresenta inúmeros dados económicos de fontes diferentes, é elucidativa sobre a evolução do mercado petrolífero ao longo dos últimos anos. E apresenta ainda o petróleo como uma fonte natural que corre (comparativamente) cada vez mais, para os países em vias de desenvolvimento em detrimento dos países desenvolvidos. São expostos, entre outros, os diferentes cenários que estão a ser estudados para fazer face a esta situação; e os interesses políticos que estão em cima da mesa.
Mafalda Aguiar

domingo, 11 de maio de 2008

Com o barril de petróleo a subir acima dos 70 dólares, ouve-se frequentemente a palavra "crise", para descrever o panorama energético actual.

Para José Caleia Rodrigues, autor de dois livros sobre as questões do petróleo - um facto assinalável no mercado editorial português -, a palavra "crise" é mal utilizada. O problema em torno do preço do petróleo e da dependência das economias industrializadas prende-se com questões estruturais, e não de carácter passageiro, facto que justifica o título do seu último livro "Petróleo, Qual Crise?", publicado no mês passado. Vários constrangimentos no sector petrolífero, aliados à incessante procura do "ouro negro", estão na origem da subida dos preços, uma tendência que se irá manter e que ameaça alterar o equilíbrio geopolítico mundial. Os investimentos necessários no sector e o maior custo de extracção e de refinação irão repercutir-se no bolso dos consumidores. Para Portugal, muito dependente desta fonte energética e altamente ineficiente no seu consumo, os custos são muito elevados e impõem uma grande mudança em duas vertentes: para o Governo, no desenvolvimento da aposta em outras fontes de energia (como tem vindo já a suceder na eólica); para os consumidores, na revisão dos seus hábitos e modo de vida.
Em que medida a subida do preço do petróleo nos últimos dois anos não é mais um choque petrolífero, como o que se verificaram em 1973 ou 1979-80?
O petróleo voltou a subir desmesuradamente desde 1998, há seis anos. De 1998 para 2000, o preço duplicou. De 2000 para 2004, subiu mais de 60 por cento. Do meu ponto de vista não estamos a atravessar uma crise como a de 1973, uma vez que, por definição, as crises são passageiras. Por outro lado, devemos separar o sector do petróleo do mercado do petróleo. Não podemos falar de uma crise porque não há uma rotura de abastecimento do mercado. No sector do petróleo existem, sim, constrangimentos fortíssimos, que podem ser ultrapassados. O mercado é que tem factores exógenos que provocam todas estas variações. O petróleo, porque é um produto estratégico, está sujeito à pressão de vários factores, nomeadamente geopolíticos. Hoje, por exemplo, porque pode vir a acontecer um conflito entre dois países [Estados Unidos da América e Irão], o mercado entrou numa situação de pânico. Se só há constrangimentos no sector, se o petróleo continua a fluir, se o custo de transporte por oleoduto não está indexado à procura (é um custo fixo), os preços subiram por medo daquilo que possa vir a acontecer, não por razões ligadas ao sector.
Mas estes acontecimentos exteriores têm um grande impacto porque, do lado da oferta, o mercado percebe que o sector está muito pressionado...
Sim, o sector está muito apertado devido a vários constrangimentos, mas o petróleo bruto convencional ou petróleo leve [mais fácil de extrair e refinar] não está em eminente e evidente extinção, embora as reservas estejam a diminuir substancialmente. De acordo com os petrofísicos, desde a Pensilvânia e Baku [locais das primeiras descobertas de petróleo, nos EUA e no Azerbeijão respectivamente], ou seja, nos últimos 125 anos, consumiu-se um trilião de barris. Nos próximos 35 anos vamos consumir outro trilião de barris, caminhando a passos largos até à sua extinção. De reservas comprovadas, temos petróleo convencional por mais 50 a 60 anos.
Quais são esses "constrangimentos" que pressionam o sector?
Como constrangimentos temos um longo período de muito baixo investimento, em inventariação de novas descobertas, em extracção, em transporte e, sobretudo, em refinação. Só para inventariação de uma nova concessão, com ensaios sísmicos, já se gastam uns milhões de dólares. A extracção é feita muitas vezes em regiões sem segurança o que obriga as empresas petrolíferas a fazerem a sua própria segurança. Depois, temos o pouco investimento em transporte. Um oleoduto tem custos por quilómetro equivalentes a uma auto-estrada, são biliões de dólares para transportar o petróleo através de milhares de quilómetros. Por fim, há fortíssimos constrangimentos na refinação. Mesmo que queira aumentar a entrega de petróleo ao mercado, a capacidade de refinação instalada está hoje muito próxima da entrega total ao mercado, funcionando como um estrangulamento. Enquanto em 1982 estava a refinar à volta de 60 milhões de barris diários e tinha uma capacidade instalada no mundo para 80 milhões, hoje a produção chegou perto dos 80 milhões e a capacidade não aumentou. Temos, assim, constrangimentos do lado da oferta e, por outro lado, uma procura incessante.
Faz parte do grupo dos pessimistas que advogam a teoria do apocalipse com o esgotamento do petróleo, conhecida por "peak oil"?
Sou contra. Porque é um exercício matemático muito interessante e apenas isso. Pode prever-se um esgotamento em 50 anos do petróleo leve, inventariado em reservas prováveis, que até poderá esgotar-se em 30 ou 35 anos, mas temos ainda o recurso ao petróleo pesado, que será inesgotável por umas centenas de anos. Por outro lado, em aplicações em que não sejam absolutamente exigíveis os combustíveis fósseis, nós podemos ter recurso à electricidade a partir de outras fontes energéticas. O "peak oil" é um exercício de pessimismo alarmista.
Enquanto cartel, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) mantém o seu poder de mercado intacto, mesmo com a emergência de novos países produtores à margem da organização, como a Rússia?
A OPEP ainda produz cerca de 33 milhões de barris diários e as reservas comprovadas darão para quase 70 anos, ao ritmo de produção actual. Mas precisam de grandes investimentos para conseguir aumentar a produção. A OPEP não tem hoje a força que tinha não só porque a Rússia entrou no mercado com muita força, mas porque, quando falamos de OPEP, estamos a falar de petróleo leve. Pelo lado do petróleo pesado é que as coisas irão mudar. As reservas russas em petróleo leve e, por outro lado, a Venezuela e o Canadá no petróleo pesado, serão os players do futuro e é com esses que tem que se contar. Na Venezuela já estão a operar as principais petrolíferas mundiais.
Mas esse é o petróleo pesado, é mais caro de extrair e de refinar...
Quando digo que a Venezuela será um player do futuro é porque a faixa do rio Orinoco, que tem uma dimensão à volta de dois terços do nosso país, tem reservas imensas. A extracção é mais cara porque exige injecção de vapor de água, o que na situação da Venezuela é o melhor que lhe poderia ter acontecido. Primeiro porque tem no rio Orinoco água com fartura. Depois, porque tem a mega-barragem do Guri, com energia eléctrica que chega e sobra, de origem gratuita, para injectar o vapor e extrair o seu petróleo. Está na melhor posição do mundo para, no futuro, dominar o mercado. À medida que o tempo passa, o petróleo leve irá escasseando e cada vez mais o pesado terá de ser utilizado. Mas não será nunca uma alternativa mais barata. A alternativa com um método de extracção mais caro não irá fazer baixar o preço, irá sim continuar a fazê-lo subir. É essa a tendência de longo prazo.
As inovações tecnológicas na indústria petrolífera, ao nível da extracção e produção de combustíveis, poderão suavizar o declínio das reservas petrolíferas hoje conhecidas? O consumo de petróleo divide-se em 60 por cento para transportes e 40 por cento para produção de energia eléctrica e para a indústria. O que tem vindo a ser feito em termos de inovação é trabalhar nos 40 por cento, uma vez que a produção de energia eléctrica pode ser feita sem recurso ao petróleo. Mas a extracção do petróleo leve é cada vez mais cara e traz problemas ambientais. O Árctico é hoje um grande depósito de petróleo, mas a extracção, que já está a ser feita, tem riscos ambientais e custos elevados.
Para produção de electricidade, a energia nuclear é uma hipótese...
Pode ser nuclear ou eólica. A nuclear tem os seus riscos, mas nós temos na Europa Ocidental 146 reactores. Só na Bélgica há sete, a França tem 59, o Reino Unido tem 31, a Alemanha tem 19 e a Espanha tem nove. É uma alternativa possível. A eólica é aquela pela qual os portugueses enveredaram e, quanto a mim, muito bem, para reduzir o peso do petróleo na produção de electricidade. Pelos números que me chegaram, nós duplicamos num ano a capacidade eólica instalada, estando hoje Portugal classificado em 11º no ranking mundial, com a Alemanha e a Espanha à cabeça. É por aí que podemos trabalhar para reduzir a dependência nos 40 por cento de petróleo consumidos "extra transportes".
Portugal tem andado desatento em termos de política energética? Que razões encontra para a ausência de uma estratégia nacional nos últimos anos num sector tão importante como o da energia? Andámos adormecidos a pensar noutras coisas. Quando nós temos um produto de que dispomos e supomos que não há problema com ele, distraímo-nos. Mas deveríamos ter estado atentos ao choque petrolífero de 1973. Pela leitura do que nos aconteceu nessa altura, com o embargo, as coisas poderiam ter sido tratadas de outra maneira, com mais atenção. Eu estive em missão na África do Sul e tive ocasião de constatar como este país resolveu a sua situação de dependência. Em 1973, ainda tinham o Irão como aliado, uma vez que o xá Reza Pahlevi era um amigo dos sul-africanos e continuou a abastecê-los. Porém, mesmo antes de 73, a África do Sul já havia previsto que alguma perturbação poderia acontecer e optaram por uma alternativa. Como dispunham de quantidades de carvão enormes, adoptaram um sistema para sintetização do carvão e produção de combustíveis sintéticos, para agregar à gasolina. Em qualquer altura têm o país salvo com esse recurso e, na crise de 1979, foi isso mesmo que aconteceu. Eles seguiram por este rumo e outros decidiram de outra forma, pelo nuclear. Nós, por outro lado, não temos pensado muito nisso, temos andado um pouco adormecidos. E isto são problemas que se resolvem apenas a longo prazo, os resultados não são imediatos. Se fizer agora investimento no que quer que seja, só daqui a vários anos é que vai ter o resultado. O que estamos a fazer nas eólicas é óptimo. A produção de energia eléctrica através da energia eólica em Portugal em 1995 era zero e, em 2004, já representava cinco por cento. A produção de energia hídrica é que baixou substancialmente. Nós temos sol, temos vento, temos água e cada país deve recorrer ao que tem. Usar os recursos dos outros... podemos pagar, mas ficamos muito dependentes.
A China e a Índia são realmente os "maus da fita", responsáveis pelo aumento cada vez maior da procura de petróleo?
A China e a Índia representam um terço da população mundial e são países com quem se deve ter um bom relacionamento. Não são os "maus da fita", trata-se apenas de estratégias económicas e geopolíticas. Os EUA consomem cerca de um quarto do petróleo mundial e importam dois terços do que consomem. No meu ponto de vista, o fiel da balança do poder está a desviar-se para o eixo Sino-Russo. Enquanto os russos e os chineses se olhavam de lado, a China desenvolveu-se pelos seus próprios meios. Mas hoje, para continuar o seu desenvolvimento económico, a China tem um défice de cerca de três milhões de barris diários. A negociação para o abastecimento à China e ao Japão (com a Índia as coisas ainda não estão completamente resolvidas) levou 12 anos a ser concluída. Em Janeiro deste ano, o presidente Putin garantiu um oleoduto à China, com um desvio para o mar do Japão. Abastece a China e o Japão, cumprindo a quase totalidade das necessidades chinesas e uma parte mais pequena das japonesas. Graças à Rússia, a China tem hoje todas as condições necessárias para garantir o desenvolvimento económico continuado. Este novo eixo está a sobrepor-se, em interesse, aos países ditos industrializados, que estão a ser relegados para segundo plano.
O que explica uma das chamadas de capa do seu livro, segundo a qual "China e Rússia estão a esmagar o orgulho ocidental"...
A Rússia tem uma capacidade instalada que lhe permite aumentar a produção, ao contrário da Arábia Saudita que tem a capacidade de extracção esgotada (só com novos investimentos é que pode aumentar a produção). O grande desequilíbrio quando falava em Rússia e EUA é que os EUA importam mais de nove milhões de barris diários, enquanto a Rússia exporta quatro milhões, sem ter ainda começado a fornecer à China e ao Japão através do oleoduto em actual construção, que se prevê concluído daqui a dois anos. Quando dizemos que os EUA importam diariamente nove milhões de barris, estamos a falar de 630 milhões de dólares diários. A Rússia recebe contrapartidas de 300 milhões de dólares diários. Além disso, a extracção suplementar de petróleo para a China e para o Japão, assim como os oleodutos, são financiados pelo Japão e pela China, com pouco investimento russo. Os americanos, por outro lado, para garantir o fornecimento ainda têm que pagar a segurança. Ou seja, os custos para os EUA e os benefícios para a Rússia e China têm todos os ingredientes para que a balança do poder se altere, não pela força mas pela economia.
Esse novo oleoduto irá ter influência no mercado?
A Rússia passa a fornecer a China e o Japão, com três milhões de barris diários, deixando de ter margem para compensar quebras de mercado. Nessa altura, é previsível mais um forte abanão nos preços.Como vê a cada vez maior influência, em termos energéticos, da Rússia sobre a União Europeia (UE)?
A UE não tem uma política energética comum. No mosaico de países que constituem a Europa Ocidental, cada um tem o seu problema para resolver. A Grã-Bretanha é auto-suficiente e exporta, assim como a Dinamarca e a Noruega (que é o terceiro exportador mundial). Estes três países estão muito bem. Quando a Rússia fizer alguma pressão serão eventualmente os alemães, que pretendiam um abastecimento russo directo, os mais prejudicados. Nas outras áreas, cada um vai fazendo o que pode. O problema não é global na Europa, cada um tem o seu problema. Uns têm petróleo, outros resolveram por outra via e outros não fizeram coisa nenhuma e esses estão com mais dificuldades.
Tendo em conta que a energia passou a ser uma questão de segurança nacional, e que os EUA já discutem a criação de uma "proto-NATO" para a energia, não é de estranhar o silêncio da União Europeia sobre este assunto?
As discussões no seio da UE são uma coisa muito complexa. Em 2004, a UE produziu 2,5 milhões de barris diários e consumiu 14,5 milhões e meio - teve 12 milhões barris diários de défice. Em gás natural tiveram 255 biliões de metros cúbicos de gás. Mas, nestes números, incluem-se a Dinamarca e a Grã-Bretanha, que não têm problemas. Cada um tem as suas vantagens e dificuldades específicas e vai ser difícil chegar a acordo por causa disso, é uma área muito sensível. Os EUA são estados unidos, criaram-se com várias guerras, entenderam-se e têm um governo central que fala por eles. A UE é um convénio, entenderam prescindir de alguma soberania e conseguir um mercado comum. Depois, os EUA podem ter muito mais urgência que os europeus para agir desta forma, porque têm um problema grave. Não só pelo que têm que pagar pelas importações, mas também porque são quem paga pela segurança do abastecimento.
"Reveja a sua forma de vida"
Em quatro anos, a factura portuguesa da importação de petróleo quase duplicou.
Numa altura em que o barril de petróleo abaixo dos 50 dólares parece ser uma memória de tempos já idos, a dependência de Portugal face a esta fonte de energia significa uma factura grande para pagar. Em 2005, "pela mesma quantidade que importávamos há quatro anos, pagámos cerca do dobro", aponta Caleia Rodrigues. Dos 2,2 mil milhões de euros desembolsados em 2002, Portugal passou para quase quatro mil milhões de euros em 2005. "São vários TGV em cada ano", comenta Caleia Rodrigues. Esta subida dos preços irá obrigar os portugueses - os mais ineficientes na utilização da energia na União Europeia a quinze - a "rever a sua forma de vida". Além do investimento em energias alternativas, Caleia Rodrigues destaca a necessidade de optar por caminhos mais racionais no consumo, num equilíbrio entre conforto e eficiência energética. "Uma alternativa são os transportes públicos, que podem ser alimentados com energia eléctrica", sugere. Contudo, as dificuldades serão grandes. "A educação, leva algum tempo", lembra. "Na nossa estrutura de vida há pessoas a viverem a 50 ou a 60 quilómetros do local de trabalho, vai ser difícil manter uma situação dessas".

"Petróleo - Qual Crise?" (Forum Energia.eu, 22.Janeiro.2007)

Este livro editado em 2006 pela Booknomics, foi escrito pelo Prof. J. Caleia Rodrigues, sendo este o resultado de anos de investigação contínua no terreno levado a cabo, "em países estratégicos para a problemática do petróleo, primeiro em Angola e na Venezuela, em funções privadas, depois no desempenho exemplar das suas elevadas funções de Delegado do ICEP e de Conselheiro Comercial das Embaixadas de Portugal em Israel, Marrocos e na África do Sul." Sinopse: Quanto petróleo existe no subsolo? Quanto poderá vir a ser possível extrair no futuro? Nunca ninguém soube ou terá a veleidade de tentar inventariar! Mas a delapidação dos recursos petrolíferos é preocupante. Surgiram, entretanto, novos actores na cena internacional: a China e Índia, que comportam um terço da população mundial e estão dependentes do petróleo para dar continuidade aos seus programas de desenvolvimento. Estes novos consumidores gigantes sobrepuseram-se ás economias industrializadas que foram relegadas para lugar secundário na ordem das prioridades a satisfazer. Com a alteração do naipe de consumidores acabou por emergir a Rússia a liderar o mercado de abastecimento com os seus imensos recursos de gás e petróleo. (...) A alternativa pode estar nos petróleos pesados ou nos sintéticos a partir do carvão, já em produção comercial. Para quem os puder pagar! O grande obstáculo à utilização maciça destes petróleos não-convencionais reside nos custos da extracção e do processamento. Ambos exigem um grande esforço financeiro de retorno a longo prazo. Sem esquecer as exigências ambientais.

Lançamento a 18 de Abril na Fnac do Chiado
A Booknomics estreia-se este mês no mercado editorial, com um livro sobre o mercado petrolífero. José Caleia Rodrigues, que se distingue como um dos analistas que «melhor conhece» a geopolítica internacional e a problemática do petróleo nas suas vertentes mais importantes, vai lançar um livro intitulado «Petróleo: Qual Crise?», na terça-feira dia 18 às 19h00 na Fnac.
Esta obra pretende explicar-nos porque é que «o preço do crude nunca mais vai voltar a descer e que tipo de implicações é que isso vai ter na nossa vida profissional e privada», segundo informa a editora em comunicado oficial.
O livro conta ainda com o prefácio de Neto da Silva.
Agência Financeira
2006/04/13 12:35 Editorial

terça-feira, 4 de março de 2008

Petróleo_Qual Crise? (ForumEnergia.eu, 22.Jan.2007)

Colocada: 22 Jan 07, 13:22 Assunto: "Petróleo - Qual Crise?" de José Caleia Rodrigues

Este livro editado em 2006 pela Booknomics, foi escrito pelo Prof. J. Caleia Rodrigues, sendo este o resultado de anos de investigação contínua no terreno levado a cabo, "em países estratégicos para a problemática do petróleo, primeiro em Angola e na Venezuela, em funções privadas, depois no desempenho exemplar das suas elevadas funções de Delegado do ICEP e de Conselheiro Comercial das Embaixadas de Portugal em Israel, Marrocos e na África do Sul." Sinopse: Quanto petróleo existe no subsolo? Quanto poderá vir a ser possível extrair no futuro? Nunca ninguém soube ou terá a veleidade de tentar inventariar! Mas a delapidação dos recursos petrolíferos é preocupante. Surgiram, entretanto, novos actores na cena internacional: a China e Índia, que comportam um terço da população mundial e estão dependentes do petróleo para dar continuidade aos seus programas de desenvolvimento. Estes novos consumidores gigantes sobrepuseram-se ás economias industrializadas que foram relegadas para lugar secundário na ordem das prioridades a satisfazer. Com a alteração do naipe de consumidores acabou por emergir a Rússia a liderar o mercado de abastecimento com os seus imensos recursos de gás e petróleo. (...) A alternativa pode estar nos petróleos pesados ou nos sintéticos a partir do carvão, já em produção comercial. Para quem os puder pagar! O grande obstáculo à utilização maciça destes petróleos não-convencionais reside nos custos da extracção e do processamento. Ambos exigem um grande esforço financeiro de retorno a longo prazo. Sem esquecer as exigências ambientais. Edição: Booknomics

Crise? Qual crise? (Executive Digest, Junho.2006)

Crise? Qual crise?

José Caleia Rodrigues acaba de publicar o livro: «Petróleo: Qual Crise?» onde responde a algumas questões pertinentes sobre o futuro das nações que não têm recursos naturais de petróleo e que o têm de pagar.

Por: Pedro Costa Coelho

No momento em que o preço de petróleo sobe, semana após semana, e que a questão energética volta a estar na ordem do dia, quisemos saber algumas das ideias de um dos especialistas de geopolítica e energia sobre a suposta crise petrolífera e como teremos de enfrentar o futuro.

Quem vê pela primeira vez o seu livro depara-se com uma frase destacada em que diz «reveja a sua forma de vida». Como é que devemos rever a nossa forma de vida, estando tão dependentes do petróleo e aparentemente sem alternativas?
Essa frase vem na sequência de uma anterior: «China e Rússia estão a esmagar o orgulho Ocidental». Mas, claro, é uma frase de alerta. Nós somos «petro glutões», esbanjadores.
Apesar do que lhe vou dizer caber no domínio da sociologia, que não é o meu, julgo que faz sentido afirmar que se constituiu esta organização social porque o petróleo tinha um valor quase residual e as pessoas habituaram-se a consumir o petróleo de uma forma pouco racional.

Está a referir-se à nossa forma de vida, ao uso excessivo das viaturas particulares.
Sim, entre outras. Nós utilizamos o carro, nalguns casos as famílias utilizam até dois carros, porque nos habituámos a isso sem pensar muito. É que o consumo do petróleo reparte-se da seguinte forma: 60% para transportes e 40% para indústria e geração de energia eléctrica. Temos, portanto, que pensar em alternativas que nos façam poupar a factura diária e fazer um esforço muito grande pois andámos muitos anos sem tomar decisões atempadas e adequadas.

Curiosamente, ainda há pouco tempo, ouvi um dos especialistas nacionais sobre energia defender que as pessoas deveriam organizar-se em pequenas comunidades para que um só carro servisse para três ou quatro pessoas e assim se evitasse vermos carros apenas com um condutor. Parece-lhe viável, na forma em que a sociedade portuguesa urbana actual está organizada?
Pois, eu também já falei nesse assunto. Em tempos idos, por exemplo, tudo girava à volta de comunidades pequenas. Eu andava numa escola ao pé de casa e nunca ninguém me levava à escola, como é evidente. Inclusive instalavam-se locais de trabalho e bairros confinados a espaços delimitados para que a mobilidade fosse fácil e eficiente.
Depois entrou-se nesta fúria da construção deslocalizada e dos transportes de longa distância tendo com suporte o petróleo barato.

E isso é apenas à nossa escala, de Portugal. Quando se transporta o mesmo exemplo para o resto do mundo as coisas tomam uma proporção enorme.
Mas olhe que uma boa parte do mundo que dispõe de vultosos recursos petrolíferos vai viver muito bem. A outra, muito mal.

Essa é a questão que levanta no seu livro. Qual é a sua opinião, então?
A partir de 1962 a Europa deveria ter pensado que ou passava a ter «juízo» ou desaparecia do mapa. É que a Europa andou em guerras constantes a destruir o que tinha e o que não tinha e depois, a partir de 1962, com a Resolução da ONU sobre a “Soberania Permanente dos Recursos Naturais” ficou decidido o direito dos povos e das nações à soberania permanente sobre as suas riquezas naturais, incluindo o direito à nacionalização ou à expropriação, se constituísse interesse nacional e contribuísse para o bem-estar das suas populações.

Mas isso, em teoria, não está incorrecto…
Mas a Europa deveria, nessa altura e quando justamente concederam a independência política às nações ocupadas, ter entendido que se tinha acabado a tomada grátis dos recursos dos outros. E que se os quiserem têm de pagar. Esse foi o primeiro passo para esta situação.

Como é que se poderia ter equilibrado a questão política – as independências dos países – e a questão da localização geográfica dos recursos?
O que eu digo é que a partir dessa altura teríamos que assumir passar a viver com o que se tem e não com aquilo que os outros têm. Deveríamos ter organizado a vida nesse sentido.

Mas, por exemplo, os Estados Unidos apesar de terem recursos próprios também vivem dos tais recursos dos outros.
Os Estados Unidos, primeiro, são estados que se uniram. E que se uniram pela via da força. Não foi uma decisão de braço no ar. Mas os Estados Unidos dispunham de um forte mercado interno de bens de consumo e de recursos naturais. Porém, essas coisas esgotam-se e têm que ir à procura dos recursos dos outros.

A pagar…
Mas mesmo pagando-os têm que defender a compra. Analisemos o presente: há situações que vão com certeza conduzir a grandes alterações políticas. Quando eu escrevo aí na capa que «a China e a Rússia estão a esmagar o orgulho Ocidental» quero dizer que nós tivemos um período nos últimos 20 anos do século XX em que havia os «nic’s», os novos países industrializados. Agora, temos os «bric’s», ou seja, Brasil, Rússia, Índia e China que são os países emergentes do século XXI.

Sendo que a Índia e a China serão as próximas potências económicas daqui a muito pouco tempo…
Exacto. Os analistas dizem mesmo que a China será maior potência mundial dentro de 15 anos. Repare: a China tem uma população de mil e trezentos milhões de habitantes que nos últimos 20 anos cresceu 32%. A Índia tem, actualmente, mil e cem milhões de habitantes. Cresceu 57% em vinte anos.
Ora, a China que tem um deficit diário de 3 milhões de barris de petróleo, o que lhe está a estrangular a continuidade do crescimento económico, actualmente na ordem dos dois dígitos, quer continuar a crescer economicamente e precisa de superar esse constrangimento.

E como entra a Rússia?
Como se sabe, a Rússia e a China eram adversários ou inimigos políticos até há pouco tempo. Com esta nova classe política e depois de uma enorme e longa controvérsia no Parlamento russo, decidiram que o melhor era darem-se bem e assim surgiu a construção de um oleoduto para fornecer à China 2,5 milhões de barris diários com um ramal para uma ajuda suplementar ao Japão. Ou seja, a China passa a ter todos os ingredientes para assegurar o seu crescimento económico continuado.

É um oleoduto «politicamente» estratégico…
É um oleoduto com 4 mil quilómetros de extensão, cuja construção irá ser inaugurada no início deste Verão, que vai custar 17 biliões de dólares e que irá contribuir para fazer pender a balança da influência política e económica para o outro lado do planeta.

E os Estados Unidos de fora dessa balança…
Ainda sobre os Estados Unidos: eles estão a importar 9,5 milhões de barris por dia. Aos preços actuais atinge um valor de 665 milhões de dólares diários. Se acrescentarmos o custo da importação do gás natural, os Estados Unidos estão a importar hidrocarbonetos no valor de 700 milhões de dólares cada dia que passa.

E a Rússia a vender…
Pois é. A Rússia está a receber, por dia, 328 milhões de dólares pelas suas exportações de hidrocarbonetos.
Mas os Estados Unidos ainda têm outro problema, se assim se pode chamar. É que para assegurar a compra desses hidrocarbonetos no valor de 700 milhões de dólares, têm que manter uma poderosa força militar que proteja as origens das suas compras. O que deverá custar outro tanto. Enquanto a Rússia não gasta um cêntimo, pelo contrário. O oleoduto que a vai abastecer a China e o Japão é financiado por estes dois países e algumas multinacionais do sector.

É uma situação de desequilíbrio entre a Rússia e os Estados Unidos.
De desequilíbrio muito grande. Com a Rússia a permitir o desenvolvimento sustentado da China e, assim, com o eixo do poder a deslocar-se para a China e Rússia.

Em relação a Portugal e uma vez que não temos recursos naturais de petróleo, temos que investir nas chamadas energias renováveis? Estamos, nesse sentido, numa situação privilegiada?
Nós estamos numa posição muito boa pois temos água, sol e vento, e tudo mais ou menos de uma forma constante e equilibrada. Portanto, há que aproveitar e investir nessas energias renováveis e alternativas para que possamos reduzir a nossa factura do petróleo. Sobretudo na geração de energia eléctrica que pode ser obtida por recurso a outras origens energéticas.

E a energia nuclear? Não temos que equacionar essa hipótese?
Equacionar, talvez. Mas antes de mais temos que ter a preocupação de defender o ambiente global. Apesar de já existirem na Europa ocidental 146 unidades de energia nuclear, instaladas nos mais diversos países. Vejamos: grande parte dos materiais radioactivos têm sido acumulados no Árctico, nomeadamente os resultantes do desastre de Chernobyl, testes de bombas nucleares e consequências do reprocessamento das centrais nucleares europeias. A dimensão da espessura da calote de gelo do Árctico determinada pelos submarinos americanos em 1950 era de 3,1 metros. As observadas por satélite na década de 1990 indicam uma espessura média de apenas 1,8 metros. É demais. E perigoso.

E o petróleo que é explorado no Árctico?
Parece-me irreversível que os Estados Unidos e a Rússia continuem a extrair o petróleo do Árctico. Apesar das pressões ambientalistas.

Então o que podemos fazer, uma vez que a nuclear acarreta uma série de inconvenientes?
Devemos organizar a nossa vida de outra forma, de maneira a vivermos com o que temos. Esta dependência do petróleo tem que ser minimizada. Nós importamos cerca de 100 milhões de barris por ano. Com o barril a 70 dólares são 7 mil milhões de dólares anuais. De cada vez que o petróleo sobe dez dólares pagamos mais mil milhões de dólares. Até quando é que nós vamos conseguir poder pagar aumentos dessa ordem de grandeza?




Caixas

Que preço terá que atingir o barril de petróleo para que comecem a fluir os mega-investimentos requeridos pelo sector?

Perante a escassez de reservas comprovadas de petróleo bruto convencional e da capacidade de refinação disponível, é feito apelo a novo e substancial investimento no sector.
A não se realizarem investimentos de grande envergadura, envolvendo sectores a montante e a jusante, a produção mundial no ano 2020 será sensivelmente a mesma que se obtinha em 1980.
Porém, a população mundial atingirá quantidade aproximadamente dupla e muito mais industrializada, logo mais dependente do petróleo, do que em 1980. Portanto, a procura mundial por petróleo, ultrapassará largamente o seu ritmo de aumento de produção. Numa situação destas, os preços continuarão a subir incessantemente e as economias dependentes do petróleo para o seu desenvolvimento sustentado implodirão com os consequentes potenciais riscos de confrontações violentas.
Os efeitos consequentes de uma pequena quebra na produção produzem efeitos devastadores. Lembremo-nos que, durante os choques petrolíferos da década de 70, a redução da produção atingiu apenas os 5 por cento, causando a quadruplicação dos preços do petróleo convencional. Afortunadamente, a catapultagem desses preços foi temporária e passageira. Por isso foram chamados “choques”.
Segundo as estimativas de muitos analistas, o inevitável decréscimo de produção poderá atingir uma taxa de 8 por cento anuais, Outros até predizem reduções da ordem dos 10 a 13 por cento. Grande parte dos petrofísicos expressam a opinião de que o ano 2007 será o último ano da bonança do petróleo barato, o que conduzirá a uma maior escassez de combustíveis e a um severo aumento de bloqueamentos a começar entre 2008 e 2012.
As chamadas “alternativas” ao petróleo podem ser consideradas, de facto, actualmente como “derivativas”. Sem abundante e seguro abastecimento de petróleo, não parece ser possível alcançar estas alternativas em grau suficiente que energize rapidamente o mundo moderno.
Recordemos que, após uma primeira informação de possibilidade de existência de nova bolsa petrolífera, só as análises sísmicas que permitem determinar a estrutura dos jazigos (rochas-reservatório), quer em quantidade extraível quer em qualidade (densidade, taxas de enxofre, etc.), atingem encargos de não poucos milhões de dólares. Note-se que, actualmente, já se estão a realizar extracções a mais de 3 mil metros de profundidade.
A globalização da economia e a internacionalização das empresas, também poderá ter contribuído para o agravamento do consumo global de combustíveis, dado que os produtos percorrem grandes distâncias desde os locais de produção até chegarem aos mercados consumidores. Daí o recurso à deslocalização dos centros de produção para inserção em locais mais próximos dos consumidores finais.
À guisa do realce da urgência da implementação de novos desenvolvimentos, devemos salientar que são precisos, pelo menos, 12 anos desde a tomada de decisão até à obtenção de taxas correntes de produção a partir do petróleo pesado ou dos xistos betuminosos. Não considerando tempos de revisão do projecto para adaptação às constantes alterações das exigências ambientais a cumprir. Na mesma ordem de ideias, têm sido precisos 15 anos para a aprovação e construção de uma refinaria de processamento de petróleo pesado, mesmo tendo em conta um conhecimento tecnológico disponível e um perfeito respeito pelas normas ambientais. Apesar das esperanças postas no petróleo pesado e extra-pesado, deve ter-se em consideração que só apresentam soluções de satisfação a médio-prazo.

Insuficiente capacidade de refinação
O sector da indústria de refinação encontra-se em fase de transição, após ter sido sujeito a um longo período de redução real da sua capacidade.
O consumo manteve a tendência altista, ajudando a suportar o aumento do nível de actividade económica. O consumo aumentou, mas a capacidade de refinação viu-se reduzida. Constata-se, actualmente, uma crescente necessidade de capacidade adicional de refinação. Esta foi, pura e simplesmente, ajustada aos novos níveis de procura do produto que se seguiram aos choques dos preços e conduziram aos consequentes ajustamentos políticos e económicos.
As condições da indústria de refinação foram muito favoráveis durante vários anos. Durante os dois anos que se seguiram ao conflito do Golfo Pérsico, os custos foram facilmente previsíveis, dado que os preços do crude se mantiveram relativamente estáveis. Logo, quando os preços voltaram a cair, os custos do abastecimento baixaram e aumentaram as margens. Porém, a procura continuou a aumentar dinamizada pela expansão económica, particularmente nos países em desenvolvimento.
A indústria refinadora encontra-se perante a evidente necessidade de satisfazer as novas exigências do mercado e de encontrar adequadas localizações para novas instalações.
Dado que a construção de capacidade adicional exige elevados custos financeiros, é crítico que os planos de expansão cumpram a capacidade requerida e o tempo em que decorram.
A localização de novas unidades também apresenta questões críticas, tendo em atenção que grande parte das localizações consideradas adequadas estão sujeitas a regulamentações ambientais muito severas que as tornam muito onerosas e exigem muito tempo para conseguir alcançar a desejada e requerida capacidade adicional. Os maiores desafios continuam a estar situados no sector a jusante da cadeia produtiva. A crescente preocupação posta nas questões ambientais conduziram a uma proliferação de novas regras e regulamentações que exercem uma muito elevada pressão nas operações a jusante. Porém, o cumprimento das novas regras requer grandes investimentos. Acresce a necessidade de resposta à igualmente crescente procura de um conjunto muito diversificado de produtos refinados. É perfeitamente compreensível que o desenvolvimento do sector a jusante se tenha tornado muito difícil de perspectivar.
Espera-se que se operem, entretanto, alterações e ajustamentos significativos no sector a jusante. O aumento da procura choca com a particularidade das preocupações ambientais. A localização da necessária adicional capacidade de refinação que satisfaça o incessante aumento da procura, constituirá a maior preocupação no próximo futuro.
Saliente-se a preocupação dos Estados Unidos nesta matéria: o Presidente Bush anunciou em finais do passado mês de Abril a decisão de agilizar e facilitar o licenciamento de novas refinarias.


in Executive Digest
Junho.2006