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terça-feira, 28 de abril de 2009

Comecemos por evidenciar a dependência manifestada por numerosos países, na sua incessante busca de novas e mais seguras origens de bens energéticos, indispensáveis à manutenção do seu tecido socioeconómico.
As populações reclamam o direito à energia!
De forma mais equitativa e mais razoável.
Após tanto tempo e tanto esforço consumidos, ainda não dispõem de instrumentos jurídicos que lhes outorguem esse direito.
Constata-se, imediatamente, que, quer a Carta da Organização das Nações Unidas, quer a Declaração Universal dos Direitos Humanos são omissas quanto à reclamação desse direito.
Como esteve, igualmente omisso, em anteriores tentativas de fundamentação de direitos humanos.
Nas seguintes tentativas encontramos o projecto do Pacto dos Direitos Humanos, proposto pela Comissão, em Janeiro de 1955, em que já se afirmava que “O direito dos povos à auto-determinação também deve incluir permanente soberania sobre a sua riqueza e recursos naturais. Um povo não poderá, em nenhum caso, ser desprovido dos seus próprios meios de subsistência com base em direitos que possam ser reclamados por outros Estados.”
Porém, esta proposta foi alterada, passando a conter os termos que, aparentemente, permitiram atingir os objectivos pretendidos:
“Os povos podem, para os seus próprios fins, dispor livremente das suas riquezas e recursos naturais, sem prejuízo das obrigações que surjam da cooperação económica internacional baseada no princípio do mútuo benefício e no direito internacional. Um povo, não pode, em nenhum caso, ser desprovido dos seus próprios meios de subsistência”.
Note-se que a definição de meios de subsistência continuou a não incluir a energia como meio de subsistência básico. Mas parece de relevante importância ver como foi evoluindo o direito à soberania sobre os recursos naturais e em que sentido se foi orientando.
O princípio da soberania permanente sobre recursos naturais tem sido enunciado e reafirmado num conjunto de Resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas.

...

Em face deste panorama e à luz do Direito Internacional Público, seremos obrigados a conjugar as diferentes fontes energéticas disponíveis, utilizá-las racionalmente e compaginar ambiente mais limpo com desenvolvimento económico.
No equilíbrio das várias opções a tomar, residirá o bem-estar da civilização, tal como a conhecemos.
© J. Caleia Rodrigues
http://coisasdopetroleo.blogspot.pt

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

No segundo painel da manhã da Expo Energia, José Caleia Rodrigues, especialista em questões petrolíferas, referiu que a crise energética «é fonte de instabilidade interna e de insegurança», acrescentando que «os Estados têm a obrigação de garantir o direito de acesso à energia antes que a carência gere conflitos armados».

Para isso, disse Caleia Rodrigues, é necessário alterar os actuais padrões de produção e consumo energético nos países desenvolvidos, que «não poderão continuar por muito mais tempo». O especialista vincou que «a imitação destes padrões por parte dos países em desenvolvimento irá causar irreparáveis danos».

Ambiente online
Paula Malheiro
2008-11-25

domingo, 14 de dezembro de 2008

No segundo painel da manhã da Expo Energia, José Caleia Rodrigues, especialista em questões petrolíferas, referiu que a crise energética «é fonte de instabilidade interna e de insegurança», acrescentando que «os Estados têm a obrigação de garantir o direito de acesso à energia antes que a carência gere conflitos armados».

Para isso, disse Caleia Rodrigues, é necessário alterar os actuais padrões de produção e consumo energético nos países desenvolvidos, que «não poderão continuar por muito mais tempo». O especialista vincou que «a imitação destes padrões por parte dos países em desenvolvimento irá causar irreparáveis danos».

Ambiente online
Paula Malheiro
2008-11-25

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Comecemos por admitir que a energia assumiu uma posição dominante na extensa agenda política económica, demasiado rapidamente para que permitissem ser encontradas vias de estabilização. Apresenta-se, nas suas várias formas, como símbolo de desenvolvimento económico e, ainda mais, de riqueza e prosperidade. Consequentemente, o acesso e o controlo dos recursos energéticos constituem uma preocupação central dos governantes e de todos aqueles que se encontram envolvidos em processos de produção industrial.

As disponibilidades são abundantes, mas apresentam-se desigualmente distribuídas entre países e povos, mesmo dentro das suas próprias fronteiras políticas, raramente coincidentes com fronteiras naturais.
Os actuais padrões de produção e de distribuição vigentes nos países ditos industrializados, muito provavelmente não poderão continuar a ser mantidos por muito mais tempo e a tendência para a imitação por parte dos outros irá causar irreparáveis danos ecológicos.
A incessante procura de mais recursos energéticos pelos grandes consumidores provocaram profundas alterações que forçaram a economia industrial mundial a depender ainda mais das limitadas fontes de energia.

...
...

J. Caleia Rodrigues
Oeiras, Tagus Park
25.Novembro.2008

domingo, 25 de maio de 2008

Nota de abertura da Conferência

Em primeiro lugar devo saudar e louvar os promotores deste Forum por esta oportuna iniciativa.
O convite para vir moderar o painel denominado “Da crise do petróleo à oportunidade das energias alternativas” constituiu para mim um privilégio que vou tentar merecer.
Isto, porque, nestas matérias, sou um activo incitador e hoje vejo-me a desempenhar o papel de moderador.
No que se refere à indicada “Crise de petróleo” que constitui a primeira parte do título desta mesa redonda, sinto-me na obrigação, para ser coerente em relação ao que tenho dito e escrito, de apresentar a minha posição, partilhada por muitos outros analistas desta matéria: nem o sector nem o mercado petrolíferos atravessam uma crise.
Uma crise é algo de passageiro ou transitório.
A situação aparenta um fim de ciclo que se caracterizou por uma suficiente capacidade extractiva instalada no sector e um regular abastecimento ao mercado.
É por demais evidente a dependência económica configurada por numerosos países, na sua incessante busca de novas e mais seguras origens de bens energéticos, indispensáveis à manutenção do seu tecido social e económico.
O que os torna estratégicos é a sua influência na soberania e na segurança nacionais.
A energia assumiu uma posição dominante na extensa agenda política económica.
Apresenta-se, nas suas várias formas, como símbolo de desenvolvimento económico e, ainda mais, de riqueza e prosperidade.
O acesso e o controlo dos recursos energéticos constituem uma preocupação central dos governantes e de todos aqueles que se encontram envolvidos em processos de produção industrial.
A situação colocada em torno da disponibilidade e entrega de petróleo ao mercado está na ordem do dia.

Podemos enumerar a acumulação de constrangimentos exógenos a que o sector foi sujeito, de entre os quais se podem salientar:
· a duplicação da população mundial tendente para explosão demográfica, dado que passou dos 3 para os 6 mil milhões de habitantes em apenas 40 anos;
· o aumento desmesurado do consumo de combustíveis fósseis;
· as constantes e sucessivas pressões geopolíticas que têm colocado o sector petrolífero em permanente instabilidade.

Mas também encontramos muitos factores dentro do próprio sector, que provocaram grandes constrangimentos, tais como:
· O encerramento de inúmeros poços de extracção, não totalmente substituídos por outras novas explorações. Só nos Estados Unidos, dos cerca de 1.500 poços em actividade no início da década de 1980, só estão actualmente em actividade 560.
· O sector da refinação foi submetido a idêntico processo, nalguns casos devido à exigência de adaptação ás novas regras ambientais. Enquanto, no início da década de 1980 se dispunha de uma capacidade de refinação superior ao consumo em cerca de 25 por cento, situa-se, actualmente, em valores muito próximos dos do consumo. Ou seja, o sector da refinação dispõe apenas, actualmente, de uma margem mínima de capacidade para acomodar mais aumentos de produto a entregar ao mercado.
· o arrefecimento do investimento no sector petrolífero durante as décadas de 1980 e 1990, em toda a cadeia petrolífera, desde a sondagem e detecção de novas bolsas petrolíferas, abertura de novas extracções ou da construção de novas e mais adequadas refinarias.

Encontramo-nos hoje perante opções a tomar, que não podem continuar a ser adiadas, sob pena de nos vermos, a curto prazo, numa situação de carência generalizada, de consequências muito difíceis de ultrapassar:
· Se os preços do barril de petróleo forem colocados de tal modo baixos que os tornem acessíveis às economias débeis e dependentes da importação do petróleo para satisfazer as suas necessidades energéticas, desmotiva o investimento em novas descobertas e novas produções. Logo, o produto escasseará e provocará tomadas de posição que podem conduzir a conflitos de imprevisível dimensão.
· Se os preços forem colocados a um nível que incite o investimento, corre-se o risco do esmagamento global das economias dependentes, inclusivamente das ocidentais europeias e das norte-americanas.
Recordo que os países da União Europeia, dependentes da importação de petróleo, pagaram cerca de 240.000 milhões de dólares o ano passado e os Estados Unidos, nada menos do que cerca de 300.000 milhões. Qualquer subida substancial no valor do barril de petróleo provocará grande agitação nas suas economias.
Daí a necessidade imperiosa da racionalização dos consumos do petróleo, da eficiência energética e do crescente recurso à utilização das energias alternativas.
Para isso aqui estamos hoje, para ouvir o que têm para nos dizer alguns dos maiores players nesta estratégica e sensível matéria.

J. Caleia Rodrigues
Hotel Meridien, Lisboa

domingo, 11 de maio de 2008

Vou ter que começar por apresentar (mesmo que de forma muito sucinta) uma panorâmica global do sector energético e petrolífero, para, de seguida, abordar os pontos quentes relativos à insuficiência das reservas declaradas e do imparável aumento do consumo, reais motivadores da exigência dos colossais investimentos que irão permitir continuar a manter os níveis de satisfação do abastecimento do mercado.


Admitamos, como dado adquirido, que o petróleo é um produto muito complexo.
Comporta todos os ingredientes para se apresentar como:

uma matéria-prima estratégica
uma poderosa arma diplomática
mas também e cada vez mais importante
um produto financeiro

Ao assumir uma participação de quase 40 por cento no consumo mundial de energia primária é, indubitavelmente, uma matéria-prima estratégica, intimamente ligada ao desenvolvimento económico dos Estados e ao bem-estar das sociedades.
Mais de trinta anos depois do impacto produzido pela deflagração da crise de 1973 na política internacional, o petróleo mantém-se como produto estratégico crítico, na esfera do equilíbrio do poder e do equilíbrio político internacional global.
Claro que também constitui uma importante arma diplomática. Quando os produtos estratégicos têm que ser obtidos fora do Estado, as ameaças à segurança dos abastecimentos podem ser classificadas como factores que envolvem a segurança nacional.
Não temos qualquer espécie de dúvida que se trata, igualmente, de um produto financeiro. São diariamente transaccionados mais de 40 milhões de barris de petróleo.
O que quer dizer que mudam de mão, diariamente, mais de 4 mil milhões de dólares.


Quando o seu valor unitário sofre um aumento de 1 dólar, significa para os Estados Unidos um agravamento de mais de 12 milhões de dólares na sua balança de transacções diárias e para a Federação Russa um encaixe de cerca de 7 milhões.
Cada dia que passa.
No domínio político e estratégico, a arma económica parece confirmar a sua eficiência e impacto, caracterizadores da maioria dos conflitos actuais de nível regional, principalmente no seio de países economicamente menos desenvolvidos, mas que disponham de recursos de altíssimo valor económico e estratégico para os industrializados.


O aumento de população, não propriamente explosão demográfica mas caminhando nesse sentido, e uma irresponsável promoção do consumo de energia, exigiram que o petróleo respondesse rapidamente a essas pressões e assumisse o difícil papel de principal origem de energia comercializável.
O impacto na procura mundial de petróleo pode ainda ser mais dramático se, ao que tudo indica, se mantiver o forte aumento do consumo na China e na Índia. Basta reparar que a China se tornou num importador líquido, em 1993, data em que o consumo ultrapassou, pela primeira vez, a produção própria e a sua auto-suficiência.


A China ocupa, actualmente, o 2º lugar no ranking dos maiores importadores mundiais, com nada menos do que 7 milhões de barris diários.
Só ultrapassada, nessa qualidade de grande importador, pelos Estados Unidos.
E a Índia tem acompanhado esse desmesurado aumento das importações.
Sinal muito positivo apresentam a Alemanha e o Japão, que têm mantido, praticamente estabilizadas, as suas importações.

Tendo em conta o aumento populacional e o desenvolvimento económico previstos pelas Agências internacionais, o mercado exigirá um aumento da entrega de petróleo bruto, na ordem de mais 50 milhões de barris diários ao atingir o limiar do ano 2030.

Deduzimos quem o irá consumir!
Mas donde irá ser extraído? Quem o irá extrair?

O exigível substancial aumento da entrega do produto ao mercado envolve mais prospecção e incremento da produção em novas descobertas, meios de transporte e redes de distribuição, a exigir os correspondentes investimentos requeridos para a sua adequada realização.


Note-se que o sector dos transportes (rodoviários, aéreos e marítimos) consome, actualmente, cerca de 52 por cento da produção mundial. Há 30 anos só consumia 45 por cento.
Tem sido exercido um grande esforço para conseguir meios de transporte menos “glutões”, ao mesmo tempo que se têm desenvolvido as origens alternativas para geração de energia eléctrica, responsável por uma boa parte da restante produção.

No entanto, é importante sublinhar que o aumento da produção que tem respondido ao aumento da procura, foi conseguido à custa do aumento da extracção em poços de alta rentabilização comercial, dado que a quantidade de poços em actividade foi drasticamente reduzida.

Surgiram, porém, novos actores na cena internacional, dependentes do petróleo para dar continuidade aos seus programas de desenvolvimento, que se sobrepuseram às economias industrializadas, imediatamente relegadas para lugar secundário na ordem das prioridades a satisfazer.



Se surgiram novos grandes importadores, também surgiu a Rússia a voltar a disputar a liderança do mercado à Arábia Saudita, baseada nos seus imensos campos petrolíferos recentemente activados, localizados no Árctico, na margem ocidental dos Urais, na Sibéria Oriental e na Ilha Sacalina.

No entanto, os indicadores Risco País elaborados pelas agências especializadas, colocam os dois países em situação muito diferente.
Enquanto a Arábia Saudita é classificada como país de “quite low risk”, a Federação Russa é classificada como país de “moderately high risk”.
Esta classificação não tem causado grandes dificuldades na captação de investimentos para o programa de desenvolvimento do sector petrolífero russo, tendo em consideração os recentes enormes investimentos aí realizados, pelos Estados Unidos, pelo Japão, pela China e até pela própria Arábia Saudita.


A Rússia, na sua renovada qualidade de superpotência energética, admitiu resolver o deficit chinês, indispensável à sustentabilidade da sua actual taxa de desenvolvimento económico, com a construção do oleoduto que liga os campos petrolíferos da Sibéria Oriental aos chineses de Daking, numa extensão de 2.400 quilómetros, para o fornecimento médio diário de 1,6 milhões de barris.
Por outro lado, para satisfazer igualmente a pretensão japonesa, o ex-Presidente Russo Vladimir Putin garantiu, no início do ano passado, que a construção da primeira fase do oleoduto Tayshet-Nakhodka iria ser iniciada no decurso desse Verão.
A culminar os doze anos de maratona negocial do percurso dos oleodutos, todos os três países intervenientes saíram satisfeitos.
Desta forma, quer a China, quer o Japão, vêem os seus interesses assegurados pela Rússia e obtêm a garantia de receber os pretendidos e desejados abastecimentos a partir do petróleo siberiano.

A estratégia russa não esqueceu os interessas ocidentais, se bem que em menor escala com a instalação do citado oleoduto, que também permitirá exportar petróleo siberiano para a costa ocidental dos Estados Unidos.
O Governo russo anunciou que pretende continuar a desenvolver fortemente o seu sector de hidrocarbonetos, dado que constitui cerca de 55 por cento das suas exportações e o acréscimo dos impostos cobrados, graças à alta dos preços pós-2004, garantem suporte ao forte incremento das suas despesas sociais e de Defesa.
Dado que a capacidade das suas principais vias de escoamento das exportações se encontra praticamente esgotada, o esforço de investimento está dirigido aos transportes, quer terrestres quer marítimos.
Impõe-se a construção de novos oleodutos, a começar pelo que encaminhará o petróleo siberiano para o Porto de Murmansk, de exportação para os Estados Unidos, a um custo estimado de cerca de 6 mil milhões de dólares.
De idêntica importância o que abastecerá a China e o Japão, a um custo de 32.000 milhões de dólares.
De realçar a decisão da construção de uma frota de quebra-gelos para transitar na região do Árctico, cuja entrada em serviço está prevista para 2020, com custos a ultrapassar os 3 mil milhões de dólares.


Na outra ponta do vector, em casa do maior consumidor mundial, os Estados Unidos, verifica-se que a situação não é brilhante, dado que passaram de leader do mercado, a rapidamente dependentes da importação de nada menos do que dois terços das suas necessidades correntes.
Basta ver que tinham em actividade quase 1.500 poços no ano 1980 e apenas 560 no ano 2000. A partir desta data foi retomada a actividade nalguns deles e iniciadas algumas poucas novas explorações.


O último estudo publicado pela EIA revela a existência de petróleo bruto convencional no Arctic National Wildlife Refuge, actualmente fora dos limites de exploração, em quantidades entre os 5,7 e os 16 mil milhões de barris em depósitos jazentes naquela zona.
Porém, esta alternativa constituída pela exploração do Árctico, choca frontalmente com os interesses ambientais da região, ainda não resolvidos.


Entretanto, a alta dos preços do petróleo convencional já deu mostras de consequências consideradas muito positivas para os estados Unidos.
Pelo menos teve o mérito de ter impulsionado investimento em projectos anteriormente considerados sem interesse.
Cabe neste âmbito o lançamento do Jack Field Project, para extracção numa considerável nova bolsa petrolífera localizada em águas profundas do Golfo do México, com investimento próximo dos 100 milhões de dólares.
A bolsa que aparenta conter cerca de 15.000 milhões de barris, encontra-se a uma profundidade de 8.450 metros.
A detecção das quantidades só foi possível, graças à utilização de imagens sísmicas 3D, de avançadas fórmulas matemáticas e de novas tecnologias de interpretação das imagens, que tornaram possível conhecer o potencial desta bolsa e de outras novas descobertas de petróleo e de gás em grandes profundidades oceânicas.

A extracção será realizada com recurso a plataformas flutuantes de última geração, que poderão suportar os rigores das tempestades que frequentemente ocorrem na região e que permitirão perfurar mais profundo que as suas predecessoras.

No tocante à União Europeia, é por demais conhecida a sua dependência no que se refere a combustíveis.
Será de realçar que já viu minorada a sua dependência do Médio Oriente com a entrada em serviço da chamada “Ponte energética Este-Oeste” em Julho do ano passado, constituída pelo oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan, que transporta petróleo bruto desde o Mar Cáspio até ao Porto turco mediterrânico de Ceyhan, com capacidade de transporte de 1 milhão de barris/dia,
Este oleoduto constitui uma importante alternativa de fornecimento à Europa Ocidental, com uma mais elevada garantia de segurança.
Também estão a ser envidados grandes esforços dirigidos a um maior aumento da segurança de abastecimento com o lançamento das acções do Projecto INOGATE para o período 2007-2013.


Este Programa que pretende actuar como catalizador de atracção de investidores privados e de instituições financeiras internacionais, foca um particular interesse na minimização da ameaça constituída pelos acidentes ocorridos no tráfego marítimo em águas circundantes da União Europeia e no fechado Mar Negro.

Porém, no conjunto de constrangimentos a ultrapassar à escala mundial, procede a considerável questão de como conciliar o inevitável e continuado aumento do consumo, com os imperativos ecológicos e ambientais.

Caso paradigmático é o conflito de interesses presentes na manifesta vontade de extracção dos imensos recursos disponíveis no Árctico ou a construção premente e urgente de novas e mais adequadas refinarias.
Se a capacidade de refinação se encontrar extremamente apertada em relação à procura, pode-se atingir uma disrupção da disponibilidade de refinação, com a agravante de que o futuro natural aumento da procura pode provocar uma situação de engarrafamento em que os mais valiosos petróleos são refinados primeiro e os menos valiosos serão marginalizados, conduzindo a uma ainda maior diferenciação.


Além de que numerosos países que dispõem de amplos campos petrolíferos comprovados, estão impedidos de exportar as suas potenciais produções por não disporem de adequadas vias de escoamento:
oleodutos e instalações portuárias.
Recorde-se que o custo médio da construção de um oleoduto é equivalente ao de uma auto-estrada. Cerca de 5 milhões de euros por quilómetro.
Mas vejamos com o que podemos contar do lado da oferta em resposta aos previsíveis aumentos do consumo.


As previsões da IEA apontam para um aumento do consumo idêntico ao registado nos últimos 50 anos: Cerca de 2 por cento ao ano.
Se não for aplicado um forte “travão” a este consumo desenfreado e aplicadas medidas drásticas e eficazes, estaremos a consumir, no ano 2025, cada dia que passa, quase 120 milhões de barris!


Porém, as descobertas e a sua correspondente declaração, após terem registado substanciais aumentos, quase estagnaram a partir do ano 2002.
Foi a partir desta data que se verificou um fortíssimo aumento dos preços de mercado. De facto o valor do barril, de transacção em Bolsa, passou dos 26 dólares nessa data, para os actuais mais de 120. Mais do que quadruplicaram.


Partindo dos dados disponíveis, as reservas declaradas, consideradas comprovadas, apenas dariam para mais 30 anos de consumo.
E as restantes, consideradas prováveis, apenas dariam para mais 50 anos. E a que preço!
A partir desta data não seria possível extrair nem mais um barril.
Se se conseguisse tecnologia que permitisse a sua última extracção.
As novas descobertas que garantam o fluxo exigível de sustentação do mercado, envolvem prospecção, extracção, transporte e refinação, a exigir os correspondentes colossais investimentos indispensáveis à sua realização.
Para a alternativa constituída pelo petróleo bruto não-convencional acresce o seu oneroso processamento para obtenção de petróleo sintético.


Tem-se conhecimento da vontade, ou de decisões já tomadas, da implementação de grandes projectos em todos os grandes produtores, virados para o aumento da extracção de maiores quantidades ou pelo menos, para a manutenção das actuais, como declarado na última reunião da OPEP realizada no passado mês de Março.
Nem sempre fácil de conseguir, já que as grandes bolsas em exploração apresentam sinais de forte declínio e esgotamento.


Aliás, a taxa de declínio que se está a registar nos maiores campos petrolíferos, em actividade há muitos anos, é muito preocupante, dado que não se vislumbram novas grandes explorações, pelo menos de dimensões idênticas às que existiram no passado.


A decisão da Saudi Aramco em avançar com o megaprojecto destinado ao aumento da sua capacidade produtiva reflecte a preocupação saudita e a sua vontade de recuperação do tempo perdido. Pretende o rápido desenvolvimento do seu campo petrolífero Khurais, através da abertura de 300 poços em 23 novas instalações já identificadas.
O valor a investir neste projecto atinge os 3 mil milhões de dólares, para conseguir passar a actual extracção de 300.000 barris diários que se estão a extrair nesse campo, para um patamar de 1,2 milhões, a partir do próximo ano.
Este campo não se compara, em dimensão com o grande Ghawar, mas tem sido afirmado conter petróleo de muito boa qualidade.
O projecto inclui a construção de 4 instalações de tratamento e injecção de água do mar, com uma capacidade de produção de 4 milhões diários de barris de água a injectar na bolsa petrolífera.


As principais razões apontadas, justificativas do forte declínio iraquiano registado nos últimos anos, seria o fecho de campos devido a insuficiência de água para injecção e a sua inadequada gestão.
Tem sido recentemente muito acentuado que os depósitos iraquianos, especialmente os localizados no sul do país, são de grande dimensão, elevada qualidade e em estado relativamente imaturo nos seus ciclos de extracção.
O facto é que os depósitos comprovados iraquianos atingem, oficialmente, os 112 mil milhões de barris. Admite-se que possam atingir os 300, enquanto os declarados pela Arábia Saudita ficam-se pelos 265.
Se confiarmos nessas afirmações teríamos que aceitar que as reservas petrolíferas iraquianas seriam superiores às sauditas, consideradas correspondentes a um quarto do total mundial.
Só o lançamento de novos programas de desenvolvimento poderia catapultar a produção iraquiana actual de 2 milhões de barris diários para uns possíveis 3,5 milhões.
Para tanto serão indispensáveis vultosos investimentos e a participação de peritos altamente especializados:
40.000 milhões de dólares iniciais para desenvolvimento de campos petrolíferos já referenciados e ainda não operacionais, seguido de mais 10.000 milhões de dólares para o programa de exploração.

Enquanto a Arábia Saudita e a Federação Russa dominam e continuarão e dominar o mercado do petróleo convencional (o petróleo leve), a alternativa de continuidade de satisfação da procura constituída pelos petróleos pesados, extra-pesados e betumes, ainda muito modestamente aproveitados, é assumida, na sua quase totalidade, pela Venezuela e pelo Canadá.

Estas 4 superpotências energéticas – Arábia Saudita, Federação Russa, Venezuela e Canadá - poderão vir a constituir o núcleo dominante do mercado dos combustíveis hidrocarbonetos à escala mundial:
as duas primeiras nos petróleos leves (o petróleo convencional) e as outras duas nos petróleos ditos não-convencionais).



A sua crescente importância reside no facto de equivaler a cerca de 70 por cento do petróleo bruto ainda existente no mundo.
De acordo com as estimativas avançadas pela International Energy Agency, admite-se que existam no mundo 8 a 9 milhões de milhões de barris de petróleos não-convencionais, dos quais 900 mil milhões poderão ser comercialmente explorados com recurso à tecnologia actualmente existente.
Apesar das suas imensas disponibilidades, só acrescentaram 3 mil milhões de barris anuais, aos mais de 26 mil milhões de petróleo bruto leve, actualmente produzidos. Pouco mais de 10 por cento.
O grande óbice à utilização maciça dos petróleos brutos não-convencionais, reside nos elevados custos de extracção e do processamento que os convertam em petróleo sintético.
Há que ter em conta que a extracção do petróleo não-convencional exige tecnologia e onerosos acrescidos recursos específicos: água e energia abundantes que garantam a injecção de vapor de água nas jazidas. São, geralmente upgraded para lhes reduzir os componentes carboníferos ou para lhes adicionar hidrogénio, antes de os entregar às refinarias convencionais.
Os custos adicionais de processamento e upgrading explicam as razões pelas quais o desenvolvimento dos petróleos pesados ainda se encontrar tão limitado.
Contudo, o aumento das taxas de recuperação de depósitos destas qualidades de petróleo, representa o desafio mais importante que se nos apresenta a curto e médio prazos.


No caso do Canadá, recentemente auto-assumido oil country, trata-se do aproveitamento de areias betuminosas a céu aberto, disponível em grandes quantidades no Athabasca, cujos valores estão estimados em cerca de 2,4 milhões de milhões de barris, dos quais só 175 mil milhões poderão ser processados com a tecnologia actualmente disponível.
A Energy Alberta Corporation acaba de lançar a construção de uma central nuclear de reactores gémeos, projectada para entrar em serviço em 2016, para abastecimento da energia eléctrica necessária ao processo de extracção e processamento.
A produção canadiana actual de petróleo sintético a partir desta qualidade, atinge 1 milhão de barris/dia, prevendo-se que possa vir a atingir os 3 milhões em 2020, com hipótese de chegar aos 5 milhões em 2030.
A quantidade de energia requerida para a produção de 1 barril de petróleo bruto sintético corresponde a 1/3 da energia contida num barril de betume, o que torna as operações de areias betuminosas numa enorme fonte emissora de gases com efeito de estufa.
O projecto depende significativamente da abundância de água disponível.
A produção de um barril de betume ou de petróleo sintético também requer, além da enorme quantidade de energia, cerca de 10 barris de água para as operações de mineração superficial e de 3 barris para geração de vapor in situ. Apesar da maioria da água utilizada ser reciclada, são requeridos mais cerca de 20 por cento de reposição, o que envolve preocupação acerca da sua conservação e sustentabilidade.
O que significa que virão a ser utilizados, diariamente, mais de 10 milhões de m³ de água, dos quais 2 milhões de m³ serão diariamente consumidos. Ao fim de um ano de normal laboração, terão sido consumidos mais de 700 milhões de m³ de água limpa. Para obtenção de 5 milhões de barris diários de petróleo sintético.
O investimento anunciado, para aplicação neste projecto integrado, ultrapassa os 50.000 milhões de dólares.


Na Venezuela (membro da OPEP e já um grande exportador de petróleo bruto convencional), trata-se das areias betuminosas situadas na Faixa Petrolífera do Orinoco, estimadas em mais de 2,2 milhões de milhões de barris.
Neste particular, os recursos venezuelanos beneficiam da localização na região do Rio Orinoco, onde foi construída, nos finais da década de 70, a mega-barragem e a Central Hidroeléctrica do Guri, com uma potência eléctrica instalada de 10.000 Megawatt (MW) que garante abundante energia para a sua extracção e o processamento.


Encontramo-nos, então, perante opções a tomar, que não podem continuar a ser adiadas, sob pena de nos vermos, a curto prazo, numa situação de carência generalizada, de consequências muito difíceis de ultrapassar, a exigir investimentos maciços em novos projectos de desenvolvimento em toda a cadeia produtiva.


Nesta linha de orientação, a Agência Internacional da Energia apresentou no seu Energy Outlook, em 2006, a estimativa de 20 milhões de milhões de dólares, como montante a investir no sector energético durante os seguintes 25 anos, dos quais um mínimo de 4 milhões de milhões a aplicar no sector petrolífero.
O seu Director Executivo acaba de corrigir este valor em alta, ao anunciar na abertura do 11º Fórum Internacional da Energia, realizado em Roma, no passado dia 21 de Abril, a necessidade de investimento de 22 milhões de milhões de dólares, dos quais 5,4 a aplicar no sector petrolífero.
Mais de 150.000 milhões de dólares de investimento por ano.
Em apenas 2 anos o valor de investimento exigido para o sector petrolífero aumentou nada menos que 35 por cento.
Não posso terminar sem reforçar que a futura geração de energia requererá níveis de investimento muito mais elevados do que os aplicados no passado, para compatibilização da satisfação da procura com as exigências ambientais, a descarbonização dos produtos energéticos e o acréscimo dos custos resultantes da implementação de reforçados sistemas da segurança das instalações de extracção e de transporte.
A nova dimensão de relações de segurança entre nações exportadoras e nações importadoras dependentes, resultará da interligação entre o investimento, a finança e o comércio.
Esta reorientação dinamizará um redobrado esforço focado na investigação e na detecção de oportunidades, quer de investimento quer de participação no desenvolvimento das estruturas do sector.

Muito obrigado pela atenção dispensada.

J. Caleia Rodrigues
Conferência proferida em:

O PREÇO DO PETRÓLEO:
Risk Management & Hedging for End Users

Mega-investimentos exigidos pelo sector petrolífero

Lisboa, 8 de Maio de 2008
Hotel Altis Park

Institute for International Research

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Em primeiro lugar devo saudar e louvar o Institute for International Reserch pela realização deste oportuno Fórum, num momento em que os responsáveis pelos mercados espanhóis e portugueses estão a envidar os maiores esforços no incremento da convergência que decidiram assumir.
O objectivo dos promotores insere-se na vontade de prosseguir numa colaboração cada vez mais estreita entre os dois países, dando continuidade às matérias acordadas nas Cimeiras bilaterais, ao proporcionar um fórum em que os key players possam manifestar as vantagens da cooperação e detectar os constrangimentos que eventualmente estejam a dificultar o seu desenvolvimento.

Quando defendemos uma maior utilização do gás natural (reconhecidamente o combustível fóssil cuja combustão tem menor impacte ambiental) parece-nos estarmos na via correcta.
Contrariamente ao petróleo bruto convencional que aparenta sinais de tendência para esgotamento a médio prazo, o gás natural apresenta-se com enormes disponibilidades.
A situação em que o sector do petróleo bruto convencional se encontra, manifesta um fim de ciclo que se caracterizou por uma suficiente capacidade extractiva e um regular abastecimento ao mercado.


Constata-se que o gás natural tem vindo a ser apresentado nas mais recentes análises, com o maior e mais rápido crescimento registado entre todas as origens de energia primária. E espera-se que venha a assumir uma ainda maior contribuição no incremento do consumo energético a ocorrer no mundo industrializado, com especial incidência nos Estados Unidos e na Europa ocidental.
A expansão apresentada por esta alternativa energética, assente em enormes reservas detectadas e comprovadas, deve-se sobremaneira à premente procura de combustíveis menos poluentes, diversificação e segurança estratégica.
Perspectiva-se que o seu consumo duplicará até ao ano 2020, nomeadamente como combustível mais limpo e eficiente a utilizar nas centrais termoeléctricas, em grande parte devido à maior eficiência conseguida nas novas turbinas, para além da rendibilidade económica, razões ambientais, diversificação de combustível, desregulamentação do mercado e estratégia de segurança energética.
Pode-se destacar que a descoberta de reservas de gás natural duplicaram durante os últimos 20 anos, ultrapassando largamente as de petróleo.
No entanto, a verdadeira dimensão das reservas mundiais não é facilmente mensurável e a sua declaração, quer provenha de países produtores quer de empresas do sector, suscitam fortes dúvidas, dado que os números oficiais das reservas estão longe de ser dados puramente científicos. Serão o reflexo de um património financeiro que pode ser valorizado ou depreciado conforme o seu interesse temporal.
Os sustos, ainda não esquecidos, provocados pelos choques petrolíferos de 1973 e de 1979 e consequentes agravamentos da factura dos hidrocarbonetos importados, obrigaram a repensar estratégias e fontes alternativas mais seguras, a par da indispensável estabilidade política e credibilidade, que garantam a salvaguarda de riscos políticos e comerciais.
As nossas economias têm recorrido ao gás natural com o objectivo de reduzir a sua dependência em relação ao petróleo, mas, tal como o petróleo, o gás natural também põe às economias ocidentais riscos de dependência geoestratégica.
Porém, vejamos:
Enquanto o consumo de energia primária total mundial aumentou 22 por cento nos últimos 5 anos, o consumo de gás natural aumentou 38 por cento.
Este desenvolvimento não apresentou a mesma evolução nos nossos mercados.
Enquanto em Portugal o início do consumo de gás natural ocorreu quando começou a receber o gás argelino, em 1997, através do gasoduto Magreb-Europa, via Marrocos e Espanha, já por essa altura se consumia em Espanha mais de 300 metros cúbicos anuais per capita.
Numa segunda fase do projecto português, foi construído um terminal de gás liquefeito em Sines, para recepção de navios metaneiros a partir do ano de 2003.
Neste particular pode-se salientar que a tecnologia da liquefação do gás natural está a criar um mercado mundial que se poderá assemelhar ao do mercado petrolífero, na medida em que permite uma oferta e um transporte à escala mundial que pode reduzir a dependência dos mercados regionais abastecidos por pipeline e contribuir, deste modo, para um processo de formação de preços autónomo do mercado petrolífero.
Nestes últimos 10 anos desenvolveram-se as infra-estruturas de transporte e de distribuição, de armazenamento subterrâneo e de recepção em terminal de gás natural liquefeito. Esta atitude de transposição dos princípios das Directivas do Parlamento Europeu e do Conselho, viabilizou a utilização do gás natural em Portugal como uma nova fonte energética e criou condições propícias à construção de um mercado livre e concorrencial de gás natural.

Contudo, a evolução dos consumos registada no último quinquénio, reforça a diferença ainda existente entre os dois mercados ibéricos:

Em Espanha manteve-se a opção gás natural, como testemunha o registado aumento de 60 por cento. Em Portugal, apesar de muito superior ao aumento médio mundial de 12 por cento, ficou-se em apenas 32 por cento.

Uma boa notícia para o sector português, foi o recente anúncio da decisão governamental em aumentar a potência eléctrica instalada, na ordem dos 50 por cento, nos próximos 10 anos, garantida pela instalação de novas unidades produtoras, de entre as quais se salienta a construção de 4 centrais termoeléctricas de ciclo combinado a gás natural.

Foram, também, dados passos muito importantes na via da liberalização da comercialização e abertura progressiva do mercado português.
Iniciada, em 1 de Janeiro de 2007, em relação aos centros electroprodutores, alargar-se-á, a partir de 1 de Janeiro de 2008, aos consumidores de um milhão ou mais de metros cúbicos de gás natural por ano, até atingir, progressivamente, todos os demais consumidores em 2010.

Espera-se que as actividades de comercialização de gás natural estejam inteiramente abertas à concorrência nesta data, ficando apenas sujeitas a um regime de licenciamento. Os comercializadores poderão comprar e vender livremente o gás natural no mercado aberto ou através de contratos bilaterais. No novo sistema, os consumidores poderão escolher o seu comercializador ou optar por outro comercializador sem quaisquer encargos adicionais.

Não me devo alongar mais, em considerações acerca destas matérias, quando estão aqui presentes os mais importantes players do mercado.
Renovando os votos da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola dos maiores sucessos para este 1º Fórum, vejamos o que tem para nos transmitir este conjunto de eminentes oradores.


MERCADO IBÉRICO DO GÁS NATURAL
1º. Fórum Ibérico
Lisboa, 06 e 07 de Novembro de 2007
Hotel Altis Park

Institute for International Research, IIR Portugal

Discurso de abertura da Conferência

Slide 1

É por demais evidente a dependência económica configurada por numerosos países, na sua incessante busca de novas e mais seguras origens de bens energéticos, indispensáveis à manutenção do seu tecido social e económico.
O que os torna estratégicos é a sua influência na soberania e na segurança nacionais.
A energia assumiu uma posição dominante na extensa agenda política económica, demasiado rapidamente para que permitissem ser encontradas vias de estabilização.
Apresenta-se, nas suas várias formas, como símbolo de desenvolvimento económico e, ainda mais, de riqueza e prosperidade.
Consequentemente, o acesso e o controlo dos recursos energéticos constituem uma preocupação central dos governantes e de todos aqueles que se encontram envolvidos em processos de produção industrial.
Contudo, a delapidação dos recursos globais tem sido excessivamente desigual e a distribuição dos recursos naturais vitais, não é equitativa nem razoável.
As disponibilidades são abundantes, mas apresentam-se desigualmente distribuídas entre países e povos, mesmo dentro das suas próprias fronteiras políticas, raramente coincidentes com fronteiras naturais.
Enquanto o aumento do conjunto populacional do mundo economicamente menos desenvolvido induz o aumento do consumo de recursos é, contudo, nos países economicamente desenvolvidos que se verifica maior delapidação. Os actuais padrões de produção e de distribuição vigentes nos países ditos industrializados, muito provavelmente não poderão continuar a ser mantidos por muito mais tempo e a tendência para a imitação por parte dos restantes irá causar irreparáveis danos ecológicos.
As actuações na incessante procura de mais recursos energéticos pelos grandes consumidores, provocaram profundas alterações, que forçaram a economia industrial mundial a depender ainda mais das limitadas fontes de energia.

Slide 2: Evolução da população mundial
Energia primária total mundial

Uma nota prévia: Os presentes estão habituados à leitura rápida de quadros estatísticos e analíticos, pelo que me permito dispensar a sua descrição e interpretação detalhada. Servirão apenas de suporte para ilustrar os dados relevantes sobre cada matéria em assunto.

Posto este reparo, retomemos as questões que nos trouxeram aqui.

Enquanto a população mundial quadruplicou desde 1900 até aos nossos dias, a energia industrial consumida per capita, apesar de desigualmente repartida, aumentou mais de sete vezes durante o mesmo período e a energia total consumida aumentou quase catorze vezes.
A explosão demográfica aliada à exigência da perpetuação dos altos níveis de vida conseguidos nos países ricos e à legitima pretensão de os atingir, reclamada pelos países pobres, introduziram inusitadas pressões no fornecimento estabilizado e continuado dos recursos naturais à escala mundial. Estas pressões provêm tanto da privação como das dimensões ecológicas do drama populacional, igualmente importantes na nossa concepção do mundo como população global.
O consumo dos recursos disponíveis e indispensáveis à manutenção do conjunto humano, continuou a aumentar, em muitas regiões, em ritmo superior ao aumento populacional.
Senão, vejamos: quando a população mundial atingiu os 4 mil milhões de habitantes no início da década de 1970, o consumo mundial de energia era de 5.500 milhões de toneladas equivalentes de petróleo.

A população aumentou 50 por cento até ao final do século, mas o consumo da energia quase duplicou.
Mesmo assim, a resposta energética ainda não satisfez as expectativas de melhoria das condições de vida e do esperado desenvolvimento económico à escala global.
Porém, as previsões para o período 2005-2025 também não são mais animadoras.
De acordo com os dados estatísticos do U.S. Census Bureau, a população mundial atingiu os 6 mil milhões de habitantes no início do ano 2000. Esta mesma entidade publicou que tinha ultrapassado os 6.500 milhões em Agosto de 2006.
Em termos de energia primária total, para um aumento de 33 por cento da população mundial, prevista para os próximos 20 anos, exige-se um aumento de 55 por cento no abastecimento.

O rápido aumento de população, não propriamente explosão demográfica, mas caminhando nesse sentido, exigiu que o petróleo respondesse à pressão e se tornasse na principal fonte mundial de energia comercializável.

Slide 3: Petróleo bruto convencional
Evolução do consumo mundial (anos 1969-2004)
Evolução das reservas comprovadas (anos 1969-2004)

O impacto na procura mundial de petróleo pode ainda ser maior se se mantiverem as expectativas do forte aumento do consumo esperado para a China e para a Índia a curto e médio prazo. Note-se que a importação chinesa de petróleo bruto convencional aumentou quase 18 por cento nos primeiros 6 meses deste ano (2006), relativamente ao período homólogo do ano passado (2005).
O petróleo tornou-se mercadoria-chave do comércio internacional e quando os consumidores pretenderam voltar a dispor de abastecimento seguro, não tiveram outra saída que não fosse a de criar condições sob as quais a “política petroleira” se pudesse desenvolver.
Na realidade, foi devido a esse processo que as políticas petroleiras foram colocadas no topo da agenda política mundial durante os anos 70 e 80. O que fizeram, reflecte a complexa interligação de tendências e acontecimentos em diferentes centros, envolvendo uma diversidade de agentes, tanto estatais, como não-estatais.

Ao mesmo tempo, o crescendo de nacionalismos no antigamente chamado Terceiro Mundo influenciou a atitude dos Estados produtores de petróleo que começaram a exigir maiores receitas e mais eficaz controlo dos seus recursos petrolíferos próprios.
Tendo em conta o aumento populacional e o desenvolvimento económico previstos, exige-se um aumento da entrega de petróleo bruto ao mercado, na ordem dos 30 milhões de barris diários ao atingir o limiar do ano 2025.

Deduzimos quem o irá consumir!
Mas donde irá ser extraído? Quem o irá extrair?

O substancial aumento da entrega do produto ao mercado envolve prospecção, extracção, transporte e distribuição, a exigir os correspondentes colossais investimentos indispensáveis à sua realização.
As reservas comprovadas têm vindo a aumentar, graças às novas descobertas realizadas ao longo do tempo e que têm sido sucessivamente declaradas, a uma taxa próxima da do aumento dos consumos.

Slide 4: Evolução do consumo mundial de petróleo
Quota por sector de utilização (Realizado e previsto)

Note-se que o sector dos transportes (rodoviários, aéreos e marítimos) consome, actualmente, cerca de 60 por cento da produção mundial, quando, 30 anos antes, só consumia 42 por cento.
Tem sido exercido um grande esforço para conseguir meios de transporte menos “glutões”, ao mesmo tempo que se têm desenvolvido as origens alternativas para geração de energia eléctrica, responsável por uma boa parte dos restantes 40 por cento.

No entanto, é importante sublinhar que o aumento da produção foi conseguido à custa do aumento da taxa de extracção em poços de alta rentabilização comercial, dado que a quantidade de poços em actividade tem vindo a ser drasticamente reduzida.
De realçar que, enquanto os Estados Unidos operavam em quase 1.500 existentes no ano 1980, passaram para apenas 560 em 2000. A partir desta data retomaram a actividade em mais alguns deles que tinham sido desactivados e iniciaram-se algumas novas explorações.
Surgiram, porém, novos actores na cena internacional: a China e a Índia, que comportam um terço da população mundial e estão dependentes do petróleo para dar continuidade aos seus programas de desenvolvimento.
Estes novos consumidores gigantes sobrepuseram-se às economias industrializadas que foram relegadas para lugar secundário na ordem das prioridades a satisfazer.

Slide 5: Petróleo bruto convencional - Maiores exportadores (2004)

Se surgiram novos grandes mercados consumidores dependentes, também surgiu a Rússia a disputar a liderança do mercado à Arábia Saudita, baseada nas suas imensas reservas recentemente activadas, localizadas no Árctico, na margem ocidental dos Urais, na Sibéria Oriental e na Ilha Sakhalin.
No entanto, os indicadores Risco País elaborados pela COFACE, colocam os dois países em situação muito diferente.
Enquanto a Arábia Saudita é classificada como país de “quite low risk”, a Federação Russa é classificada como país de “moderately high risk”.
Esta classificação não tem causado grandes dificuldades na captação de investimentos para o programa de desenvolvimento do sector petrolífero russo, tendo em consideração os recentes enormes investimentos realizados neste sector, pelos Estados Unidos, pelo Japão, pela China e até pela própria Arábia Saudita.
Admite-se, como dado adquirido, que ambos os governos são fortemente dependentes dos recursos gerados pelas suas exportações de hidrocarbonetos. De acordo com as publicações do Fundo Monetário Internacional, enquanto para a Arábia Saudita contribuem com 38 por cento para a formação do seu Produto Interno Bruto, valem apenas 17 por cento para Federação Russa.

Slide 6: Evolução das produções sauditas e russas

A Rússia que já detém a liderança incontestada do mercado mundial do gás natural com uma quota de 22 por cento, está em vias de conseguir idêntica posição no mercado do petróleo bruto, dado que pode vir a manter, a muito curto prazo, valores de produção próximas dos 10 milhões de barris diários, o que, na actualidade, corresponde a 12,5 por cento do total mundial produzido.
A produção petrolífera da Rússia tem superado ocasionalmente a da Arábia Saudita, nos últimos 25 anos. De acordo com os números divulgados pela OPEP e citados pela imprensa britânica, a Rússia produziu uma média de 9,2 milhões de barris por dia, durante o passado mês de Junho. Mais 46 mil do que a Arábia Saudita.
Apesar das reservas comprovadas do petróleo russo não serem tão abundantes como as sauditas e da sua extracção ser mais cara, são, porém, mais vastas do que geralmente se considera.

A Rússia, na sua nova qualidade de superpotência energética, admitiu resolver o deficit chinês, indispensável à sustentabilidade da sua actual taxa de desenvolvimento económico, com a construção do oleoduto que liga os campos petrolíferos da Sibéria Oriental aos chineses de Daking, numa extensão de 2.400 quilómetros, para o fornecimento médio diário de 1,6 milhões de barris.
Por outro lado, para satisfazer igualmente a pretensão japonesa, o presidente Russo Vladimir Putin anunciou, no início deste ano, que a construção da primeira fase do oleoduto Tayshet-Nakhodka seria iniciada no Verão deste mesmo ano.
A culminar os doze anos de maratona negocial do percurso dos oleodutos, todos os três países intervenientes saíram satisfeitos.
Desta forma, quer a China, quer o Japão, vêem os seus interesses assegurados pela Rússia e obtêm a garantia de receber os pretendidos e desejados abastecimentos a partir do petróleo siberiano.
A estratégia russa não esqueceu os interessas ocidentais, se bem que em menor escala com a instalação do citado oleoduto, que também permitirá exportar petróleo siberiano para a costa ocidental dos Estados Unidos.
Mas não se ficou por aqui, a capacidade de crescimento decidida pelo Governo russo.
O Presidente Vladimir Putin, reafirmou a sua decisão, no encontro realizado no Valdai Discussion Club, no início do passado mês de Setembro, de prosseguir com o programa de expansão do seu sector energético.

A continuação do aproveitamento dos recursos existentes na Ilha de Sakhalin (situada a paredes-meias com a fronteira norte do Japão), correspondente à declaração de reservas avaliadas em 45 mil milhões de barris de petróleo bruto convencional, irá por diante, reforçando o abastecimento dos mercados asiáticos em plena expansão económica.

Também é de relevante importância, o facto de se ter iniciado, em Agosto de 2003, a construção daquela que vai ser a maior petroquímica mundial de liquefacção de gás natural, localizada nessa mesma Ilha Sakhalin para processamento de parte dos 85 triliões de m³ de gás natural existentes na plataforma continental russa, para fornecimento de gás natural liquefeito ao Japão.
Para se avaliar a dimensão de tal projecto, basta atentar que o custo total da instalação da petroquímica e dos respectivos oleoduto e gasoduto que irão constituir a segunda fase do projecto Sakhalin, atingirá um valor próximo dos 10 mil milhões de dólares.
A actuação das forças do mercado dinamizaram uma transição operada no sector petrolífero russo que lhe permitiu não só desafiar a OPEP e a Arábia Saudita, como também captar a parte de leão da quota de crescimento da procura chinesa, indiana, japonesa e, eventualmente, até dos Estados Unidos, neste caso através de joint ventures.
Slide 7: Petróleo bruto convencional
Maiores consumidores (ano 2005)

Sublinhe-se que a situação actual do sector petrolífero dos Estados Unidos não é brilhante, dado que passou de leader do mercado, nos bons velhos tempos, a rapidamente dependente da importação de nada menos do que dois terços das suas necessidades actuais.
O último estudo publicado pela Energy Information Administration revela a existência de petróleo bruto convencional no Arctic National Wildlife Refuge, actualmente fora dos limites de exploração de petróleo, em quantidades entre os 5,7 e os 16 mil milhões de barris em reservas jazentes naquela zona.
Contudo, a alternativa constituída pela exploração do Árctico choca frontalmente com os interesses ambientais da região, ainda não resolvidos.

Slide 8: Quantidade de poços em actividade e produção diária

Os Estados Unidos apesar de terem vindo a reduzir drasticamente a quantidade de poços em actividade, extraem uma média de 6,8 milhões de barris diários dos cerca de 560 poços activos, enquanto a Arábia Saudita extrai 11 milhões de apenas 53 poços e a Noruega quase 3 milhões de 19 poços. É por demais evidente que os custos de extracção por barril terão que atingir valores muito diferentes.

Slide 9: Petróleo bruto e gás natural
Estados Unidos e Federação Russa

Por outro lado, enquanto os Estados Unidos suportaram, em 2005, um custo diário médio de cerca de 759 milhões de dólares de importações de petróleo e de gás natural, a Federação Russa encaixou um valor diário médio de mais de 400 milhões de dólares em resultado das suas exportações.
Em balanço anual, os Estados Unidos pagaram mais de 300 mil milhões de dólares pelas suas importações e a Federação Russa recebeu quase 150 mil milhões de dólares das suas exportações. Esta situação tenderá a tornar-se crítica a médio e longo prazo.

Estes desenvolvimentos conduzem a novos debates acerca do verdadeiro significado da segurança e que tipo de relações duráveis será agora possível entre consumidores e produtores, de modo a que possam, a longo prazo, vir a satisfazer os interesses de ambos. A Guerra do Golfo ilustra, igualmente, tanto o crítico posicionamento do petróleo no equilíbrio de poder global, como a importância da interdependência entre produtores e consumidores industrializados.

No que se refere à União Europeia sublinhe-se que, dispondo apenas de 6,5 por cento da população mundial, contribui com mais de 25 por cento para o PIB total mundial e assegura 35,5 por cento das exportações e 34 por cento das importações registadas à escala mundial.

Slide 10: União Europeia, Balanço Produção/Consumo
Contudo, é por demais conhecida a sua dependência no que se refere a combustíveis.
O consumo do conjunto dos países-membros da União Europeia ultrapassa largamente a produção, dado que consomem 6 vezes mais petróleo do que produzem, o dobro do gás natural e 1,8 vezes mais carvão.
Podem considerar-se excepções, a confortável situação da Dinamarca, excedentária tanto em petróleo bruto como em gás natural, suportada pelas reservas disponíveis no Árctico (via Gronelândia), o equilíbrio mantido pelo Reino Unido e a recém entrada Polónia com o seu carvão.
Tendo em consideração o continuado aumento do preço do petróleo e dos seus efeitos na economia e no público, os Parlamentares europeus voltaram a chamar a atenção, em Outubro de 2005, para a necessidade de diversificar as origens energéticas, promover a conservação da energia e as energias renováveis.
É pretensão da União Europeia uma menor dependência dos combustíveis fósseis e uma maior eficiência energética. Segundo recentes declarações dos parlamentares, é preciso estimular e dinamizar o diálogo entre todos os parceiros energéticos europeus numa perspectiva de promoção da segurança do abastecimento, transparência do mercado e futuro investimento.
É de considerar que a União Europeia também já viu melhorada a sua dependência do petróleo do Médio Oriente com a entrada em serviço da chamada “Ponte energética Este-Oeste” em Julho deste ano, constituída pelo oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan, que transporta petróleo bruto desde o Mar Cáspio até ao Porto turco mediterrânico de Ceyhan, com capacidade de transporte de 1 milhão de barris/dia,
Este oleoduto constitui uma importante alternativa de suplemento de petróleo à Europa Ocidental, com uma mais elevada garantia de segurança.



Slide 11: Petróleo bruto convencional
Evolução da importação portuguesa (1996 - 2005)

Podemos ver, então, de forma não exaustiva, o que se passa em Portugal, se bem que seja sobejamente conhecido de todos.
Não sendo auto-suficiente nesta matéria, encontra-se no conjunto de países que depende da importação de matérias energéticas para satisfazer o mercado da procura.
Nesta fase, as importações portuguesas de produtos energéticos são maioritariamente constituídas pelo petróleo que atinge os 71 por cento do total.
As quantidades de petróleo bruto convencional importadas por Portugal têm-se mantido relativamente estáveis, apresentando ligeiras quebras registadas nos anos 1996, 2000 e 2002.
Porém, é de salientar que a estabilidade das quantidades de produto importado não corresponde aos custos dispendidos.
Muito longe disso.
O valor pago no ano passado (2005), a preços correntes, quase quadruplicou em relação ao de 1998, ao passar de pouco mais de mil milhões de euros, para quase 4 mil milhões. Quadruplicou, em apenas 7 anos, para idêntica quantidade de produto importado.
Já no decurso do corrente ano, os valores pagos no 1º semestre em relação ao período homólogo do ano passado, registaram um aumento de cerca de 50 por cento, para apenas um aumento de 10 por cento de produto importado. Sublinhe-se, no entanto que, apesar do forte aumento dos preços, mesmo assim, registou-se um aumento da importação.

Slide 12: Portugal: Principais fornecedores (ano 2005)

No referente às importações petrolíferas portuguesas, constata-se que são largamente originárias de 2 principais mercados que assumem cerca de 50 por cento do total: a Argélia e a Nigéria.
Os indicadores Risco País elaborados pela COFACE, colocam os dois países em situação muito diferente. Enquanto a Argélia é classificada como país de “quite low risk”, a Nigéria é classificada como país de “very high risk”.
Sublinhe-se que estas duas origens correspondem a fornecimentos de petróleo bruto da mais alta qualidade, equivalente ao Bonny Light oil, cujo baixo teor de enxofre o torna altamente desejado pelo baixo nível de corrosão provocado às infraestruturas das refinarias e pelo baixo impacto ambiental efluente da refinação dos seus produtos derivados.
Após estes dois grandes fornecedores seguem-se a Arábia Saudita e o Brasil, este último a atingir posição já muito significativa no ranking de fornecedores qualificados, apesar de classificado pela COFACE como país de “moderately high risk”.

Slide 13: Portugal
Quantidade de sondagens de pesquisa de hidrocarbonetos
(1900 a 2004)

Não tem sido descurada a procura de bolsas petrolíferas na plataforma continental portuguesa.

Verificou-se uma intensa busca logo após o fim da II Guerra Mundial, com acentuada queda quando surgiram origens a preços comerciais desincentivadores do investimento.

A retoma de sondagens coincide com os períodos correspondentes aos dois grandes choques petrolíferos ocorridos na década de 1970.


É evidente que os resultados da inventariação das sondagens realizadas possa vir a constituir extracções de petróleo bruto na plataforma portuguesa, quer em offshore quer em onshore, quando os valores comerciais do barril de petróleo atinjam valores compensadores dos investimentos a realizar.
A mais recente tentativa, que representa um investimento de 5 milhões de euros, foi iniciada na bacia de Peniche por consórcio que integra a Galp, a Partex e a Petrobrás.

Slide 14: Portugal
Consumo de electricidade, por origens
(ano 2005)

É, porém, para a diversificação das origens na geração de energia eléctrica que tem sido dirigida maior atenção, num esforço de redução do consumo de petróleo.
De acordo com os dados publicados pela Rede Eléctrica Nacional, a energia eléctrica de origem em combustíveis fósseis ainda é responsável por 63 por cento do total gerado, com a energia de origem hidráulica a manter-se nos 9 por cento do total.
Têm sido desenvolvidos consideráveis esforços na produção de energia eléctrica de origem eólica. Esta, ainda só contribuiu com 5 por cento dos cerca de 35.000 GWh produzidos em 2005. Mesmo assim, foi suficiente para colocar Portugal em 11º no ranking mundial.
A recente adjudicação da instalação de mais 1.200 MW de origem eólica, a instalar em 48 parques produtores, irá duplicar o seu contributo, colocar Portugal nos top five à escala mundial e ultrapassar a produção de energia eléctrica de origem hidráulica.
De realçar, igualmente, a construção da Central fotovoltaica de Moura, a maior à escala mundial, onde serão instalados 350.000 painéis solares, correspondentes a uma capacidade instalada de 62 MW.

Porém, no conjunto de constrangimentos a ultrapassar à escala mundial, procede a considerável questão de como conciliar o inevitável e continuado aumento da utilização dos hidrocarbonetos, com os imperativos ecológicos e ambientais. Caso paradigmático é o conflito de interessas inerentes à manifesta vontade de extracção dos imensos recursos disponíveis no Árctico ou a construção premente e urgente de novas e mais adequadas refinarias.

Slide 15: Petróleo bruto convencional
Evolução das reservas, produção, refinação e consumo (1970-2003)

Como podemos constatar, a refinação foi o único componente que não acompanhou o desenvolvimento do sector.
O período em que decorreram os dois grandes choques petrolíferos (1973 e 1979/80) corresponde, naturalmente, ao período em que decresceu a declaração de novas reservas exploráveis. Retomadas em ritmo acelerado até 1988, ano em que passaram a estar novamente estabilizadas em relação à produção e correspondente consumo.
Os aumentos de produção registados durante o período dos dois choques petrolíferos destinaram-se à captação de petróleo para reforço das reservas estratégicas dos países dependentes, cientes da imprevisibilidade da duração dos boicotes.
Também continuamos à espera da resolução das críticas situações decorrentes da partilha do Mar Cáspio e da encruzilhada vivida no Afeganistão, apenas possíveis de tratar na arena política internacional.
A questão dos oleodutos também é fundamental.
Numerosos países que dispõem de vastas reservas comprovadas estão impedidos de exportar as suas potenciais produções por não disporem das indispensáveis vias de escoamento, resolúvel pela simples construção de oleodutos, a que se agrega, nalguns casos, instalações portuárias adequadas.
Slide 16: Reservas mundiais de petróleo

Temos vindo a tratar do petróleo bruto leve, dito convencional, que, de acordo com os dados publicados pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos, corresponde, apenas, a 30 por cento do petróleo total disponível no mundo.
Destacam-se os petróleos pesados e extra-pesados, ditos não convencionais, que correspondem aos restantes 70 por cento, ainda muito modestamente aproveitados, e os combustíveis líquidos obtidos a partir da sintetização do carvão natural.
Uns e outros muito abundantes em reservas já comprovadas.

Slide 17: Reservas mundiais de petróleo bruto não-convencional

O grande óbice à utilização maciça dos petróleos não-convencionais reside nos custos de extracção e de processamento. No que se refere à sintetização do carvão os custos de processamento são elevadíssimos.

Ambos exigem um grande esforço financeiro de retorno a longo prazo.
Recorde-se que o petróleo convencional (leve) a caminho de um rápido esgotamento dispõe de uma característica fundamental inultrapassável: existente num jazigo petrolífero sob pressão, jorra de um furo que atinge a bolsa que o contém, sem necessidade de grandes operações complementares para extracção e processamento ou de tecnologia específica.
Além de que a indústria petrolífera requererá níveis de investimento muito mais elevados do que durante o passado recente, para compatibilizar a satisfação da procura com as exigências ambientais e o acréscimo dos custos resultantes da implementação dos reforçados sistemas de segurança.
Seremos obrigados a conjugar as várias fontes energéticas alternativas disponíveis, utilizá-las racionalmente e optar entre ambiente mais limpo ou manutenção do desenvolvimento económico. No equilíbrio das várias opções a tomar, residirá o bem-estar da civilização, tal como a conhecemos.

Aos países extremamente dependentes que não possam suportar tão grandes encargos, não restará outra saída que não seja a de investir fortemente nas energias alternativas: hidráulica (se tiverem água), eólica (se tiverem vento), fotovoltaica (se tiverem sol) ou biomassa (se tiverem solo arável e água).
E fazer um esforço titânico para conseguir manter operacional o seu parque de transportes.
Para terminar, façamos uma rápida análise à evolução dos preços do petróleo bruto leve, dito convencional, ao longo dos últimos 35 anos.

Slide 18: Petróleo bruto convencional
Evolução dos preços constantes referidos ao ano 2005 (1970-2005)

Constatamos, imediatamente, que os preços do barril dispararam em quatro ocasiões, devido não a causas imputáveis ao sector produtivo ou ao mercado, mas sim à ocorrência de factos políticos ou, até mesmo ao temor da sua ocorrência a curto prazo.
A primeira aconteceu com o embargo de fornecimentos da OPEP, imposta aos países que apoiaram a política dos Estados Unidos para o Médio Oriente, em 1973, o chamado 1º choque petrolífero.
A segunda deveu-se à ocorrência da revolução iraniana de 1979, que culminou com a deposição do Shah Reza Pahlavi e consequente bloqueio à extracção de petróleo dos seus poços em actividade normal. De seguida deflagrou a Guerra entre o Irão e o Iraque.
Foi o 2º choque petrolífero de consequências muito mais gravosas do que o primeiro.
Contou-se, porém, nessa conjuntura, com a preciosa ajuda da Noruega que passou de uma produção diária de cerca de 500.000 barris para os 3,5 milhões, o que a passou a colocar no importante lugar de terceiro maior exportador mundial de petróleo bruto convencional, posição que ainda ocupa, logo a seguir à Arábia Saudita e à Rússia.
A partir destes factos fortemente influenciadores dos preços, entrou-se num período de relativa estabilização, até que se atingiu um novo mínimo em 1986.
A terceira ocasião chegou com a invasão do Kuwait pelas tropas iraquianas, em 1990, para voltar a estabilizar pouco depois.
Por último, a grande convulsão provocada pelo abrandamento económico mundial, consequente do ataque terrorista do 11 de Setembro nos Estados Unidos.
A partir desta última ocorrência de cariz político, exógena ao sector produtivo petrolífero, os preços retomaram a sua tendência altista, a que não são alheios os baixos investimentos realizados durante as décadas de 1980 e 1990, nomeadamente à escala da prospecção e da abertura de novas extracções em bolsas petrolíferas comprovadas.
O investimento só foi fortemente relançado a partir do início da década de 2000, um pouco por toda a parte, salientando-se o de orientação do sector petrolífero russo, como já tivemos oportunidade de enunciar.
A Arábia Saudita também acaba de anunciar a decisão da Saudi Aramco em avançar com o megaprojecto destinado ao aumento da sua capacidade produtiva, através do desenvolvimento do campo petrolífero dos Khurais, que inclui a abertura de 300 poços em 23 novas localizações já identificadas. O valor a investir atinge os 3 mil milhões de dólares, para obtenção de mais 1,2 milhões de barris diários de petróleo bruto leve de alta qualidade, a partir do ano 2009.
As empresas portuguesas acompanharam o relançamento mundial de investimento no sector petrolífero, nomeadamente com a obtenção de um conjunto de concessões para exploração no Brasil, tanto em onshore, onde já garantem a sua participação em 33 blocos petrolíferos, como em offshore em águas profundas, onde estarão presentes em 5 blocos.

Slide 19: Petróleo bruto convencional
Evolução da produção mundial e preços correntes (1960-2005)

A análise da evolução da produção e abastecimento do petróleo bruto convencional ao mercado, pouco reflecte a variação dos preços.
Exceptuando os períodos em que ocorreram os dois choques petrolíferos, o consumo aumentou a taxas relativamente constantes, independentemente da variação dos preços correntes.

A nova dimensão de segurança entre nações exportadoras e nações importadoras dependentes desta matéria-prima estratégica, resultará da interligação entre o investimento, a finança e o comércio. Os produtores procurarão obter dos países consumidores: o capital, a tecnologia e a competência técnica, ao mesmo tempo que abastecerão os seus mercados.
Esta reorientação incitará a um redobrado esforço dirigido à investigação e à detecção de oportunidades, quer de investimento quer em participação no desenvolvimento das estruturas do sector.

Deixo-vos com uma questão para a qual ainda não encontrei resposta: “Que valor de mercado deverá atingir o barril de petróleo para que mobilize a captação dos desejados e indispensáveis megainvestimentos requeridos pelo sector petrolífero?”.



II Conferência Risco País
Desafios para a Europa e Portugal

“Energia, Petróleo: Oportunidades de investimento”
Porto, Hotel Sheraton, 9.Nov.2006

Comecemos por evidenciar a dependência económica configurada por numerosos países, na sua incessante busca de novas e mais seguras origens de bens energéticos, indispensáveis à manutenção do seu tecido socio-económico.

As populações reclamam o direito à energia!

De forma mais equitativa e mais razoável.

Porém, quer a Carta da Organização das Nações Unidas (1945) quer a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) são omissas quanto a esse direito.
Para culminar a questão, a Resolução 1803 (1962), da Assembleia Geral das Nações Unidas, atribuiu a soberania permanente sobre os recursos naturais aos povos das nações em cujo território se encontrem. Quer em terra firme, quer em águas territoriais atribuídas.

O princípio de soberania permanente sobre recursos naturais, garante primário do poder económico, começou a ser reclamado no início dos anos cinquenta, com o objectivo de justificar a revogação ou a alteração dos termos das concessões detidas por empresas estrangeiras, às quais tinham sido assegurados os mais amplos direitos de extracção de petróleo ou de minerais, em territórios dos Estados adjudicantes.
Estas concessões foram consideradas “não equitativas”, por serem marcadamente mais vantajosas para o concessionário estrangeiro do que para o Estado adjudicante, ou terem sido concedidas em resultado de coação ou abuso de influência.
A Declaração do Princípio da Soberania Permanente, como passou a ser conhecida, despontou no decurso do processo de descolonização e os novos Estados independentes sentiram-se no direito de reavaliar e alterar os acordos legais “não equitativos” sob forma de concessões, herdados do período colonial durante o qual os investidores estrangeiros (maioritariamente empresas multinacionais com as suas sedes no país metropolitano) tinham podido dispor de direitos de exploração dos recursos naturais encontrados dentro dos seus territórios.

A alteração, passou a poder ser efectuada, pelo exercício de:

· o direito de nacionalizar, isto é, de tomar os direitos detidos pelo investidor estrangeiro;
· o direito de alterar certos termos dos acordos
ou
· denunciar um acordo estabelecido com o investidor estrangeiro.

As novas estruturas, não só proporcionaram maiores receitas, como também possibilitaram aos Estados assumir a propriedade dos seus próprios recursos e mecanismos associados, há tanto tempo ambicionados, tanto para o desenvolvimento das capacidades nacionais, como para lhes permitir assegurar um efectivo controlo das operações.

Esta nova Ordem suscitou o aparecimento e o desenvolvimento de colossais empresas nacionais que actualmente dispõem de enormes recursos, quer financeiros quer em capacidade produtiva, de tal monto que podem mesmo vir a ameaçar a já fragilizada posição detida pelas majors, a curto ou a médio prazo.
Numa curta análise, podemos constatar, baseados nos elementos disponíveis caracterizadores das maiores empresas petrolíferas mundiais, como as nacionais dominam hoje a produção, continuando a ficar nas mãos das majors a liderança da refinação e da comercialização.

Se bem que a soberania permanente sobre recursos naturais, seja actualmente reconhecida como princípio fundamental do direito internacional, a precisa definição do seu alcance e implicações permanece uma tarefa jurídica de grande importância, não só porque se trata de um princípio que está passando por sucessivas adaptações, mas também porque continua a ser uma fonte embrionária donde emanam regras para salvaguarda dos interesses dos países em desenvolvimento, sobretudo no que se refere à utilização dos seus recursos naturais.
Ao abrigo deste princípio, uma Nação, mesmo de reduzida dimensão económica e territorial, mas que disponha de invulgar abundância de recursos naturais, pode vir a desfrutar de alto rendimento nacional, independentemente do seu estádio de desenvolvimento.
Bons exemplos a referir, podem ser os do Kuwait ou da Arábia Saudita, que têm conseguido atingir altos rendimentos per capita há décadas, graças à abundância do petróleo existente nos seus territórios.
Repare-se, igualmente, que o valor das exportações do petróleo angolano já vale 65 por cento do seu PIB nacional.
Porém, a exagerada dependência dos recursos naturais pode conduzir a situações de muito difícil solução, como são as relacionadas com o seu esgotamento, encaminhamento dos mercados clientes para outras origens ou, até mesmo, ao aparecimento de tecnologias que possam reduzir ou eliminar a necessidade desses recursos.
Em face deste panorama e do Direito Internacional Público, seremos obrigados a conjugar as várias fontes energéticas alternativas disponíveis, utilizá-las racionalmente e compaginar ambiente mais limpo com desenvolvimento económico.
No equilíbrio das várias opções a tomar, residirá o bem-estar da civilização, tal como a conhecemos.
A futura geração de energia requererá níveis de investimento muito mais elevados do que durante o passado recente, para compatibilização da satisfação da procura com as exigências ambientais, a descarbonização dos produtos energéticos e o acréscimo dos custos resultantes da implementação de reforçados sistemas da segurança das unidades de produção e de transporte.
Em termos de energia primária total consumida à escala mundial, o sector ainda se encontra dependente do recurso aos combustíveis fósseis, na ordem dos 88 por cento.

Acresce a insegurança da continuidade do regular abastecimento, não só por causas exógenas e endógenas ao sector dos combustíveis fósseis, sobretudo no que se refere ao petróleo bruto convencional, mas também pelos elevados riscos país, analisados e divulgados pelas entidades seguradoras.

Encontrámo-nos hoje, aqui, para analisar a envolvente deste produto comercializável que cairia na esfera do marketing internacional, logo sujeito às leis do mercado da oferta e da procura, se não se tivesse tornado preponderante produto estratégico.
O que o torna estratégico é a sua influência na soberania e na segurança nacionais.
Contrariamente aos mais tradicionais aspectos de segurança dirigidos às ameaças que vêm do exterior, muitos dos correntes acontecimentos que tocam na segurança nacional, enfatizam o aumento das ligações entre o domínio doméstico e o internacional.

Para tanto, basta ver como as expectativas económicas são cada vez mais realçadas pelas populações e como, frequentemente, não podendo ser encontradas nos próprios recursos do Estado, ao ser exigidas aos Governos e não encontrando suficiente satisfação, podem criar instabilidade interna e consequente aumento da insegurança.

Não posso deixar de sublinhar que quando ouvimos falar em crise de petróleo deparamo-nos com um perigoso equívoco.
Nem parece que esta escassa e finita matéria-prima, ou mesmo o sector petrolífero, estejam a atravessar uma crise que, por definição, é transitória. Nada que se possa comparar com boicotes, choques petrolíferos ou consequências de situações políticas pontuais, como algumas vividas no passado.
A situação aparenta um fim de ciclo que se caracterizou por uma suficiente capacidade extractiva disponível no sector e um continuado e regular abastecimento ao mercado.
Podemos enumerar a acumulação de constrangimentos exógenos a que o sector foi sujeito, de entre os quais se podem salientar:

· a duplicação da população mundial tendente para explosão demográfica, dado que passou dos 3 para os mais de 6 mil milhões de habitantes em apenas 40 anos,
· o aumento desmesurado do consumo de combustíveis fósseis
e
· as constantes e sucessivas pressões geopolíticas que têm colocado o sector petrolífero em permanente instabilidade.

Mas também encontramos muitos factores dentro do próprio sector, que lhe provocaram grandes constrangimentos, como seja:

· a escassez da oferta,
· o encerramento de inúmeros poços de extracção, não totalmente substituídos por outras novas explorações,
· o sector da refinação ter sido submetido a idêntico processo, nalguns casos devido à exigência de adaptação ás novas regras ambientais. Enquanto, no início da década de 1980 se dispunha de uma capacidade de refinação superior ao consumo em cerca de 25 por cento, situa-se, actualmente, em valores muito próximos dos do consumo.
Ou seja, o sector da refinação dispõe apenas, actualmente, de uma margem mínima de capacidade para acomodar mais aumentos de produto a entregar ao mercado.
e
· o arrefecimento do investimento durante as décadas de 1980 e 1990, em toda a cadeia petrolífera, desde a sondagem e detecção de novas bolsas, abertura de novas extracções até à construção de novas e mais adequadas refinarias.

A energia assumiu uma posição dominante na extensa agenda política económica, demasiado rapidamente para que permitissem ser encontradas vias de estabilização.
Apresenta-se, nas suas várias formas, como símbolo de desenvolvimento económico e, ainda mais, de riqueza e prosperidade.
Consequentemente, o acesso e o controlo dos recursos energéticos constituem uma preocupação central dos governantes e de todos aqueles que se encontram envolvidos em processos de produção industrial.
Contudo, a delapidação dos recursos globais tem sido excessivamente desigual e a distribuição dos recursos naturais vitais, não é equitativa nem razoável.
As disponibilidades são abundantes, mas apresentam-se desigualmente distribuídas entre países e povos, mesmo dentro das suas próprias fronteiras políticas, raramente coincidentes com fronteiras naturais.

Enquanto o aumento do conjunto populacional do mundo economicamente menos desenvolvido induz o aumento do consumo de recursos, é nos países economicamente desenvolvidos que se verifica maior delapidação.

Os actuais padrões de produção e de distribuição vigentes nos países ditos industrializados, muito provavelmente não poderão continuar a ser mantidos por muito mais tempo e a tendência para a imitação por parte dos outros irá causar irreparáveis danos ecológicos.
As actuações na incessante procura de mais recursos energéticos pelos grandes consumidores, provocaram profundas alterações, que forçaram a economia industrial mundial a depender ainda mais das limitadas fontes de energia.
Se não, vejamos: quando a população mundial atingiu os 4 mil milhões de habitantes no início da década de 1970, o consumo mundial de energia era de 5.500 milhões de toneladas equivalentes de petróleo.
A população aumentou 50 por cento até ao final do século, mas o consumo da energia quase duplicou.
Mesmo assim, a resposta energética ainda não satisfez as expectativas de melhoria das condições de vida e do esperado desenvolvimento económico à escala global.
Não é demais repetir que o consumo de energia não é equitativo nem razoável.
À guisa de exemplo, note-se que os noruegueses consumiram 424 milhões de Btu per capita em 2004, enquanto os angolanos apenas consumiram 12. Ou seja: um norueguês consome 35 vezes mais energia que um angolano. Curiosamente, ambos os países dispõem de enormes recursos energéticos, nomeadamente à escala do petróleo convencional.
No que nos diz directamente respeito e que nos interessa sobremaneira, constatamos que, enquanto o consumo mundial per capita apenas aumentou cerca de 10 por cento entre os anos 1980 e 2004, em Portugal aumentou mais de 230 por cento durante o mesmo período. Apesar deste nosso considerável aumento do consumo, ainda ocupamos o 68º lugar no ranking mundial de consumidores, com os nossos 105,5 milhões de Btu per capita. Os consumidores espanhóis ocupam o 44º lugar com 159 milhões de Btu per capita. Mais 50 por cento do que nós.

As previsões para o período 2005-2025 não são muito animadoras quanto ao controlo do aumento global mundial dos consumos de energia primária.

Em termos de energia primária total, para um aumento de 33 por cento da população mundial, prevista para os próximos 20 anos, exige-se um aumento de 55 por cento no abastecimento.

A explosão demográfica aliada à exigência da perpetuação dos altos níveis de vida conseguidos nos países ricos e à legitima pretensão de os atingir, reclamada pelos países pobres, introduziram inusitadas pressões no fornecimento estabilizado e continuado dos recursos naturais à escala mundial. Estas pressões provêm tanto da privação como das dimensões ecológicas do drama populacional, igualmente importantes na nossa concepção do mundo como população global.
O consumo dos recursos disponíveis e indispensáveis à manutenção do conjunto humano, continuou a aumentar, em muitas regiões, em ritmo superior ao aumento populacional.
A grande viragem dá-se em 1967 quando, pela primeira vez, o petróleo ultrapassou o carvão como principal fonte de energia à escala mundial.
O rápido aumento de população exigiu que o petróleo respondesse à pressão e se tornasse na principal fonte mundial de energia comercializável.

Note-se que o sector dos transportes (rodoviários, aéreos e marítimos) consome, actualmente, cerca de 50 por cento da produção mundial, quando, 30 anos antes, só consumia 42 por cento.
As previsões da International Energy Agency é que venha a atingir os 70 por cento em 2025.

Tem sido exercido um grande esforço para conseguir meios de transporte menos “glutões”, ao mesmo tempo que se têm desenvolvido as origens alternativas para geração de energia eléctrica, responsável por uma boa parte dos actuais restantes 50 por cento.

Repare-se que se registou um aumento do consumo de petróleo bruto convencional da ordem de apenas 2 por cento ao ano, no decurso dos últimos 50 anos.
Tendo em conta o aumento populacional e o desenvolvimento económico previstos, as previsões da International Energy Agency para o limiar do ano 2025, apontam para a exigência de um aumento da extracção na ordem dos 30 milhões de barris diários.
Nesta data, estaremos a consumir, cada dia que passa, cerca de 120 milhões de barris!
Deduzimos quem o irá consumir!
Mas donde irá ser extraído e quem o irá gerir?

O substancial aumento da entrega do produto ao mercado envolve prospecção, extracção, transporte e distribuição, a exigir os correspondentes colossais investimentos indispensáveis à sua realização.
As reservas comprovadas têm vindo a aumentar, graças às novas descobertas realizadas ao longo do tempo e que têm sido sucessivamente declaradas, a uma taxa de crescimento próxima da do consumo.
No entanto, é importante sublinhar que o aumento da produção do petróleo bruto convencional foi conseguido à custa do aumento da taxa de extracção em poços de alta rentabilização comercial, dado que a quantidade de poços em actividade tem vindo a ser drasticamente reduzida.
De realçar que, enquanto os Estados Unidos operavam em quase 1.500 existentes no ano 1980, passaram para apenas 560 em 2006. A partir desta data retomaram a actividade em mais alguns deles que tinham sido desactivados e iniciaram-se algumas novas explorações.
Surgiram, porém, novos actores na cena internacional:
A China e a Índia, que comportam cerca de um terço da população mundial e estão dependentes do petróleo para dar continuidade aos seus programas de desenvolvimento.
Estes novos consumidores gigantes sobrepuseram-se às economias industrializadas que foram relegadas para lugar secundário na ordem das prioridades a satisfazer.
Se surgiram novos grandes mercados consumidores dependentes, também surgiu a Rússia a disputar a liderança do mercado à Arábia Saudita, baseada nas suas imensas reservas recentemente activadas, localizadas no Árctico, na margem ocidental dos Urais, na Sibéria Oriental e na Ilha Sacalina.
No entanto, os indicadores Risco País, elaborados pelas agências especializadas, colocam os dois países em situação assaz diferente.
Enquanto a Arábia Saudita é classificada como país de “quite low risk”, a Federação Russa é classificada de “moderately high risk”.
Esta classificação não tem causado grandes dificuldades na captação de investimentos para o programa de desenvolvimento do sector petrolífero russo, tendo em consideração os recentes enormes investimentos realizados neste sector, pelos Estados Unidos, pelo Japão, pela China e até pela própria Arábia Saudita.
Admite-se, como dado adquirido, que ambos os governos são fortemente dependentes dos recursos gerados pelas suas exportações de hidrocarbonetos.
De acordo com as publicações do Fundo Monetário Internacional, enquanto para a Arábia Saudita contribuem com 38 por cento para a formação do seu Produto Interno Bruto, valem apenas 17 por cento para Federação Russa.
A Rússia, hoje considerada superpotência energética, já detém a liderança incontestada do mercado mundial do gás natural com uma quota de 22 por cento, e está em vias de conseguir idêntica posição no mercado do petróleo bruto, dado que pode vir a manter, a muito curto prazo, valores de produção próximas dos 10 milhões de barris diários, o que, na actualidade, corresponde a 12,5 por cento do total mundial produzido.
A actuação das forças do mercado dinamizaram uma transição no sector petrolífero russo que lhe permitiu não só desafiar a OPEP e a Arábia Saudita, como também captar a parte de leão da quota de crescimento da procura chinesa, indiana, japonesa e, eventualmente, até dos Estados Unidos.
Sublinhe-se que a situação actual do sector petrolífero dos Estados Unidos é preocupante, dado que passou de leader do mercado, nos bons velhos tempos, a rapidamente dependente da importação de nada menos do que dois terços das suas necessidades actuais, correspondentes a cerca de 25 por cento do total mundial produzido.

A conjunção das duas situações referidas, ou seja:

· o domínio exercido pela Federação Russa e pela Arábia Saudita, responsáveis por 26 por cento do petróleo entregue ao mercado
e
· a dependência dos Estados Unidos que, com apenas 4,5 por cento da população mundial, absorvem 23 por cento do petróleo entregue no mercado,

levam-nos a reflectir acerca dos riscos de uma actuação concertada eventualmente introduzida por russos e sauditas no sector produtivo e no mercado.

Estes desenvolvimentos conduzem a novos debates acerca do verdadeiro significado da segurança e que tipo de relações duráveis será agora possível estabelecer entre consumidores e produtores, de modo a que possam, a longo prazo, vir a satisfazer os interesses de ambos.
Para terminar, façamos uma rápida análise à evolução dos preços do petróleo bruto leve, dito convencional, ao longo dos últimos anos.
A análise da evolução da produção e abastecimento do petróleo bruto convencional ao mercado, pouco reflecte a variação dos preços.
Exceptuando os períodos que se seguiram aos dois choques petrolíferos, o consumo aumentou a taxas relativamente constantes, independentemente da variação dos preços correntes.
Constatamos, então, que os preços do barril dispararam em quatro ocasiões, devido não a causas imputáveis ao sector produtivo ou ao mercado, mas sim à ocorrência de factos políticos ou, até mesmo ao temor da sua ocorrência a curto prazo.

A primeira aconteceu com o embargo de fornecimentos da OPEP, imposta aos países que apoiaram a política dos Estados Unidos para o Médio Oriente, em 1973, o chamado 1º choque petrolífero.

A segunda deveu-se à ocorrência da revolução iraniana de 1979, que culminou com a deposição do Shah Reza Pahlavi e consequente bloqueio à extracção de petróleo dos seus poços em actividade normal. De seguida deflagrou a Guerra entre o Irão e o Iraque.
Foi o 2º choque petrolífero de consequências muito mais gravosas do que o primeiro.
Contou-se, porém, nessa conjuntura, com a preciosa ajuda da Noruega que passou de uma produção diária de cerca de 500.000 barris para os 3,5 milhões, o que a passou a colocar no importante lugar de terceiro maior exportador mundial de petróleo bruto convencional, posição que ainda ocupa, logo a seguir à Arábia Saudita e à Rússia.

A partir destes factos fortemente influenciadores dos preços, entrou-se num período de relativa estabilização, logo que foi atingido um novo mínimo em 1986.

A terceira ocasião chegou com a invasão do Kuwait pelas tropas iraquianas, em 1990, para voltar a estabilizar pouco depois.

Por último, a grande convulsão provocada pelo abrandamento económico mundial, consequente do ataque terrorista do 11 de Setembro nos Estados Unidos.
A partir desta última ocorrência, exógena ao sector produtivo petrolífero, os preços retomaram a sua tendência altista, a que não são alheios os baixos investimentos realizados durante as décadas de 1980 e 1990, nomeadamente à escala da prospecção e da abertura de novas extracções em bolsas petrolíferas comprovadas.
Enquanto a Arábia Saudita e a Federação Russa dominam e continuarão e dominar o mercado do petróleo convencional (o petróleo leve), a alternativa de continuidade de satisfação da procura constituída pelos petróleos pesados, extra-pesados e betumes, ainda muito modestamente aproveitados, é assumida, na sua quase totalidade, pela Venezuela e pelo Canadá.

Estas 4 superpotências energéticas – Arábia Saudita, Federação Russa, Venezuela e Canadá - poderão vir a constituir o núcleo dominante dos combustíveis hidrocarbonetos à escala mundial.

Não é demais relembrar que, de acordo com as estimativas avançadas pela International Energy Agency, o petróleo convencional disponível no mundo, corresponde, apenas, a 30 por cento do total, cabendo aos petróleos pesados e aos betumes, os restantes 70 por cento
Apesar dos imensos recursos disponíveis, estes só acrescentaram os seus 3 biliões de barris aos mais de 26 biliões de barris de petróleo bruto leve, actualmente produzidos.
O grande óbice à utilização maciça dos petróleos brutos não-convencionais (os pesados, extra-pesados e betumes), reside nos elevados custos de extracção e de processamento.

Recorde-se que o petróleo bruto leve (o petróleo convencional), a caminho de um rápido esgotamento, dispõe de uma característica fundamental inultrapassável:
jazente numa bolsa petrolífera sob pressão, jorra de um furo que atinge a bolsa que o contém, sem necessidade de grandes operações complementares para extracção e processamento ou de tecnologia específica.

Há que considerar que a extracção do petróleo não-convencional exige tecnologia e onerosos acrescidos recursos específicos: água e energia abundantes que garantam a injecção de vapor de água nas jazidas.
São, geralmente upgraded para lhes reduzir os componentes carboníferos ou para lhes adicionar hidrogénio, antes de as entregar às refinarias convencionais.
Os custos adicionais de processamento e upgrading explicam as razões pelas quais o desenvolvimento dos petróleos pesados e betumes ainda se encontra tão limitado.
O aumento das taxas de recuperação de depósitos do petróleo extra-pesado e dos betumes representa o desafio mais importante para que estas reservas se materializem.
No caso da Venezuela, membro da OPEP, já um grande exportador de petróleo bruto convencional, trata-se de petróleo pesado e extra-pesado com o inconveniente de comportar mais enxofre e contaminação de metais pesados que exigem uma muito mais complexa refinação.
Estas reservas venezuelanas, situadas na Faixa Petrolífera do Orinoco, estão estimadas em cerca de 2,2 triliões de barris, correspondendo a 90 por cento do total mundial estimado.
Neste particular, os pesados e extra-pesados venezuelanos beneficiam da localização na região do Rio Orinoco, onde foi construída, nos finais da década de 70, a mega-barragem e a Central Hidroeléctrica do Guri, com uma potência eléctrica instalada de 10.000 MW que disponibiliza abundante energia para a sua extracção e o processamento.
No caso do Canadá, recentemente assumido oil country, trata-se do aproveitamento de areias betuminosas a céu aberto, disponível em grandes quantidades no Athabasca, cujas reservas estão estimadas em cerca de 2,4 triliões de barris, correspondendo a 40 por cento do total mundial estimado.
A produção actual atinge cerca de 1 milhão de barris/dia, prevendo-se que venha a atingir os 3 milhões de barris diários no ano 2020, com previsões de chegar aos 5 milhões diários em 2030.
Para tanto, a Energy Alberta Corporation acaba de lançar a construção de uma central nuclear de reactores gémeos a entrar em serviço em 2016, para garantia do abastecimento da energia eléctrica necessária à extracção e processamento dos betuminosos do Athabasca, operados pela Shell Canada.
Recordo, para terminar esta análise, que os países da União Europeia, dependentes da importação de petróleo, pagaram por ele, o ano passado, cerca de 240.000 milhões de dólares. É evidente que qualquer subida substancial no valor do barril de petróleo provoca grande agitação nas suas economias.
Sublinhe-se que, dispondo apenas de 6,5 por cento da população mundial, contribui com mais de 25 por cento para o PIB total mundial e assegura 35,5 por cento das exportações de mercadorias e 34 por cento das importações registadas à escala mundial.
Contudo, é por demais conhecida a sua dependência no que se refere a combustíveis.
O consumo do conjunto dos países-membros da União Europeia ultrapassa largamente a produção, dado que consomem 6 vezes mais petróleo do que produzem, o dobro do gás natural e 1,8 vezes mais carvão.
Podem considerar-se excepções, a confortável situação da Dinamarca, excedentária tanto em petróleo bruto como em gás natural, suportada pelas reservas disponíveis no Árctico (via Gronelândia) e o equilíbrio mantido pelo Reino Unido.
A nova dimensão de segurança entre nações exportadoras e nações importadoras dependentes desta matéria-prima estratégica, resultará da interligação entre o investimento, a finança e o comércio.
Os produtores procurarão obter dos países consumidores: o capital, a tecnologia e a competência técnica, ao mesmo tempo que abastecerão os seus mercados.
Esta reorientação incitará a um redobrado esforço dirigido à investigação e à detecção de oportunidades, quer de investimento quer de participação no desenvolvimento das estruturas do sector.
Encontramo-nos hoje perante opções a tomar, que não podem continuar a ser adiadas, sob pena de nos vermos, a curto prazo, numa situação de carência generalizada, de consequências muito difíceis de ultrapassar:

· Se os preços do barril de petróleo forem colocados de tal modo baixos que os tornem acessíveis às economias débeis e dependentes da importação do petróleo para satisfazer as suas necessidades energéticas, desmotiva o investimento em novas descobertas e novas produções. Logo, o produto escasseará e provocará tomadas de posição que podem conduzir a conflitos de imprevisível dimensão.
· Se os preços forem colocados a um nível que incite o investimento, corre-se o risco do esmagamento global das economias dependentes, inclusivamente das ocidentais europeias e das norte-americanas.

Aos países extremamente dependentes que não o possam pagar, não restará outra saída que não seja a de optar por energias alternativas: hídrica (se tiverem água), eólica (se tiverem vento) ou biomassa (se tiverem solo arável e água). E fazer um esforço titânico para conseguir manter operacional o seu parque de transportes.
Daí a necessidade imperiosa da racionalização dos consumos do petróleo, da eficiência energética e do crescente recurso à utilização das energias alternativas, quer sejam de origem renovável, quer da controversa origem nuclear.

De uma consequência estamos certos: os custos associados ao cumprimento das exigências ambientais e aos investimentos a realizar nas novas eventuais descobertas de petróleo convencional, nas redes de oleodutos seguros e no desenvolvimento da tecnologia e processamento dos petróleos não-convencionais serão, inevitavelmente endossados aos consumidores.